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quarta-feira, dezembro 30, 2009

a família tradicional



A família tradicional foi destruída quando as mulheres começaram a desenvolver actividades profissionais fora do lar doce lar. Mais tarde foi abatida pela introdução e generalização dos métodos contraceptivos hodiernos e pela emancipação sexual das mulheres, essas porcas, novamente. Pela mesma altura, também foi morta pela televisão, que impôs um fim inglório aos serões de profunda comunhão que todas as famílias tradicionais partilhavam em torno da telefonia. Não consta que a telefonia tenha acabado com a família tradicional, mas não me espantaria que o tivesse tentado. Mas a tortura não acabou aqui: aproveitando-se da televisão, chegaram os videojogos, que mataram a família tradicional, depois de a brutalizarem durante várias horas, com requintes de sadismo e sem que ninguém lhe acudisse. E não tardou muito até que a internet, aproximando os distantes e desconhecidos às custas do afastamento dos próximos e conhecidos, exterminasse, também ela, a família tradicional.

Embora não haja provas definitivas, decorrem indagações que hão-de acabar por atribuir à descrimininalização do desmancho a responsabilidade por um novo assassinato da família tradicional. Da mesma família tradicional que se prepara agora para ser morta pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo, independentemente da sua orientação sexual. Independentemente da sua orientação sexual já podiam e amiúde o faziam, mas o papel passado é o que, aparentemente, o torna fatal para a família tradicional. E não tardará muito até que a eventual permissão da adopção, também ela de papel passado, de criancinhas indefesas por parte destes novíssimos e inauditos casais que se estão a preparar para matar a família tradicional, mate, mais uma vez, a família tradicional. Pode ser que um dia alguém se lembre de fazer o serviço recorrendo aos únicos meios de comprovada eficácia para tratar destes casos: uma carabina semi-automática, um jerricã de querosene e uma caixa de fósforos. Talvez que nesse dia nos vejamos, finalmente, livres daquilo.


Eduardo, no Àgrafo

quarta-feira, julho 08, 2009

terça-feira, dezembro 23, 2008

terça-feira, dezembro 09, 2008

saír do armário


bicho-do-mato. sem irmãos, sem primos. a menina de botas ortopédicas que desatava mal saía de casa, atafulhada de roupa para não se constipar, a boina guardada dentro da pasta da escola para não ser gozada pelos colegas. resistência passiva. numa redoma.

as tardes em casa, vigiada pela avó paterna, parada, especada à porta do quarto - incapaz de um ardil ou subtileza - a olhar para mim. perguntava-lhe o que estava a fazer ali, a segurar a ombreira da porta e ela, com a honestidade dos que passaram a vida a obedecer, respondia-me que o meu pai a tinha mandado ver o que eu fazia, dentro das quatro paredes do meu quarto.

o corredor era comprido. comprido e largo, com um recanto onde mais tarde se fez um guarda-fatos, de parede a parede. nele aprendi primeiro a andar de triciclo, de bicicleta depois, antes de ter obtido autorização para ir para as primeiras voltas no passeio, em redor dos prédios. o sr. amaro, um braço paralisado, tinha uma oficina improvisada para remendar os furos dos pneus das bicicletas de toda a canalha. sem mão(s) a medir.

pedalar rua acima, rua abaixo, em redor do jardim da companhia das àguas. andar por cima do muro, saltar na parte mais alta, chupar as flores cor-de-rosa dos arbustos, colher as bolinhas laranja para soprar por zarabatanas improvisadas. os mesmos arbustos onde mais tarde me escondi com colegas para fumarmos os primeiros cigarros roubados ao meu pai.

até aos 10 anos, o colégio. filinhas ordeiras para as aulas, para o refeitório, para as visitas de estudo. o horror ao ballet, às aulas de ginástica. um canto para me enfiar ao abrigo dos olhares e gracejos e implicâncias dos miúdos mais desembaraçados. um dia, a professora mandou-me ir buscar um apagador à sala do lado. entrei tão silenciosamente que ninguém deu por mim. a aula prosseguiu e eu ali, parada, sem coragem para interromper, sem coragem para voltar para trás de mãos a abanar. neste impasse, uma porta aberta de um armário e eu metida lá dentro, acocorada, até se terem lembrado de ir procurar por mim.

"não". consta que foi a primeira palavra que aprendi a dizer. so quiet, so low-profile. and yet... boa aluna, tentaram fazer-me chefe de grupo, mas a semente da anarquia estragava-me o perfil de "capataz". esgueirava-me antes de me irem buscar à porta do colégio, para ir sozinha para casa, envergonhada e asfixiada pela super-protecção.

o ambiente que se viveu após 74 e a transição para a escola preparatória, foi o fósforo aceso no rastilho de pólvora comprimida. a passagem da resistência passiva para a rebelião descarada. a adolescência em pé de guerra.

a geração que viu os helicópteros a sobrevoar a fernando pessoa no 11 de março e ia ouvindo os rumores do que se estava a passar no ralis. o pai de uma colega que teve de fugir para o brasil. os professores que eram levados a conselho directivo por turmas em peso. e aqueles em que não se tocava nem num cabelo, defendidos pelos mesmos pequenos selvagens que aprendiam em (quase) auto-gestão que o respeito não se obtinha por decreto ou hierarquia. tinha que se merecer.

escapar à vigilância do sr. lima e ao seu manso pastor alemão e passar as redes da escola para ir comprar gelados à sorraia. caramelo, chocolate, morango. gelados de máquina, em cone, a vinte e cinco tostões, subtraídos ao cofre onde guardava as moeditas que ia cravando aos meus avós, as notinhas verdes do santo antónio a cada fim-de-semana.

saír da fernando pessoa para os viveiros. um lamaçal, os pavilhões ainda em construção. a sala "de convívio" tinha só as paredes. alguns colegas roubavam sódio nos laboratórios de química para fazer fogos de artifício nas poças das casas de banho que as empregadas não limpavam nunca. os esqueletos com um lencinho na cabeça e um cigarro no maxilar escancarado. cadeiras partidas, brincadeiras com extintores, o pó vermelho do chão. tóxico, segundo se dizia. alguns professores que nos dias quentes nos levavam para aulas ao ar livre, sentados na relva, fora dos muros da escola. os "furos", os tempos livres, a era de ouro das conversas intermináveis. sobre tudo e sobre nada.

amizades que perduraram, outras a que se perdeu o rasto. os primeiros copos, as aventuras para lá dos limites do bairro, as horas de regresso a casa cada vez mais esticadas.

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suponho que cresci. ou faço de conta que sim. não mudei o mundo. não sei se o mundo me mudou a mim. passou a época das rebeliões. ainda sei dizer não, mas voltei a "desapertar as botas" quando ninguém está a ver. e quantas, quantas vezes sinto que continuo a lutar comigo mesma para saír daquele armário.