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domingo, novembro 13, 2011

como se fosse cada vez um veneno novo

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.

(Adolfo Casais Monteiro)

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quinta-feira, novembro 12, 2009

para sempre



se alguém disser que morreste, avançarei até à varanda do céu
escutarei a noite e recolherei o teu corpo da espuma dos planetas.
não deixarei que o teu rosto se dissolva nas minhas mãos,
insistirei no teu nome até que o mar ascenda à minha boca
e de luar em luar celebrarei o coração que fizeste meu, mudamente
porque o amor sobrevive às veias paradas do sangue.


adaptação de um poema de vasco gato, encontrado aqui


há um ano, por esta hora, estava a receber o pior telefonema da minha vida e inexplicavelmente soube-o assim que ouvi o toque do telemóvel. um ano, trezentos e sessenta e cinco dias. foi ontem. foi há uma eternidade.


sábado, novembro 15, 2008

Estamos finalmente sós, tu e eu. Não sei de onde me chegam estas palavras. Nunca houve palavras para gritar a tua ausência. Nos corredores do hospital, eu e ele, quase como estranhos que evitam o toque. Quando me abeirei de ti e te entreabri as pálpebras cerradas, uma definição dos compêndios que estudei - midríase fixa - irrompeu de imediato, trazendo com ela a consciência de que os teus olhos cor de mel já não voltariam a ver-me, de que já não saberias que eu estava ali ao teu lado. Os nossos sentimentos não vêm nos compêndios. Deles não consta qualquer capítulo sobre o que acontece quando essas palavras nos dizem respeito. O único consolo possível foi saber também que daí em diante não sentirias dor ou desconforto. Parece - não se sabe porquê - que uma artéria fraquejou e se rompeu de súbito no teu cérebro, alagando de sangue todo o território disponível em seu redor, comprimindo e destruindo o resto das tuas memórias, consciência e sensações. O meu cartão profissional abriu-me portas, acelerou diagnósticos, disponibilizou-me informação. Serviu para tudo menos para te trazer de volta. Consegui que autorizassem a presença de nós os dois junto de ti, mostraram-me as imagens, as provas concludentes de que tinhas chegado a um ponto sem retorno. Depois, expliquei-lhe a ele. Fiquei contente por saber que estiveste bem nesse teu último dia, até ao instante em que se deu o incidente e invejo-o porque esteve contigo nessa tarde, porque te viu rir e comer e beber e ainda dançaram juntos. Vem-me à memória a tua voz ao telefone - dois dias antes - e a promessa que já não pude cumprir de te visitar. Tinha saudades tuas. Tê-las-ei agora para sempre. Estas palavras evidenciam-se em toda a sua dimensão e espessura: "para sempre", "nunca mais".
Quando fomos obrigados a deixar-te, vim com a certeza que seria por poucas horas. Veio-me à memória também quando foste tu a regressar de outro hospital, naquele dia em que a avó já não te reconheceu. Lembrei-me também dela, a primeira a saber que o avô nos tinha deixado. O exemplo da vossa coragem e dignidade ajudou-me a ultrapassar estes dois dias. Estou certa de que continuará a guiar-me de agora em diante.
Tu sabes como são horríveis os homens de preto que exercem a profissão de estar ali, mas consegui enfrentá-los e escolher por ti os detalhes da última reunião em que estiveste presente. Nem tudo esteve ao meu alcance, as salas são soturnas, creio que terias gostado de mais luz. Mãos mais habilidosas do que as minhas ajudaram a maquilhar-te e pentear-te. Estiveste sempre de cara destapada e todos disseram que estavas linda como sempre, com um ar tão sereno, com os lábios a desenharem um quase-sorriso, que por vezes quase tinhamos a ilusão que respiravas ainda e que apenas dormias ao pé de todos nós. Tive ao meu lado quem me apoiasse o tempo todo. Exactamente as pessoas que eu queria que estivessem: nem mais, nem menos. Gostei de ver as tuas velhas amigas, muito dignas, muito bem-dispostas, falando de ti com carinho e bom humor.
Ele, foi igual a si próprio - idealizou-te, exagerou, reescreveu a história da nossa vida. Controlei-o o mais que pude. Sabes, está um pouco quebrado, mais manobrável. Descobri que mesmo a família dele o conhece melhor do que aquilo que eu pensava.
Creio que tiveste uma despedida digna, sóbria e afectuosa. Todos te levaram flores que tu tanto gostavas. Nós oferecemos-te rosas, brancas e vermelhas.
Amanhã vamos buscar as tuas cinzas e colocá-las sob um pedacinho de relva. Ficas perto de casa, rodeada de árvores, num sítio onde eu às vezes passeava quando era adolescente.
Estarás sempre comigo enquanto eu viver.
No mais fundo de ti, eu sei que traí. Mas sei também como eras capaz de perceber e perdoar, quando a tua inteligência e o afecto que tinhas por mim se sobrepunham ao egoísmo e às birras e à vontade de medir de forças comigo. Tal como eu sou capaz de entender e perdoar todos os compromissos que foste fazendo com a vida. Eu, que não te idealizo, e te amo com todos os teus defeitos. Ficaram tantas palavras por dizer. Ficaram tantos gestos por fazer. Sobrou tanto amor para dar.

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.