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domingo, agosto 01, 2010

Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto.

José Saramago - O ano da morte de Ricardo Reis

sábado, março 06, 2010

breaking news



mutts

domingo, novembro 01, 2009

current mood



à espera do comboio na paragem de autocarro *




* sérgio godinho


sexta-feira, setembro 04, 2009

quarta-feira, setembro 02, 2009

current mood



brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer.


um deus passeando pela brisa da tarde - mário de carvalho

roubada à franksy, uma citação muito a propósito, de um livro altamente recomendável.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

por estas coisas simples

As coisas familiares.




A morte, o medo da doença, a família:

perigosa trilogia da minha vida,

moldada como poeira sobre o barro

dos outros. Os pulmões respondem,



sentes uma dor às vezes, a dor

que se estende do braço direito ao ombro

mais distante, o esquerdo, escutada

como um aviso, uma vontade de dormir.



Olhas então à tua volta: família,

casa, livros – teu único legado – e uma

varanda aberta para o sábado.

Por estas coisas simples sobrevives,



o caminho estreito abre-se sobre o mar,

os pulmões respondem, e o resto

do corpo acompanha a respiração,

cumprindo um dever de todos os dias,



percorrendo um mapa que vai do frio

à erosão, como uma ventania

de Inverno, uma soma de coisas

familiares, fantásticas, habituais.



francisco josé viegas

(aqui)

quinta-feira, setembro 11, 2008

e não resisto

a linkar este texto do little black spot.

sábado, julho 19, 2008

a herança

não me lembro bem como foi que começou com ele. o avô estava a ficar esquecido, diziam-me. recordo-me, sim, de a progressão ser lenta e relativamente benigna. arterioesclerose, era o que lhe chamavam na altura. o avô tomava as gotas, mantinha-se sorridente e bonacheirão, às vezes perdia-se nos seus passeios diários. sempre calma, a avó telefonava a pedir ajuda. saímos de carro e encontrávamo-lo invariavelmente num dos pontos do seu trajecto habitual: alameda, jardim constantino, praça do chile. ficava feliz de nos ver, como se se tratasse de um encontro casual e levávamo-lo a casa. às vezes, durante os passeios de carro, lia compulsivamente os anúncios dos outdoors. ou repetia o que tinha acabado de dizer. a minha avó nunca lhe restringiu a liberdade. só quando ele ficou de fraldas e acamado, se sentiu incapaz de lidar com a situação e o internou num lar. ele tinha 85 anos e ela 80 e todos os dias saía de casa sózinha e apanhava os transportes para o ir ver. do areeiro para o príncipe real.
anos depois, a história repete-se. aos 72 anos, pouco depois de ter deixado de trabalhar, ela começa com os esquecimentos, só que, desta vez, agravados pelo pânico: "vou acabar como o meu pai". ao lado dela, também não encontrou uma presença serena como a da minha avó, antes alguém que alimentou o medo, restringiu a liberdade de acção, a substituiu nas tarefas e a isolou. a progressão foi galopante. durante cinco anos, ela fechada com ele: não mexas, eu faço, senta-te, veste-te, deita-te. ou vamos à rua, para as pessoas verem que ainda és bonita e estás bem tratada. e finalmente, ao fim de muitos anos de vida em comum, ela obedecia ao que ele mandava fazer. pena a decadência, o descontrolo, o desgaste. ele adoeceu, ela foi internada. passeia agora num corredor sombrio, os olhos cor de mel perdidos no vazio. creio que nos conhece, se bem que por vezes não saiba bem quem somos. ontem fui visitá-la. que havemos de fazer quando as palavras se tornam inúteis? como saber se há ou não sofrimento em quem não se sabe expressar? porque teima o corpo em persistir, o coração em bater, quando não se sabe de onde se veio ou para onde se vai? nem como, nem porquê.
às vezes, naquela rede de neurónios carcomida, alguma coisa faz contacto e uma frase faz sentido. quantas vezes pensamos que ela não nos entende e ela percebe tudo em silêncio? quantas vezes acontecerá o contrário?
alzheimer. na lotaria genética que nós somos, qual será a probabilidade de me calhar esta herança do meu avô e da minha mãe? que antes disso se me inundem os pulmões de fumo e as coronárias de colesterol, que se me dissolva o fígado em vinha d'alhos, que a velocidade me apanhe de surpresa na curva de uma estrada, janela aberta e pé no acelerador.

ou então, que um pedaço de vidro inunde de luz uma artéria.


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sexta-feira, junho 13, 2008

d' a natureza do mal

Durante três dias, as estradas, em alguns pontos nevrálgicos do país, foram controlada por façanhudos que impediram a circulação de mercadorias. A polícia do Estado assistiu com benevolência. Habituada a dar porrada em trabalhadores fabris e estudantes faltava-lhe o cacete adequado e não actuou, nem seguramente recebeu ordens para tal. Agressões, atropelamentos mortais, destruição de bens, incêndios, foram consentidos com placidez. Enquanto os jagunços ocupavam a rua, o governo negociava com os representantes engravatados do sector. E repunha-lhes os lucros à custa dos restantes cidadãos, mais preocupados em encher os depósitos de carros e discutir o contrato de Scolari com o Chelsea.

Em plena crise a Galp aumentou o preço dos combustíveis. Mas não se ouviu nenhum grito de revolta, nem foi conhecida nenhuma acção responsável dirigida contra os distribuidores ou os produtores de petróleo.

A paralisação foi decidida, executada e dirigida por pequenos e médios patrões, com organização rudimentar. Os aparelhos sindicais clássicos que tinham mobilizado 200.000 pessoas na semana anterior assistiram, como o resto do país, ao espectáculo. Dos aparelhos sindicais neo-clássicos ninguém espera verdadeiramente nada.

Os partidos parlamentares estiveram a comemorar o dia não-se-sabe bem de quê. Os partidos de esquerda parlamentar fizeram declarações pavlovianas sobre a gaffe pavloviana do Presidente. A líder da oposição, economista de obra conhecida, esteve calada.

Os teóricos da alterglobalização fizeram ponte.

O Dr. Vital Moreira escreveu um artigo em louvor da economia de mercado regulada pelo Eng.ºSócrates e o dr. Loureiro fez um negócio milionário com peixe congelado no fim do prazo de validade.

Quando se esperava que os partidos explicassem aos eleitores a crise que encena os próximos episódios da civilização baseada no mercado, no individualismo e nos combustíveis fósseis, e apresentassem medidas para a dominar, houve futebol, história fedorenta, medalhas de metal sem valor em peitos sempre feitos e outros mais ingénuos.

Os jovens não acreditam na crise. Os jovens têm uma religião que tem como pilares os supermercados cheios de comida, o depósito de gasolina e os concertos de cerveja. A crise de Junho foi vivida como uma interrupção da festa, uma ressaca antes dos festivais de Verão.

Os mais velhos são jovens retardados. Como se vê nas reportagens do Europeu, os mais velhos olham para o lado antes de gritar, para ver como gritam os mais novos.

Os mais velhos dos mais velhos querem é que os deixem.

Os mais novos dos mais novos vão ser entregues aos pais biológicos.

Eu sei de um sítio com uma horta, água limpa, um falcão peneireiro nos céus. Não tenho é gasolina para lá chegar.
um país alienado e em crise, retratado pelo luís, n'a natureza do mal

segunda-feira, maio 12, 2008

presenting



Gil

Anteontem saíu-me isto na rifa. Cerca de 4 meses, abandonado.
Com os meus seis bigodudos e as minhas duas cadelas velhotas, o que me faltava mesmo era um estabanado destes para educar.

sábado, maio 10, 2008

a dançar na corda bamba

compromissos incontornáveis com datas ainda por definir, emperram planos para lá de um curtíssimo horizonte. nos meses que se arrastam e sem que se vislumbre forma de escapar ao indesejável / inevitável, esta é a banda sonora que mentalmente vou trauteando a cada dia que passa.


CARAMBA


Ó senhor da loja
já que a vida é curta
diga-me lá, se souber
quantos metros tem a dôr

e já que ainda por cima
a vida é pesada
diga-me lá, se puder
quantos quilos tem o amor

e já que a paciência
tem os seus limites
diga-me lá quantos são
que é p'ra eu saber se espero ou não
quando fôr desesperar


já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui já
(sei lá)
já que o futuro vêm
em peças separadas p'ra montar
(ah! ah! ah! ah!)
antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar

caramba
está-se p'raqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai

nem com que pé é que se samba

ó senhor da loja
já que a vida é bela
diga-me lá se souber
em que espelho a devo olhar

mas se por outro lado
diz que a vida é dura
arranje-me aí, se tiver
um capacete p'ra eu marrar

e já que a vida é feita
de pequenos nadas
guarde-me aí quatro ou cinco
que é p'ra quando for domingo
eu os poder saborear

já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui já
(sei lá)
já que o futuro vem
em peças separadas p'ra montar
(ah! ah! ah! ah!)
antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar

caramba
está-se p'ráqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai
nem com que pé é que se samba

ó senhor da loja
já que a vida é breve
arranje-me aí os ponteiros
dum relógio que atrasar

e já que no fundo
vai tudo dar ao mesmo
diga-me se o mesmo é mesmo
tudo o que ainda vai mudar

e já que é preciso
deitar contas à vida
desconte-me aí os meses
em que apenas fiz às vezes
doutro que não era eu

já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui lá
(sei lá)
já que o futuro vem
em peças separadas p'ra montar
(ah! ah! ah! ah!)
antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar

caramba
está-se p'ráqui a dançar na corda bamba.

Sérgio Godinho




segunda-feira, abril 28, 2008

odiozinhos

o mundo está cheio de pessoas

ontem, domingo: durante toda a tarde, a brasileira que mora na vivenda em frente da minha, resolveu brindar toda a vizinhança com música tipo bailinho-dos-bombeiros-em-época-de-carnaval. eu, que estava posta em sossego no meu quintal, enquanto a adorável família extravasava a sua alegria - sublinhada aqui e ali com os guinchinhos histéricos das crianças -quedei-me a destilar ódio pela humanidade em geral, enquanto imaginava razias com o corta-sebes.

domingo, abril 20, 2008

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

geografia da memória

o chão de tábuas corridas a brilhar de cera amarela. o boné do meu avô pendurado no bengaleiro. o leãozinho minúsculo do sporting na lapela do casaco. o meu avô de pé, na sala de jantar, o jornal aberto, enorme, em cima da mesa quadrada. o rádio grande sintonizado nos parodiantes de lisboa. a galinha corada no forno, com arroz branco, gomoso, para o almoço de domingo. a minha avó na cozinha, com a bata de trazer por casa, antes do banho da uma da tarde. o fogão em cima da bancada de mármore. a panelinha velha com a potassa para lavar a loiça. à saída da porta para o quintal, a gaíuta com a pia de despejos, de onde por vezes saíam enormes ratazanas. os jarros brancos nos canteiros. a roupa pendurada a secar, as cuecas brancas do meu avô, as cuecas pretas, com perna, da minha avó. o telheirinho com a máquina de lavar e o tanque, lado a lado. empoleirada no tanque, eu, de cabeça enfiada na janela sem caixilhos, a trocar cromos com a míuda dos vizinhos do lado. do outro lado do quintal, a buganvília de flores roxas da outra vizinha, mais velha, que por vezes também aparecia junto ao muro, para me entreter. a àgua aquecida em grandes panelas para o banho de imersão da minha avó. as dentaduras lavadas com sabão azul e branco. a mistura de glicerina e àgua de rosas que lhes amaciava as mãos. as janelas abertas para arejar a casa. a colcha vermelha e o travesseiro da cama dos meus avós, o telefone preto em cima da mesa de cabeceira com tampo de mármore. o espelho do guarda-vestidos em frente. na sala de jantar, o sofá-cama onde eu ficava quando dormia lá e a minha avó me contava histórias para adormecer. a cevada feita pela minha avó na cafeteira e as bolachas short-cake barradas com manteiga para o pequeno almoço. sózinhas, depois de o meu avô saír cedo para trabalhar. os livros ao meu alcance, os de bolso, da colecção rtp e os do círculo de leitores. horas a ler, sentada ou deitada de bruços na carpete verde da sala, a minha avó na cadeira baixinha, com um relevo de uma cara feminina no tampo de madeira. retalhos da vida de um médico, contos de natal, as pupilas do senhor reitor, david copperfield, oliver twist, as vinhas da ira. a janela para ver quem passava na rua. a senhora que morava em frente, a passear os sucessivos benficas e jolis, bamboleando-se, a rebinchar de gordos. o espectáculo de fazer saír um caixão por uma janela de um terceiro andar. o rapaz da mercearia em frente a atravessar a rua com um caixote de madeira ao ombro, com as encomendas da minha avó. a vizinha-alice à porta, a perguntar-lhe se queria alguma coisa da praça. o amola-tesouras-e-navalhas a passar na rua, o assobio a adivinhar chuva, segundo dizia a minha avó, sem que eu nunca tivesse percebido porquê. o meu avô a subir a rua, com uma caixinha de cartão com bolinhos ou amêndoas e eu a sair a correr ao encontro dele, a torcer um pé, uma vez até levei uma bota de gesso, assinada depois pelos colegas na escola. antes de jantar, na salinha da televisão, eu e o meu avô sentados nos sofás de napa preta, e a mesinha desdobrável entre nós a servir para os jogos de cartas, dominó, damas, xadrez, jogo do galo, batalha naval. o jantar servido nessa mesma mesa, a minha avó sentada na sua cadeirinha de espaldar. na televisão a preto e branco, vitorino nemésio, se bem me lembro, ou as conversas em família do marcelo caetano. depois do jantar, eu e a minha avó a ver filmes até ao hino nacional e à mira técnica. ivan o terrível, foi a primeira vez que me deitei à uma da manhã. às vezes o meu avô na cozinha a fazer pastéis de bacalhau, as colheres de sopa a roçarem uma na outra para lhes dar forma e a minha avó a refilar de ele estar ali ainda de casaco vestido. ao sábado, as idas com o meu avô ao mercado de arroios ou à fonte luminosa. os barquinhos de papel que ele me fazia a flutuarem no lago. as notas de vinte escudos do santo antónio que o meu avô me dava ao fim de semana. as moedas que eu pedinchava todo o dia à minha avó para ir à papelaria comprar cromos ou pastilhas. os rebuçados do dr. bayard nos bolsos do meu avô. as pastilhas valda de mentol. a máquina da costura e quinquilharias várias na dispensa, ao fundo do corredor. a senhor'ana, que fazia limpezas lá em casa, sempre de carrapito e vestida de preto, a mesma que me carregava às cavalitas quando encerava o chão, a envelhecer ao lado dos meus avós. o ovo estrelado que a minha avó me fazia para o lanche quando lá ia depois das aulas de francês. a minha avó já sozinha, a televisão ligada aos berros sem ouvir o telefone a tocar. nos últimos anos, eu a passar para a visitar, para lhe levar comida feita e ela, sempre cúmplice, a dar-me dinheiro para a gasolina ou para o tabaco.
escrevo como se estivesse dentro da casa, como se lhe sentisse o cheiro. há mais de treze anos que não passo sequer naquela rua. uns vizinhos que ignoro quem sejam, contestaram a possibilidade de eu ficar com o arrendamento, porque nós éramos ricos. tão ricos que só dez anos depois consegui ter uma casa minha. mas o que mais me rói é que me tenham roubado o lugar das minhas memórias. o que terão feito da casa dos meus avós? nunca mais fui capaz de passar àquela porta, nem eu, nem a minha mãe. no mapa de lisboa, a rua abade faria desapareceu, existe apenas cristalizada na minha memória. no mais fundo de mim, um rancor surdo, o desejo que a família que ocupou aquela casa nunca lá seja feliz.

sábado, fevereiro 23, 2008

zeca

terça-feira, fevereiro 05, 2008

segunda-feira, janeiro 28, 2008

carpe diem

aparar as sebes, cortar a relva, apanhar as folhas mortas, remexer a terra, soltar raízes velhas, enterrar os bolbos, podar as àrvores, combater as pragas, sujar as mãos, cansar o corpo, espantar as neuras, aproveitar até ao mais ténue raio estes gloriosos e inesperados dias de sol.