quinta-feira, fevereiro 28, 2008

geografia da memória

o chão de tábuas corridas a brilhar de cera amarela. o boné do meu avô pendurado no bengaleiro. o leãozinho minúsculo do sporting na lapela do casaco. o meu avô de pé, na sala de jantar, o jornal aberto, enorme, em cima da mesa quadrada. o rádio grande sintonizado nos parodiantes de lisboa. a galinha corada no forno, com arroz branco, gomoso, para o almoço de domingo. a minha avó na cozinha, com a bata de trazer por casa, antes do banho da uma da tarde. o fogão em cima da bancada de mármore. a panelinha velha com a potassa para lavar a loiça. à saída da porta para o quintal, a gaíuta com a pia de despejos, de onde por vezes saíam enormes ratazanas. os jarros brancos nos canteiros. a roupa pendurada a secar, as cuecas brancas do meu avô, as cuecas pretas, com perna, da minha avó. o telheirinho com a máquina de lavar e o tanque, lado a lado. empoleirada no tanque, eu, de cabeça enfiada na janela sem caixilhos, a trocar cromos com a míuda dos vizinhos do lado. do outro lado do quintal, a buganvília de flores roxas da outra vizinha, mais velha, que por vezes também aparecia junto ao muro, para me entreter. a àgua aquecida em grandes panelas para o banho de imersão da minha avó. as dentaduras lavadas com sabão azul e branco. a mistura de glicerina e àgua de rosas que lhes amaciava as mãos. as janelas abertas para arejar a casa. a colcha vermelha e o travesseiro da cama dos meus avós, o telefone preto em cima da mesa de cabeceira com tampo de mármore. o espelho do guarda-vestidos em frente. na sala de jantar, o sofá-cama onde eu ficava quando dormia lá e a minha avó me contava histórias para adormecer. a cevada feita pela minha avó na cafeteira e as bolachas short-cake barradas com manteiga para o pequeno almoço. sózinhas, depois de o meu avô saír cedo para trabalhar. os livros ao meu alcance, os de bolso, da colecção rtp e os do círculo de leitores. horas a ler, sentada ou deitada de bruços na carpete verde da sala, a minha avó na cadeira baixinha, com um relevo de uma cara feminina no tampo de madeira. retalhos da vida de um médico, contos de natal, as pupilas do senhor reitor, david copperfield, oliver twist, as vinhas da ira. a janela para ver quem passava na rua. a senhora que morava em frente, a passear os sucessivos benficas e jolis, bamboleando-se, a rebinchar de gordos. o espectáculo de fazer saír um caixão por uma janela de um terceiro andar. o rapaz da mercearia em frente a atravessar a rua com um caixote de madeira ao ombro, com as encomendas da minha avó. a vizinha-alice à porta, a perguntar-lhe se queria alguma coisa da praça. o amola-tesouras-e-navalhas a passar na rua, o assobio a adivinhar chuva, segundo dizia a minha avó, sem que eu nunca tivesse percebido porquê. o meu avô a subir a rua, com uma caixinha de cartão com bolinhos ou amêndoas e eu a sair a correr ao encontro dele, a torcer um pé, uma vez até levei uma bota de gesso, assinada depois pelos colegas na escola. antes de jantar, na salinha da televisão, eu e o meu avô sentados nos sofás de napa preta, e a mesinha desdobrável entre nós a servir para os jogos de cartas, dominó, damas, xadrez, jogo do galo, batalha naval. o jantar servido nessa mesma mesa, a minha avó sentada na sua cadeirinha de espaldar. na televisão a preto e branco, vitorino nemésio, se bem me lembro, ou as conversas em família do marcelo caetano. depois do jantar, eu e a minha avó a ver filmes até ao hino nacional e à mira técnica. ivan o terrível, foi a primeira vez que me deitei à uma da manhã. às vezes o meu avô na cozinha a fazer pastéis de bacalhau, as colheres de sopa a roçarem uma na outra para lhes dar forma e a minha avó a refilar de ele estar ali ainda de casaco vestido. ao sábado, as idas com o meu avô ao mercado de arroios ou à fonte luminosa. os barquinhos de papel que ele me fazia a flutuarem no lago. as notas de vinte escudos do santo antónio que o meu avô me dava ao fim de semana. as moedas que eu pedinchava todo o dia à minha avó para ir à papelaria comprar cromos ou pastilhas. os rebuçados do dr. bayard nos bolsos do meu avô. as pastilhas valda de mentol. a máquina da costura e quinquilharias várias na dispensa, ao fundo do corredor. a senhor'ana, que fazia limpezas lá em casa, sempre de carrapito e vestida de preto, a mesma que me carregava às cavalitas quando encerava o chão, a envelhecer ao lado dos meus avós. o ovo estrelado que a minha avó me fazia para o lanche quando lá ia depois das aulas de francês. a minha avó já sozinha, a televisão ligada aos berros sem ouvir o telefone a tocar. nos últimos anos, eu a passar para a visitar, para lhe levar comida feita e ela, sempre cúmplice, a dar-me dinheiro para a gasolina ou para o tabaco.
escrevo como se estivesse dentro da casa, como se lhe sentisse o cheiro. há mais de treze anos que não passo sequer naquela rua. uns vizinhos que ignoro quem sejam, contestaram a possibilidade de eu ficar com o arrendamento, porque nós éramos ricos. tão ricos que só dez anos depois consegui ter uma casa minha. mas o que mais me rói é que me tenham roubado o lugar das minhas memórias. o que terão feito da casa dos meus avós? nunca mais fui capaz de passar àquela porta, nem eu, nem a minha mãe. no mapa de lisboa, a rua abade faria desapareceu, existe apenas cristalizada na minha memória. no mais fundo de mim, um rancor surdo, o desejo que a família que ocupou aquela casa nunca lá seja feliz.

6 comentários:

Scarlata disse...

ui os contos de que eu gosto, vou voltar com calma para ler.
:)

Scarlata disse...

Eu quase que consegui sentir o cheiro dos pasteis de bacalhau... Que memorias tao lindas. :D

Tenho pena que nao tenhas podido ficar com a casa, mas sabes, tu adoravas aquilo por causa deles, com a sua ausencia ias dar com todas as problematicas e a ideia que tu tens ia desaparecer.

Obrigada por partilhares, também revi no teu conto um bocadinho de mim. ;)

alex disse...

obrigada, scarlata. :')

ainda bem que consegui transmitir um pouco do que sentia, pensei que este texto pudesse ser imperceptível para os outros.

Scarlata disse...

Ah nao nao, foi muito perceptivel para mim. Eu adoro estes contos porque as pessoas como tu conseguem por em palavras as propias emoçoes e sensaçoes.

Fico à espera de mais. :D

maria m. disse...

gostei muito de ler, alex.

e, se o lugar das memórias foi roubado, estas não o foram. estão bem vivas, aqui e aí, num recanto especial de ti mesma ;)

alex disse...

obrigada a ambas. :)