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segunda-feira, maio 26, 2008

o caminho

(...) O caminho da história não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajectória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar. (...)
roubado daqui (e a abrir o apetite para o livro)

terça-feira, janeiro 09, 2007

Era o que sentia agora. Lembrava-se de uma terrível convulsão no seu interior, algo para cuja explicação todos os meios de que dispunha por enquanto eram insuficientes.
Portanto, concluiu, deve ter siso alguma coisa muito mais necessária e profunda do que se pode avaliar com a razão e os conceitos...
E aquilo que existira antes da paixão, que fora recoberto por ela, a coisa real, o verdadeiro problema, estava enraizado nele. Aquela perspectiva alternada de longe e perto, que ele experimentara. Aquela relação incompreensível que dá a factos e coisas valores súbitos, conforme o nosso ponto de vista, e que são inteiramente estranhos e incomparáveis entre si...
Isso e tudo o resto - ele via-o singularmente, nítido, puro e pequeno. Assim como vemos pela manhã, quando os primeiros e puros raios de sol secaram o suor do medo, e a mesa, o armário, o inimigo e o destino se recolhem novamente às suas dimensões naturais.
Mas tal como nesse caso permanece em nós uma leve lassidão pensativa, também assim acontecia com Torless. Agora ele sabia distinguir entre o dia e a noite; na verdade sempre soubera; apenas, um pesadelo deslizara sobre essas fronteiras, confundindo-as, e ele envergonhava-se dessa confusão. Contudo, a lembrança de que podia ser diferente, de que existem ao redor do ser humano fronteiras finas, facilmente extinguíveis, e de que sonhos febris se esgueiram em torno da nossa alma, corroendo os muros firmes e abrindo sulcos sinistros - essa lembrança acomodava-se no fundo dele e irradiava as suas pálidas sombras.
Robert Musil - O Jovem Torless

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Já não tenho medo de nada. Sei que as coisas são coisas e sempre o serão, e que sempre as verei ora de uma maneira, ora de outra. Ora com os olhos do raciocínio, ora com aqueles outros...E nunca mais tentarei comparar as duas coisas.


Robert Musil - O Jovem Torless

domingo, janeiro 07, 2007

Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastos; Os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer. Pode-se ter uma ideia genial, e ainda assim, como uma flor, ela murchará lentamente entre as nossas mãos. Permanece uma forma, mas faltam as suas cores e o seu aroma. Isso significa que, embora posteriormente nos lembremos bem dessas ideias, palavra por palavra, e o valor lógico da frase permaneça inalterado, ela apenas flutua desorientada na superfície do nosso interior, e já não nos sentimos enriquecidos por possuí-la. Até que - talvez anos depois - de súbito surge o momento em que vemos que, naquele meio tempo, nada sabíamos sobre ela, ainda que, do ponto de vista da lógica, soubéssemos tudo.
Sim, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. Um pensamento que se encontra por esse meio permanece indiferente, como um homem qualquer a marchar numa fila de soldados. Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é a lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada...uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz da nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja porta extrema, como uma flor, pousa o pensamento.
Robert Musil - O Jovem Torless

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Quando anoiteceu e acenderam os lampiões, sentou-se à mesa e colocou à frente o caderno em que fizera todas aquelas rápidas anotações.
Mas por muito tempo não leu nada. Passou a mão pelas páginas, e era como se delas subisse um delicado aroma, como alfazema entre velhas cartas. Era a ternura misturada com a melancolia que dirigimos às coisas já passadas, quando, na suave, pálida sombra que delas emerge, com flores murchas nas mãos redescobrimos esquecidas semelhanças connosco próprios.
E essa nostálgica, delicada sombra, esse perfume fanado pareciam perder-se numa ampla, densa e cálida torrente - a vida, agora aberta diante de Torless.
Uma fase encerrava-se, a alma formara mais um anel, como na casca de uma árvore jovem. Essa sensação poderosa, para a qual não havia palavras, desculpava tudo o que acontecera.


Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois os nossos pensamentos e sensações não correm tranquilamente como um rio, eles "ocorrem-nos", na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se surgisse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão.Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte. (*)
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. É por isso que temos esse medo ridículo da morte irreversível, porque ela é, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insondável em que caímos. Na verdade, ela é a negação absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida, apenas para aqueles que não aprenderam a sentir-se de outro modo, a não ser de instante em instante.
Chamo a isso o mal saltitante, e o segredo está apenas em superá-lo. Temos de despertar em nós a sensação de que a vida é algo que desliza tranquilamente. No momento em que isso acontecer, estamos tão próximos da morte como da vida.
Já não vivemos - à luz dos nossos conceitos terrenos -, mas também já não podemos morrer, pois com a vida superámos também a morte. É o momento da imortalidade, o momento em que a alma sai da estreiteza do nosso cérebro para entrar nos maravilhosos jardins da sua vida. (**)

Robert Musil - O Jovem Torless

(*) - citação segundo o livro - colecção mil folhas do 'Público'
(**) - citação segundo o blog do 'citador'
por verificar que a citação existia no blog, interrompi a transcrição, verificando depois haver diferenças significativas na tradução.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Então Torless desistiu de procurar palavras. A sensualidade que se esgueirara para dentro dele paulatinamente nos momentos de desespero despertava agora com toda a intensidade. Deitava-se ao lado dele, nua, cobrindo-lhe a cabeça com um manto negro e macio, sussurrava ao seu ouvido suaves palavras de resignação e com os seus dedos cálidos afastava todas as perguntas e deveres, como se fossem vãos. Sussurrava: na solidão tudo é permitido.
Robert Musil - O Jovem Torless

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Tentou algumas vezes prosseguir com as suas anotações, mas as palavras escritas eram mortas, uma série de pontos de interrogação horrendos, bem conhecidos, sem que voltasse o momento em que ele olhara através delas como uma abóboda iluminada pela ténue claridade de velas.
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, dezembro 26, 2006

Será lei geral que exista em nós algo mais forte, mais belo, maior, mais apaixonado, mais sombrio do que nós mesmos? Algo sobre o qual exercemos tão pouco poder? Podemos apenas espalhar milhares de sementes sem objectivo, até que uma delas repentinamente floresça como uma flama escura, crescendo muito acima de nós?

Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Não pensava em nada, embora estivesse muito ocupado interiormente. Observava-se a si mesmo. Era como se olhasse para o vazio e só de esguelha obtivesse uma indistinta noção de si.
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, dezembro 19, 2006

De repente notou - e era quase como se fosse pela primeira vez - quanto o céu ficava longe.
Foi como um sobressalto. Exactamente por cima dele reluziu entre nuvens uma nesga azul, indizivelmente profunda.
Sentiu que poderia subir até lá numa escada bem longa. Mas, quanto mais entrava ali, erguendo-se pelo olhar, mais o fundo azul e luminoso se encolhia, recuando. Era como se ele tivesse de alcançá-lo, segurando-o com os olhos. Esse desejo tornou-se torturantemente intenso.
(...)
- O infinito! - Torless conhecia o termo das aulas de matemática. Jamais imaginara algo de especial a esse respeito (...)
Agora, porém, varava-o como um raio a compreensão de que essa palavra continha algo terrivelmente inquietante. Parecia-lhe um conceito domesticado, com que fizera diariamente pequenas artes, mas que de repente se libertara. Algo que ultrapassava o entendimento, algo selvagem, aniquilador, adormecido pelo trabalho de algum inventor e que de repente despertara e se tornara novamente terrível. Ali, naquele céu, isso achava-se agora por cima dele, vivo e ameaçador, zombando sinistramente dele.
Por fim, cerrou os olhos, porque a visão torturava-o demais.
(...)
Ainda percebia o céu, imenso, silencioso, a fitá-lo lá de cima; agora recordava-se que muitas vezes essa impressão o dominara e, entre a vigília e o sonho, reviveu essas lembranças, enredado na sua trama.
(...)
Torless ficou dominado pelo anseio louco de ver duplamente todas as coisas, pessoas e factos. Como se se prendessem, de um lado, à palavra inocente e esclarecedora fornecida por um inventor qualquer e do outro lado fossem muito estranhas, ameaçando libertar-se a qualquer momento.
(...)
É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse de si. E aquilo que parece grande e estranho enquanto as nossas palavras, de longe, anseiam por isso, torna-se simples e perde o que tem de inquietante mal entra no ritmo da nossa vida diária.
(...)
Era a falha das palavras que o torturava, a vaga consciência de que as palavras eram apenas subterfúgios transitórios para as coisas realmente experimentadas.
(...)
Voltara novamente os olhos para o céu. Como se, por acaso, ainda pudesse descobrir o seu mistério e decifrar o que havia nele de tão perturbador. Mas cansou-se e foi dominado por uma profunda solidão. O céu estava mudo. Torless sentia que estava completamente só debaixo da abóboda hirta e calada, como um diminuto ponto vivo sob aquele cadáver imenso e transparente. Isso, porém, pouco o assustou. Era como uma dor antiga, já familiar, que enfiam atacasse também as suas últimas fibras.


Robert Musil - O Jovem Torless

domingo, dezembro 17, 2006

Só quando se tratava de tomar uma decisão, de assumir os riscos de uma escolha entre as várias opções psicológicas e agir, é que ele falhava, perdia o interesse e a energia.
(...)
Ansiava então por sentir algo determinado, necessidades certas, distinguindo entre o bom e o mau, entre o útil e o pernicioso, saber decidir-se, ainda que erradamente, era melhor que assimilar tudo com excessiva receptividade...
Robert Musil - O Jovem Torless

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Sentar-se de noite na janela aberta, sentindo-se abandonado, sentindo-se diferente dos adultos, com todos aqueles sorrisos e olhares trocistas que não o compreendiam, sem poder explicar a ninguém o que já sabia ser, e ansiar por alguém que o compreendesse...Isso é amor! Mas para senti-lo é preciso ser jovem e solitário.
(...)
Os planos pacientes que imperceptivelmente encadeiam os dias, formando meses e anos para o adulto, ainda lhe eram alheios. Assim também o embotamento que nem permite ao menos fazer indagações quando mais um dia se acaba. A sua vida estava centrada em cada dia. Cada noite, significava um nada, uma extinção. Ele ainda não tinha aprendido a morrer ao fim de cada dia sem se preocupar.
Por isso sempre imaginara que, por detrás de tudo, havia algo que lhe ocultavam. As noites pareciam-lhe escuros portões diante de secretas alegrias, de modo que a vida permanecia-lhe secreta e infeliz.
Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não é o efeito de uma primeira paixão, mas a sua causa. A paixão é apenas um refúgio, no qual estar com o outro significa solidão duplicada.
Quase sempre a primeira paixão pouco perdura e deixa um ressaibo amargo. Trata-se de um logro, de uma decepção. Quando ela passa não compreendemos como fomos capazes de tudo aquilo, nem sabemos a quem culpar. Isso acontece porque as personagens desse drama em geral encontram-se por acaso: eventuais companheiros de uma fuga enlouquecida. Apaziguados, não se reconhecem mais. Percebem que são diferentes, porque já não se dão conta do que têm em comum.

Robert Musil - O Jovem Torless

sábado, dezembro 02, 2006

Entre os factos externos e o seu eu, sim, entre as suas próprias emoções e o seu eu mais remoto, que ansiava por entendê-las, haveria sempre uma linha divisória que, como um horizonte, recuava ante o seu anseio.
Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, novembro 30, 2006

O que é que na verdade faz algum sentido? De que nos adianta? Quero dizer, o que é que adianta para nós, entende? À noite, sabemos que vivemos mais um dia, que aprendemos isto e aquilo, cumprimos o horário, mas permanecemos vazios, quero dizer, vazios por dentro, e continuamos com uma fome interior...
(...)
- Preparar? Exercitar-se? Para quê? Você sabe algo determinado? Talvez espere algo, mas também não tem nenhuma certeza do que seja. A coisa é assim. Uma eterna espera de algo do qual não sabemos senão isto: que estamos à sua espera...É tão aborrecido...

Robert Musil - O Jovem Torless
Há sempre um momento em que já não sabemos mais se estamos a mentir, ou se o que inventamos é mais verdadeiro que nós próprios.

Robert Musil - O Jovem Torless