terça-feira, dezembro 30, 2008

domingo, dezembro 28, 2008

sábado, dezembro 27, 2008

saudades da infância


bill watterson

sexta-feira, dezembro 26, 2008

the way we worked









mais aqui

a invenção do dia claro



+O LIVRO+


Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para
ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
senão estou perdido.

No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

* * * * *

Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata
da vida; era justamente do que eu necessitava--pôr sciencia na minha
vida.

Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.

Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
e semelhança de Deus. Não basta?

* * * * *

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
a morada e o dia.

* * * * *

Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome,
cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si--não saber
cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
soube cuidar de si!

* * * * *

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
só de uma peça: Um homem!

* * * * *

Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar
e nenhuma era para copiar.

Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.

Talvez que nos outros livros... mas os titulos dos livros são
como os nomes das pessoas--não quere dizer nada, é só para não
se confundir...

* * * * *

Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras
tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se
aprendia a ler antigamente.

* * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

* * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade.



José Almada Negreiros - Projecto Gutenberg - online reader - págs 2 / 3 / 4

terça-feira, dezembro 23, 2008

.|.


salvem a humanidade do catolicismo

slogan de natal



roubado ao peão

muttley's corner # 5





por vezes, as melhores estratégias de marketing devem-se a rasgos de inspiração que surgem de onde menos se espera. o homem pode ter revelado não ter grande pontaria, mas a empresa beneficiária deveria não só empenhar-se a sério na sua defesa, como reconhecer-lhe o justo valor, quando chegar a hora de contabilizar os lucros.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

current mood

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.



Adélia Prado

roubado à lebre

terça-feira, dezembro 16, 2008

segunda-feira, dezembro 15, 2008

god's away on business

o joão lisboa brinda-nos uma vez mais com um contributo inestimável para a história da santa madre igreja, que eu não resisto a transcrever:


FIGURAS & FACTOS DA HISTÓRIA CRISTÃ (I)*


A Taxa Camarae foi uma tarifa promulgada, em 1517, pelo sábio papa Leão X (1513-1521) com o fim de vender indulgências, apaziguar almas inquietas e absolver de forma simples e expedita, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao santo pontífice. Inventor do Seguro de Pecado Vitalício (em particular, na Indulgência 18), mecenas das artes e sodomita impenitente, Leão X foi uma das mais notáveis figuras do Renascimento Italiano.

1. El eclesiástico que incurriere en pecado carnal, ya sea con monjas, ya con primas, sobrinas o ahijadas suyas, ya, en fin, con otra mujer cualquiera, será absuelto, mediante el pago de 67 libras, 12 sueldos.

2. Si el eclesiástico, además del pecado de fornicación, pidiese ser absuelto del pecado contra natura o de bestialidad, debe pagar 219 libras, 15 sueldos. Mas si sólo hubiese cometido pecado contra natura con niños o con bestias y no con mujer, solamente pagará 131 libras, 15 sueldos.

3. El sacerdote que desflorase a una virgen, pagará 2 libras, 8 sueldos.

4. La religiosa que quisiera alcanzar la dignidad de abadesa después de haberse entregado a uno o más hombres simultánea o sucesivamente, ya dentro, ya fuera de su convento, pagará 131 libras, 15 sueldos.

5. Los sacerdotes que quisieran vivir en concubinato con sus parientes, pagarán 76 libras, 1 sueldo.

6. Para todo pecado de lujuria cometido por un laico, la absolución costará 27 libras, 1 sueldo; para los incestos se añadirán en conciencia 4 libras.

7. La mujer adúltera que pida absolución para estar libre de todo proceso y tener amplias dispensas para proseguir sus relaciones ilícitas, pagará al Papa 87 libras, 3 sueldos. En caso igual, el marido pagará igual suma; si hubiesen cometido incestos con sus hijos añadirán en conciencia 6 libras.

8. La absolución y la seguridad de no ser perseguidos por los crímenes de rapiña, robo o incendio, costará a los culpables 131 libras, 7 sueldos.

9. La absolución del simple asesinato cometido en la persona de un laico se fija en 15 libras, 4 sueldos, 3 dineros.

10. Si el asesino hubiese dado muerte a dos o más hombres en un mismo día, pagará como si hubiese asesinado a uno solo.

11. El marido que diese malos tratos a su mujer, pagará en las cajas de la cancillería 3 libras, 4 sueldos; si la matase, pagará 17 libras, 15 sueldos, y si la hubiese muerto para casarse con otra, pagará, además, 32 libras, 9 sueldos. Los que hubieren auxiliado al marido a cometer el crimen serán absueltos mediante el pago de 2 libras por cabeza.

12. El que ahogase a un hijo suyo, pagará 17 libras, 15 sueldos (o sea 2 libras más que por matar a un desconocido), y si lo mataren el padre y la madre con mutuo consentimiento, pagarán 27 libras, 1 sueldo por la absolución.

13. La mujer que destruyese a su propio hijo llevándole en sus entrañas y el padre que hubiese contribuido a la perpetración del crimen, pagarán 17 libras, 15 sueldos cada uno. El que facilitare el aborto de una criatura que no fuere su hijo, pagará 1 libra menos.

14. Por el asesinato de un hermano, una hermana, una madre o un padre, se pagarán 17 libras, 5 sueldos.

15. El que matase a un obispo o prelado de jerarquía superior, pagará 131 libras, 14 sueldos, 6 dineros.

16. Si el matador hubiese dado muerte a muchos sacerdotes en varias ocasiones, pagará 137 libras, 6 sueldos, por el primer asesinato, y la mitad por los siguientes.

17. El obispo u abad que cometiese homicidio por emboscada, por accidente o por necesidad, pagará, para alcanzar la absolución, 179 libras, 14 sueldos.

18. El que por anticipado quisiera comprar la absolución de todo homicidio accidental que pudiera cometer en lo venidero, pagará 168 libras, 15 sueldos.

19. El hereje que se convirtiese, pagará por su absolución 269 libras. El hijo de hereje quemado o ahorcado o ajusticiado en otra forma cualquiera, no podrá rehabilitarse sino mediante el pago de 218 libras, 16 sueldos, 9 dineros.

20. El eclesiástico que no pudiendo pagar sus deudas quisiera librarse de ser procesado por sus acreedores, entregará al Pontífice 17 libras, 8 sueldos, 6 dineros, y le será perdonada la deuda.

21. La licencia para poner puestos de venta de varios géneros bajo el pórtico de las iglesias, será concedida mediante el pago de 45 libras, 19 sueldos, 3 dineros.

22. El delito de contrabando y defraudación de los derechos del príncipe contará 87 libras, 3 dineros.

23. La ciudad que quisiera alcanzar para sus habitantes o bien para sus sacerdotes, frailes o monjas, licencia para comer carne y lacticinios en las épocas en que está prohibido, pagará 781 libras, 10 sueldos.

24. El monasterio que quisiere variar de regla y vivir con menor abstinencia que la que le estaba prescrita, pagará 146 libras, 5 sueldos.

25. El fraile que por su mejor conveniencia o gusto quisiere pasar la vida en una ermita con una mujer, entregará al tesoro pontificio 45 libras, 19 sueldos.

26. El apóstata vagabundo que quisiere vivir sin trabas, pagará igual cantidad por la absolución.

27. Igual cantidad pagarán los religiosos, así seculares como regulares, que quisieran viajar en trajes de laico.

28. El hijo bastardo de un cura que quiera ser preferido para desempeñar el curato de su padre, pagará 27 libras, 1 sueldo.

29. El bastardo que quisiere recibir órdenes sagradas y gozar beneficios, pagará 15 libras, 18 sueldos, 6 dineros.

30. El hijo de padres desconocidos que quiera entrar en las órdenes, pagará al tesoro pontificio 27 libras, 1 sueldo.

31. Los laicos contrahechos o deformes que quieran recibir órdenes sagradas y poseer beneficios, pagarán a la cancillería apostólica 58 libras, 2 sueldos.

32. Igual suma pagará el tuerto del ojo derecho; mas el tuerto del ojo izquierdo pagará al Papa 10 libras, 7 sueldos. Los bizcos pagarán 45 libras, 3 sueldos.

33. Los eunucos que quisieran entrar en las órdenes, pagarán la cantidad de 310 libras, 15 sueldos.

34. El que por simonía quisiera adquirir uno o muchos beneficios, se dirigirá a los tesoreros del Papa, que le venderán ese derecho a un precio moderado.

35. El que por haber quebrantado un juramento quisiere evitar toda persecución y librarse de toda nota de infamia, pagará al Papa 131 libras, 15 sueldos. Además entregará 3 libras para cada uno de los que le habrán garantizado.

* a numeração atribuída ao título, faz-nos antecipar que este seja o primeiro de uma série dedicada a este assunto; a seguir, religiosamente, no provas de contacto, onde se poderá ver também as imagens criteriosamente seleccionadas para ilustrar o tema.

sábado, dezembro 13, 2008

este mundo imundo




60 anos depois da declaração universal dos direitos humanos, a subscrição desta carta por mais de 300 cidadãos chineses é ainda considerada um crime, pelas autoridades que governam o país.

via a terceira noite

quinta-feira, dezembro 11, 2008

terça-feira, dezembro 09, 2008

saír do armário


bicho-do-mato. sem irmãos, sem primos. a menina de botas ortopédicas que desatava mal saía de casa, atafulhada de roupa para não se constipar, a boina guardada dentro da pasta da escola para não ser gozada pelos colegas. resistência passiva. numa redoma.

as tardes em casa, vigiada pela avó paterna, parada, especada à porta do quarto - incapaz de um ardil ou subtileza - a olhar para mim. perguntava-lhe o que estava a fazer ali, a segurar a ombreira da porta e ela, com a honestidade dos que passaram a vida a obedecer, respondia-me que o meu pai a tinha mandado ver o que eu fazia, dentro das quatro paredes do meu quarto.

o corredor era comprido. comprido e largo, com um recanto onde mais tarde se fez um guarda-fatos, de parede a parede. nele aprendi primeiro a andar de triciclo, de bicicleta depois, antes de ter obtido autorização para ir para as primeiras voltas no passeio, em redor dos prédios. o sr. amaro, um braço paralisado, tinha uma oficina improvisada para remendar os furos dos pneus das bicicletas de toda a canalha. sem mão(s) a medir.

pedalar rua acima, rua abaixo, em redor do jardim da companhia das àguas. andar por cima do muro, saltar na parte mais alta, chupar as flores cor-de-rosa dos arbustos, colher as bolinhas laranja para soprar por zarabatanas improvisadas. os mesmos arbustos onde mais tarde me escondi com colegas para fumarmos os primeiros cigarros roubados ao meu pai.

até aos 10 anos, o colégio. filinhas ordeiras para as aulas, para o refeitório, para as visitas de estudo. o horror ao ballet, às aulas de ginástica. um canto para me enfiar ao abrigo dos olhares e gracejos e implicâncias dos miúdos mais desembaraçados. um dia, a professora mandou-me ir buscar um apagador à sala do lado. entrei tão silenciosamente que ninguém deu por mim. a aula prosseguiu e eu ali, parada, sem coragem para interromper, sem coragem para voltar para trás de mãos a abanar. neste impasse, uma porta aberta de um armário e eu metida lá dentro, acocorada, até se terem lembrado de ir procurar por mim.

"não". consta que foi a primeira palavra que aprendi a dizer. so quiet, so low-profile. and yet... boa aluna, tentaram fazer-me chefe de grupo, mas a semente da anarquia estragava-me o perfil de "capataz". esgueirava-me antes de me irem buscar à porta do colégio, para ir sozinha para casa, envergonhada e asfixiada pela super-protecção.

o ambiente que se viveu após 74 e a transição para a escola preparatória, foi o fósforo aceso no rastilho de pólvora comprimida. a passagem da resistência passiva para a rebelião descarada. a adolescência em pé de guerra.

a geração que viu os helicópteros a sobrevoar a fernando pessoa no 11 de março e ia ouvindo os rumores do que se estava a passar no ralis. o pai de uma colega que teve de fugir para o brasil. os professores que eram levados a conselho directivo por turmas em peso. e aqueles em que não se tocava nem num cabelo, defendidos pelos mesmos pequenos selvagens que aprendiam em (quase) auto-gestão que o respeito não se obtinha por decreto ou hierarquia. tinha que se merecer.

escapar à vigilância do sr. lima e ao seu manso pastor alemão e passar as redes da escola para ir comprar gelados à sorraia. caramelo, chocolate, morango. gelados de máquina, em cone, a vinte e cinco tostões, subtraídos ao cofre onde guardava as moeditas que ia cravando aos meus avós, as notinhas verdes do santo antónio a cada fim-de-semana.

saír da fernando pessoa para os viveiros. um lamaçal, os pavilhões ainda em construção. a sala "de convívio" tinha só as paredes. alguns colegas roubavam sódio nos laboratórios de química para fazer fogos de artifício nas poças das casas de banho que as empregadas não limpavam nunca. os esqueletos com um lencinho na cabeça e um cigarro no maxilar escancarado. cadeiras partidas, brincadeiras com extintores, o pó vermelho do chão. tóxico, segundo se dizia. alguns professores que nos dias quentes nos levavam para aulas ao ar livre, sentados na relva, fora dos muros da escola. os "furos", os tempos livres, a era de ouro das conversas intermináveis. sobre tudo e sobre nada.

amizades que perduraram, outras a que se perdeu o rasto. os primeiros copos, as aventuras para lá dos limites do bairro, as horas de regresso a casa cada vez mais esticadas.

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suponho que cresci. ou faço de conta que sim. não mudei o mundo. não sei se o mundo me mudou a mim. passou a época das rebeliões. ainda sei dizer não, mas voltei a "desapertar as botas" quando ninguém está a ver. e quantas, quantas vezes sinto que continuo a lutar comigo mesma para saír daquele armário.


história do cronista e dos gatos que o ensinaram a perder tempo


Não resisti a transcrever na íntegra este post do Alexandre Borges no Sinusite Crónica:


Sou um homem com dois gatos para criar. Foi uma coisa inesperada. Não planeada. Aconteceu. Juro. Assim à laia de noite de loucura. Agora, arco com as consequências. A literatura, o trabalho, a casa, eu próprio, nada disto foi mais o mesmo. Dou por mim pasmado a olhar-lhes os focinhos imóveis, os olhares imperscrutáveis, os instantes repentinos em que se desatam a coçar ou lamber alucinadamente. Em vez de escrever. Em vez de trabalhar. Em vez doutra coisa qualquer. Porque outra coisa qualquer seria mais útil.


É bizarro. E estou preocupado. A família não me preparou para isto. Nem a escola. Nem a Filosofia. Nem os anos de trabalho que levo. Uma pessoa educa-se para as finalidades, para a consequência, para a produção. E acaba a esbanjar horas do dia, dias a fio, a limpar dejectos em caixas de areia, derramar ração sobre tigelas anacronicamente infantis, a fazer festas e cócegas e a levar marradinhas e a perdoar-lhes cruzarem-me o teclado a correr, para cá e para lá, perseguindo-se, resultando em belas prosas de texto, ready made, deste estilo:


Wwwwwwwwwwwwwwwwghbcnsiuyhrn38iznbmfiou7ewnfcmovuu7hb323 klfujjhaoanmddddddddddddçlkvjhklbooooooooooooooo



Eles gostam de insistir nalgumas teclas. Às vezes, quase reproduzem sequências exactas da “Ode Triunfal”. Mas não sei que espécie de felinos teria Álvaro de Campos. Nem que lhes deu ele a ler, se mais os franceses, se mais os anglo-saxónicos.


Pior. Há angústia. Não pelo que não estou a fazer, a produzir, a avançar. Mas por não estar mais com eles. Sobretudo, pela impossibilidade de entrar naquelas pequenas cabeças adornadas de bigodes e orelhas desmesuradas. Há dias, leitor, em que fico à espera de ouvi-los rir. Haverá medicação para isto?


Tenho a casa a cheirar a gato. Perco preciosos quartos de hora de manhã a aspirar a areia que espalharam pelo chão da cozinha numa interessante instalação pós-moderna. E a cumprimentá-los e abrir-lhes a porta e falar com aquela voz de desenho animado que todos imbecilmente fazemos quando nos dirigimos a animais domésticos.


E creio que isto nunca irá a lugar nenhum. Mas também nunca será melhor. Tê-los a dormir sobre nós ou a andarem-nos entre as pernas quando se regressa de fim-de-semana. É um amor parvo e inútil. Comme il faut. Mas chateia-me que nunca possam vir a ler este texto. E a limitar-se a um curto gesto de cabeça, bigodes e orelhas desmesuradas, de aprovação ou censura. Não pedia mais.


Por outro lado, ao menos não dão palpites. E têm um silêncio e uns gestos indolentes e demorados com que talvez venha ainda a aprender.





(bolds meus)





sábado, dezembro 06, 2008

olivesaria


sim, sou uma azeitona, como recentemente me apelidaram no olivesaria. um blog que recomendo a quem - como eu - cresceu e viveu nos olivais.

Movimento Mundial de Estraçalhamento de Livros de Auto-Ajuda




Isto é lindo!
Descobri-o graças ao coisas do arco-da-velha, um blog indispensável para perscrutar recantos e segredos da blogosfera. A minha linda lavandaria, vai para os links deste blog, assim que a preguiçosa autora se lembre de os actualizar.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

limão e mar

Confiando naquilo que, em The Blithdale Romance, Nathaniel Hawthorne conta de Charles Fourier, este acreditava que o inevitável progresso da humanidade rumo à perfeição faria com que um dia o mar passasse a saber a limão. O fascínio da imaginação utópica assenta em operações e em convicções desta natureza, que auguram um futuro de absolutos, programados e construídos à imagem dos desejos e da determinação de quem os projecta. O problema começa quando os fabricantes de utopias começam a pretender fixar as percentagens do açúcar, do ácido cítrico e do sódio, dando todo o poder ao laboratório que passará a gerir o fabrico, a manutenção e a partilha da água marítima. E, claro, condenando ao degredo o sabor a laranja.

"roubado" na terceira noite para dedicar à menina-limão


segunda-feira, dezembro 01, 2008

lua, vénus e júpiter

domingo, novembro 30, 2008

wishlist # 3

o dinossauro


maria joão pires, no jugular


E que se aguardaria do PCP nestes dias de luta esperançosa? Abertura a novas formas de pensar talvez fosse de mais. Mas por que não a uma nova forma de falar? Não teriam tudo a ganhar em, ao menos, fingir que aprenderam algo com as últimas décadas, deixar de fazer de conta que se vive em 1950?Ao que parece, não. O discurso de hoje de Jerónimo de Sousa continua exclusivamente virado para os fiéis, evitando qualquer tentativa de sedução a apoiantes ou votantes que venham “de fora”. Já não sei bem se o bloco de Leste caiu por causa de uma ofensiva capitalista ou corroído pelas traições dos seus dirigentes dissolutos. Nem quero saber, francamente. Já nem me incomodam as referências ao regime aberrante da Coreia do Norte ou a menção à ditadura castrista como «exemplo revolucionário».Ignoro se tal alguma vez iria voltar a acontecer, mesmo sem ter ouvido este discurso; mas estou agora certo de que nunca, nunca mais votarei no PCP.
No meio da pesada névoa do jargão de Jerónimo, Albano & companhia, juncado de «contradições insanáveis» e atravancado de ruídos como o «carácter parasitário e decadente do capitalismo», já ninguém consegue mesmo ver o mundo lá fora.


luís raínha, no 5 dias

sábado, novembro 29, 2008

ler os outros / vida breve

No meu recanto microscópico perdido entre as esferas medito na volubilidade dos homens. Eis um cenário digno de Montaigne. Uma pulga contempla o infinito e lamenta o pêlo indigesto do cão. Penso que toda a filosofia é um vampirismo derrotado. Depois penso que é irónico procurarmos a paz e ficarmos tão aflitos quando a encontramos. Um cemitério é como uma camarata, só que não se dorme mal. Tem flores de plástico e calotas de mármore em que à noite se derrama o brilho dos fogos-fátuos. Não há qualquer uso para a consciência da mortalidade.

a consciência da mortalidade - luis m jorge



wishlist # 2

sexta-feira, novembro 28, 2008

quarta-feira, novembro 26, 2008

wishlist # 1

o mal-estar na civilização, de sigmund freud

o delírio e o gozo da escrita

(...)
Ali, numa casa de idosas madeiras coloniais e de jovens aprumados do Palácio de Torre Tagle, enquanto esperava que o funcionário, avivado pela telefonadela do meu professor, pusesse mais selos e recolhesse as assinaturas correspondentes na certidão de nascimento e na sentença de divórcio, ouvi falar de uma nova catástrofe. Tratava-se de um naufrágio, algo quase inconcebível! Um barco italiano, atracado no porto de Callao, repleto de passageiros e de visitas que se despediam, de repente, contrariando todas as leis da física e da razão, voltava-se sobre si mesmo, tombava para bombordo, e afundava-se rapidamente no Pacífico, morrendo, por contusões, afogamento, ou, assombrosamente, mordidelas de tubarões, todas as pessoas que se encontravam a bordo. Eram duas senhoras, conversavam ao meu lado, à espera de qualquer trâmite. Não brincavam, e levavam o naufrágio muito a sério.
- Ocorreu num folhetim de Pedro Camacho, não foi? - intrometi-me.
- No das quatro - confirmou a mais velha, uma mulher ossuda e enérgica, com forte acento eslavo. - O de Alberto Quinteros, o cardiologista.
- Aquele que era ginecologista o mês passado - meteu a colherada, sorrindo, uma jovenzinha que escrevia à máquina, e pôs o dedo na testa, indicando que alguém tinha ficado louco.
- Não ouviu o programa de ontem? - apiedou-se carinhosamente a acompanhante da estrangeira, uma senhora com lentes e pronúncia ultralimenha. - O senhor Quinteros ia de férias para o Chile, com a mulher e a filha Charo. E afogaram-se os três!
- Afogaram-se todos - precisou a senhora estrangeira. - O sobrinho Richard, e Elianita e o marido, o Pelirrojo Antúnez, o tontinho, e até o filhinho do incesto, Rubencito. Tinham ido despedir-se deles. - Mas o mais estranho é ter-se afogado o tenente Jaime Concha que é de outro folhetim, e que já tinha morrido no incêndio de Callao, há três dias - voltou a intervir, morta de riso, a rapariga; tinha deixado a máquina. - Estes folhetins tornaram-se um gozo puro, não lhes parece?
Um jovenzinho aprumado, com ar de intelectual, sorriu para ela com benevolência e a nós deitou-nos um olhar que Pedro Camacho teria tido todo o direito de chamar argentino:
- Não te disse que isso de passar personagens de uma história para outra foi inventado por Balzac? - disse, inchando o peito com sabedoria. Mas tirou uma conclusão que o perdeu: - Se ele sabe que o estão a plagiar, manda-o para a prisão. - A piada não está em passá-los de uma para outra, mas em ressuscitá-los - defendeu-se a rapariga. - O tenente Concha tinha ficado queimado enquanto lia um Pato Donald, como é que agora se pode ter afogado?
- É um tipo sem sorte - sugeriu o jovenzinho aprumado que trazia os meus papéis.
Parti feliz, com os documentos oleados e sacramentados, deixando as duas senhoras, a secretária e os diplomáticos empenhados numa animada conversa sobre o escriba boliviano. A tia Julia estava à minha espera num café e riu-se com a história;não tinha voltado a ouvir os programas do seu compatriota.
(...)


mário vargas llosa - a tia júlia e o escrevedor

quarta-feira, novembro 19, 2008

serviço público

o Google promete disponibilizar brevemente 10 milhões de imagens do arquivo fotográfico da revista Life, 97% das quais inacessíveis até agora à grande maioria dos comuns mortais. 20 por cento do arquivo já está digitalizado e pode ser visto aqui.


composição poética







portfolio de guy gagnon

terça-feira, novembro 18, 2008




Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.


sábado, novembro 15, 2008

Estamos finalmente sós, tu e eu. Não sei de onde me chegam estas palavras. Nunca houve palavras para gritar a tua ausência. Nos corredores do hospital, eu e ele, quase como estranhos que evitam o toque. Quando me abeirei de ti e te entreabri as pálpebras cerradas, uma definição dos compêndios que estudei - midríase fixa - irrompeu de imediato, trazendo com ela a consciência de que os teus olhos cor de mel já não voltariam a ver-me, de que já não saberias que eu estava ali ao teu lado. Os nossos sentimentos não vêm nos compêndios. Deles não consta qualquer capítulo sobre o que acontece quando essas palavras nos dizem respeito. O único consolo possível foi saber também que daí em diante não sentirias dor ou desconforto. Parece - não se sabe porquê - que uma artéria fraquejou e se rompeu de súbito no teu cérebro, alagando de sangue todo o território disponível em seu redor, comprimindo e destruindo o resto das tuas memórias, consciência e sensações. O meu cartão profissional abriu-me portas, acelerou diagnósticos, disponibilizou-me informação. Serviu para tudo menos para te trazer de volta. Consegui que autorizassem a presença de nós os dois junto de ti, mostraram-me as imagens, as provas concludentes de que tinhas chegado a um ponto sem retorno. Depois, expliquei-lhe a ele. Fiquei contente por saber que estiveste bem nesse teu último dia, até ao instante em que se deu o incidente e invejo-o porque esteve contigo nessa tarde, porque te viu rir e comer e beber e ainda dançaram juntos. Vem-me à memória a tua voz ao telefone - dois dias antes - e a promessa que já não pude cumprir de te visitar. Tinha saudades tuas. Tê-las-ei agora para sempre. Estas palavras evidenciam-se em toda a sua dimensão e espessura: "para sempre", "nunca mais".
Quando fomos obrigados a deixar-te, vim com a certeza que seria por poucas horas. Veio-me à memória também quando foste tu a regressar de outro hospital, naquele dia em que a avó já não te reconheceu. Lembrei-me também dela, a primeira a saber que o avô nos tinha deixado. O exemplo da vossa coragem e dignidade ajudou-me a ultrapassar estes dois dias. Estou certa de que continuará a guiar-me de agora em diante.
Tu sabes como são horríveis os homens de preto que exercem a profissão de estar ali, mas consegui enfrentá-los e escolher por ti os detalhes da última reunião em que estiveste presente. Nem tudo esteve ao meu alcance, as salas são soturnas, creio que terias gostado de mais luz. Mãos mais habilidosas do que as minhas ajudaram a maquilhar-te e pentear-te. Estiveste sempre de cara destapada e todos disseram que estavas linda como sempre, com um ar tão sereno, com os lábios a desenharem um quase-sorriso, que por vezes quase tinhamos a ilusão que respiravas ainda e que apenas dormias ao pé de todos nós. Tive ao meu lado quem me apoiasse o tempo todo. Exactamente as pessoas que eu queria que estivessem: nem mais, nem menos. Gostei de ver as tuas velhas amigas, muito dignas, muito bem-dispostas, falando de ti com carinho e bom humor.
Ele, foi igual a si próprio - idealizou-te, exagerou, reescreveu a história da nossa vida. Controlei-o o mais que pude. Sabes, está um pouco quebrado, mais manobrável. Descobri que mesmo a família dele o conhece melhor do que aquilo que eu pensava.
Creio que tiveste uma despedida digna, sóbria e afectuosa. Todos te levaram flores que tu tanto gostavas. Nós oferecemos-te rosas, brancas e vermelhas.
Amanhã vamos buscar as tuas cinzas e colocá-las sob um pedacinho de relva. Ficas perto de casa, rodeada de árvores, num sítio onde eu às vezes passeava quando era adolescente.
Estarás sempre comigo enquanto eu viver.
No mais fundo de ti, eu sei que traí. Mas sei também como eras capaz de perceber e perdoar, quando a tua inteligência e o afecto que tinhas por mim se sobrepunham ao egoísmo e às birras e à vontade de medir de forças comigo. Tal como eu sou capaz de entender e perdoar todos os compromissos que foste fazendo com a vida. Eu, que não te idealizo, e te amo com todos os teus defeitos. Ficaram tantas palavras por dizer. Ficaram tantos gestos por fazer. Sobrou tanto amor para dar.

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

in memoriam

Do not stand at my grave and weep
I am not there; I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow,
I am the sun on ripened grain,
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there; I did not die.

Mary Frye

16 Setembro 1928 - 14 Novembro 2008

quarta-feira, novembro 12, 2008

livros são papéis pintados com tinta

exercícios de escrita pseudo-poética, em associação livre, a partir daqui

# 1

a estrada,
a espuma dos dias,
a mancha humana,
catálogo de sombras,
meridiano de sangue.
as velas ardem até ao fim.


# 2

uma vida pela metade,
à espera dos bárbaros,
coração, solitário caçador.
na minha morte,
as ruínas circulares,
a montanha da alma.
confissões de uma máscara,
a sangue-frio,
verdade ao amanhecer.


# 3

as pequenas memórias:
explicação dos pássaros,
o perfume,
o amor nos tempos de cólera;
a voz dos deuses,
o jardim do éden,
a insustentável leveza do ser.
nada é o que parece.
a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.


# 4

o coração das trevas,
o anjo ancorado,
na berma de nenhuma estrada.
ratos e homens,
palavras e sangue,
almas cinzentas,
predadores.
bolor,
a peste,
a obra ao negro.
fúria,
asfixia,
expiação.
a noite do oráculo,
o sonho dos heróis,
uma barragem contra o pacífico.
a valsa do adeus,
o último vôo do flamingo.

autores citados neste post: cormac mccarthy, boris vian, philip roth, josé eduardo agualusa, sándor márai, v. s. naipaul, j. m. coetzee, carson mccullers, william faulkner, jorge luís borges, gao xingjian, yukio mishima, truman capote, ernest hemingway, josé saramago, antónio lobo antunes, patrick suskind, gabriel garcia marquez, joão aguiar, milan kundera, carmen posadas, stig dagerman, joseph conrad, josé cardoso pires, mia couto, john steinbeck, giovanni papini, philippe claudel, pepetela, augusto abelaira, albert camus, marguerite yourcenar, salman rushdie, chuck palahniuk, ian mcewan, paul auster, adolfo bioy casares, marguerite duras

terça-feira, novembro 11, 2008

devoção a são martinho


castanhas fritas com chouriço e água-pé.
(o rótulo da garrafa é mesmo assim)

segunda-feira, novembro 10, 2008

choque tecnológico

o uso das novas tecnologias na vida quotidiana:



o portátil é tããããooo quentinho....[suspiro]

domingo, novembro 09, 2008

terça-feira, novembro 04, 2008

change


YES, WE CAN.
I hope so.

sábado, novembro 01, 2008

com dedicatória


Jan Saudek

ao paulo

quinta-feira, outubro 30, 2008

campanha eleitoral

vão ali votar no bibliotecário de babel.

imagens de outono no meu quintal

Os frutos amadurecem, as folhas mudam de côr, as aves procuram outras paragens.


liquidâmbar

romãzeira

cegonha

a new kid in town



Garfield

quarta-feira, setembro 17, 2008

solitude standing





Solitude stands by the window
She turns her head as I walk in the room
I can see by her eyes she's been waiting
Standing in the slant of the late afternoon

And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame

Solitude stands in the doorway
And I'm struck once again by her black silhouette
By her long cool stare and her silence
I suddenly remember each time we've met

And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame

And she says "I've come to set a twisted thing straight"
And she says "I've come to lighten this dark heart"
And she takes my wrist, I feel her imprint of fear
And I say "I've never thought of finding you here"

I turn to the crowd as they're watching
They're sitting all together in the dark in the warm
I wanted to be in there among them
I see how their eyes are gathered into one

And then she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame

And she says "I've come to set a twisted thing straight"
And she says"l've come to lighten this dark heart"
And she takes my wrist, I feel her imprint of fear
And I say "I've never thought of finding you here"

Solitude stands in the doorway
And I'm struck once again by her black silhouette
By her long cool stare and her silence
I suddenly remember each time we've met

And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame






Suzanne Vega


[...]



mellon collie and the infinite sadness

sábado, setembro 13, 2008

tons de rosa





no meu quintal

sexta-feira, setembro 12, 2008

o urso e o crustáceo

Este texto d'a natureza do mal seria digno de figurar aqui nos meus excertos do muttley's corner. Isso se não fosse bom de mais. Justifica-se, portanto, que vão lê-lo, na íntegra. E ver a foto, claro. Asseguro-vos que vale a pena.

livros # 2

O Meu Pé de Laranja-Lima

da série todos temos um passado

Creio que foi o meu primeiro livro, descontando as colecções da Enid Blyton e os livros "aos quadradinhos". Li-o numa tarde de sol, durante as férias - que eram o meu exílio no campo - estirada numa cama de campismo. Por qualquer motivo que não recordo, não me levaram à praia - o meu horizonte de evasão - e eu sentia-me triste e só.

Sem uma palavra, a minha mãe entregou-mo nas mãos. Creio que talvez me tenha querido levar consolo e companhia.

Zezé foi o meu companheiro dessa tarde e de muitos outros dias. É mais um dos meus livros de capa desfeita, que recuso mandar reencadernar.




A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou ‘dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. [...] Totoca me deu um puxão. Eu acordei. - Que é que você tem, Zezé? - Nada. Tava cantando. - Cantando? É. Então eu devo estar ficando surdo. Será que ele não sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia eu não ensinava. Tínhamos chegado na beira da estrada Rio-São Paulo. Passava tudo nela. Caminhão, automóvel, carroça e bicicleta. - Olhe, Zezé, isso é importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora. Atravessamos correndo a estrada. - Teve medo? Bem que tive mas fiz não com a cabeça. - Nós vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se você aprendeu. Voltamos.
- Agora você sozinho. Nada de medo que você está ficando um homenzinho. Meu coração acelerou. - Agora. Vai. Meti o pé e quase não respirava. Esperei um pedaço e ele deu o sinal para que eu voltasse. - Pela primeira vez, você foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para você. Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.
Totoca. - Que é? - Idade da razão pesa? - Que besteira é essa? - Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era "precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença. - Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua, cabeça. - Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço. Por que gravata de laço? Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço. - Zezé, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso. - Então ele é filho da puta? - Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco. - Você falou que ele era mentiroso. - Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: “o filho da puta do velho mente pra burro"... E ninguém bateu na boca dele. - Gente grande pode dizer, que não faz mal. Fizemos uma pausa. - Tio Edmundo não é... Que é que é mesmo trongola, Totoca? Ele girou o dedo na cabeça. - Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força. Totoca deu um pulo. - Ele deu uma palmada em você? Quando? - Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão. -Vai buscar que eu dou. - Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. - “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão. Totoca riu. - Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca. Eu continuava pensando em Tio Edmundo. Totoca, criança é aposentado? O quê? Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo mês. - E daí? - Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais. - Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe. Paramos e Totoca apontou a casa.
- É bem ali. Você gosta? Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.
- Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para cá?
- É bom a gente sempre se mudar. Ficamos observando pela cerca um pé de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro. - Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.
Demorou um pouco, em silêncio.
- Totoca, vão trazer a pantera negra e as duas leoas pra cá?
- Claro que vão. E o escravo aqui é que vai ter de desmontar o galinheiro. Me
olhou com certa meiguice e pena. - Eu é que vou desmontar o jardim zoológico e armar ele aqui. Fiquei aliviado. Porque senão eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmãozinho mais novo: Luís.
- Bem, viu como eu sou seu amigo, Zezé. Agora não custava me contar como foi que você conseguiu "aquilo"...
- Juro, Totoca, que não sei. Não sei mesmo.
- Você está mentindo. Você estudou com alguém.
- Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo. Totoca estava perplexo. No começo até me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.
- Ninguém aprende essas coisas sozinho. Mas ficava embatucado porque realmente ninguém vira ninguém me ensinar nada. Era um mistério. Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A família ficou atarantada.
Começou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.
- Titio.
- Que é, meu filho. Ele puxou os óculos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.
- Quando o senhor aprendeu a ler?
- Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
- E uma pessoa pode ler com cinco anos?
- Poder, pode. Ninguém gosta de fazer isso porque a criança ainda é muito pequena.
- Como é que o senhor aprendeu a ler?
- Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.
- Todo mundo tem que fazer assim?
- Que eu saiba, sim.
- Mas todo mundo mesmo?
- Ele me olhou intrigado. Olhe, Zezé, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal. Colocou os óculos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu não saí do canto.
- Que pena!... A exclamação saiu tão sentida que ele de novo trouxe os óculos para a ponta do nariz.
- Não adianta, quando você quer...
- É que eu vim lá de casa, andei pra burro só para contar uma coisa para o senhor.
- Então vamos, conte.
- Não. Não é assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.
- Depois de amanhã. Deu um suave sorriso me estudando.
- E quando é depois de amanhã?
- Sexta-feira. - Pois na sexta-feira o senhor não quer trazer um “Raio de Luar”
pra mim, da cidade?
- Vamos devagar, Zezé. O que é Raio de Luar?
- É o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele é Fred Thompson. É um cavalo ensinado.
- Você quer que eu traga um cavalinho de rodas?
- Não, senhor. Quero aquele que tem uma cabeça de pau com rédeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde. Ele continuou rindo.
- Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
- Eu faço uma coisa pro senhor.
- Um beijo?
- Não gosto muito de beijos.
- Um abraço?
Aí eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho lá dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos ... Vivia tão sozinho e caminhava devagar, devagar ... Quem sabe se ele não andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para ele. Dei a volta na mesa e apertei com força o seu pescoço. Senti o seu cabelo branco roçar na minha testa, bem macio.
- Isto não é pelo cavalinho. O que eu vou fazer é outra coisa. Vou ler.
- Você sabe ler, Zezé? Que história é essa? Quem foi que lhe ensinou?
- Ninguém.
- Você está com lorotas.
Me afastei e da porta comentei: - Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu não leio!... Depois quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampião porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos pés para ver a “estrela”. Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma oração para proteger a casa. - Jandira me pegue no colo que eu vou ler ali.
- Deixe de invenções, Zezé. Estou muito ocupada.
- Pois me pegue e veja se eu não sei ler.
- Olhe, Zezé, se você estiver me aprontando alguma, você vai ver. Me colocou no colo e me levou bem atrás da porta.
- Então, leia. Quero ver.
Aí eu li mesmo. Li a oração que pedia aos céus, bênção e protecção para a casa e afugentasse os maus espíritos. Jandira me depositou no chão. Estava de queixo caído.
- Zezé, você decorou aquilo. Você está me enganando.
- Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
- Ninguém pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?
- Ninguém.
Ela pegou um pedaço de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glória. Glória ficou nervosa e foi chamar Alaíde. Em dez minutos uma porção de gente da vizinhança veio ver o fenómeno. Era isso que Totoca estava querendo saber.
- Ele ensinou e prometeu o cavalinho se você aprendesse.
- Não foi, não.
- Eu vou perguntar a ele.
- Pois vá perguntar. Eu não sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse eu contava pra você.
- Então vamos embora. Você vai ver. Quando precisar de uma coisa... Pegou minha mão, zangado, e me puxou de volta para a casa. Aí ele pensou numa coisa para se vingar.
- Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro. Aquilo tinha sido idéia de Jandira. Assim a casa ficava a manhã inteira em paz e eu aprendia a ter modos. - Vamos treinar a Rio-São Paulo. Porque não pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando você todo tempo. Você é muito sabido, que aprenda logo isso também.

Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver. Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remédio. - “Esse produto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo”. Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal. - Mamãe. Até Pharmacia ele leu direitinho. Os dois juntos começaram a me dar coisas para ler e eu lia tudo. Minha avó resmungou que o mundo estava perdido.
Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Então ele pegou no meu queixo e me falou emocionado.
- Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor. Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola. - Isto você não entende. É a história de José do Egipto. Quando você crescer mais eu conto essa história. Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.
Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio
Edmundo e perguntei:
- A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?...

play it again, sam # 5


Adagio For Strings - Samuel Barber