o mal-estar na civilização, de sigmund freud
quarta-feira, novembro 26, 2008
o delírio e o gozo da escrita
(...)
Ali, numa casa de idosas madeiras coloniais e de jovens aprumados do Palácio de Torre Tagle, enquanto esperava que o funcionário, avivado pela telefonadela do meu professor, pusesse mais selos e recolhesse as assinaturas correspondentes na certidão de nascimento e na sentença de divórcio, ouvi falar de uma nova catástrofe. Tratava-se de um naufrágio, algo quase inconcebível! Um barco italiano, atracado no porto de Callao, repleto de passageiros e de visitas que se despediam, de repente, contrariando todas as leis da física e da razão, voltava-se sobre si mesmo, tombava para bombordo, e afundava-se rapidamente no Pacífico, morrendo, por contusões, afogamento, ou, assombrosamente, mordidelas de tubarões, todas as pessoas que se encontravam a bordo. Eram duas senhoras, conversavam ao meu lado, à espera de qualquer trâmite. Não brincavam, e levavam o naufrágio muito a sério.
- Ocorreu num folhetim de Pedro Camacho, não foi? - intrometi-me.
- No das quatro - confirmou a mais velha, uma mulher ossuda e enérgica, com forte acento eslavo. - O de Alberto Quinteros, o cardiologista.
- Aquele que era ginecologista o mês passado - meteu a colherada, sorrindo, uma jovenzinha que escrevia à máquina, e pôs o dedo na testa, indicando que alguém tinha ficado louco.
- Não ouviu o programa de ontem? - apiedou-se carinhosamente a acompanhante da estrangeira, uma senhora com lentes e pronúncia ultralimenha. - O senhor Quinteros ia de férias para o Chile, com a mulher e a filha Charo. E afogaram-se os três!
- Afogaram-se todos - precisou a senhora estrangeira. - O sobrinho Richard, e Elianita e o marido, o Pelirrojo Antúnez, o tontinho, e até o filhinho do incesto, Rubencito. Tinham ido despedir-se deles. - Mas o mais estranho é ter-se afogado o tenente Jaime Concha que é de outro folhetim, e que já tinha morrido no incêndio de Callao, há três dias - voltou a intervir, morta de riso, a rapariga; tinha deixado a máquina. - Estes folhetins tornaram-se um gozo puro, não lhes parece?
Um jovenzinho aprumado, com ar de intelectual, sorriu para ela com benevolência e a nós deitou-nos um olhar que Pedro Camacho teria tido todo o direito de chamar argentino:
- Não te disse que isso de passar personagens de uma história para outra foi inventado por Balzac? - disse, inchando o peito com sabedoria. Mas tirou uma conclusão que o perdeu: - Se ele sabe que o estão a plagiar, manda-o para a prisão. - A piada não está em passá-los de uma para outra, mas em ressuscitá-los - defendeu-se a rapariga. - O tenente Concha tinha ficado queimado enquanto lia um Pato Donald, como é que agora se pode ter afogado?
- É um tipo sem sorte - sugeriu o jovenzinho aprumado que trazia os meus papéis.
Parti feliz, com os documentos oleados e sacramentados, deixando as duas senhoras, a secretária e os diplomáticos empenhados numa animada conversa sobre o escriba boliviano. A tia Julia estava à minha espera num café e riu-se com a história;não tinha voltado a ouvir os programas do seu compatriota.
(...)
mário vargas llosa - a tia júlia e o escrevedor
quarta-feira, novembro 19, 2008
serviço público
terça-feira, novembro 18, 2008

Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
sábado, novembro 15, 2008
in memoriam
I am not there; I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow,
I am the sun on ripened grain,
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there; I did not die.
Mary Frye
16 Setembro 1928 - 14 Novembro 2008
quarta-feira, novembro 12, 2008
livros são papéis pintados com tinta
# 1
a estrada,
a espuma dos dias,
a mancha humana,
catálogo de sombras,
meridiano de sangue.
as velas ardem até ao fim.
# 2
uma vida pela metade,
à espera dos bárbaros,
coração, solitário caçador.
na minha morte,
as ruínas circulares,
a montanha da alma.
confissões de uma máscara,
a sangue-frio,
verdade ao amanhecer.
# 3
as pequenas memórias:
explicação dos pássaros,
o perfume,
o amor nos tempos de cólera;
a voz dos deuses,
o jardim do éden,
a insustentável leveza do ser.
nada é o que parece.
a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.
# 4
o coração das trevas,
o anjo ancorado,
na berma de nenhuma estrada.
ratos e homens,
palavras e sangue,
almas cinzentas,
predadores.
bolor,
a peste,
a obra ao negro.
fúria,
asfixia,
expiação.
a noite do oráculo,
o sonho dos heróis,
uma barragem contra o pacífico.
a valsa do adeus,
o último vôo do flamingo.
terça-feira, novembro 11, 2008
segunda-feira, novembro 10, 2008
domingo, novembro 09, 2008
terça-feira, novembro 04, 2008
sábado, novembro 01, 2008
quinta-feira, outubro 30, 2008
campanha eleitoral
imagens de outono no meu quintal
quarta-feira, setembro 17, 2008
solitude standing
Solitude stands by the window
She turns her head as I walk in the room
I can see by her eyes she's been waiting
Standing in the slant of the late afternoon
And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame
Solitude stands in the doorway
And I'm struck once again by her black silhouette
By her long cool stare and her silence
I suddenly remember each time we've met
And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame
And she says "I've come to set a twisted thing straight"
And she says "I've come to lighten this dark heart"
And she takes my wrist, I feel her imprint of fear
And I say "I've never thought of finding you here"
I turn to the crowd as they're watching
They're sitting all together in the dark in the warm
I wanted to be in there among them
I see how their eyes are gathered into one
And then she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame
And she says "I've come to set a twisted thing straight"
And she says"l've come to lighten this dark heart"
And she takes my wrist, I feel her imprint of fear
And I say "I've never thought of finding you here"
Solitude stands in the doorway
And I'm struck once again by her black silhouette
By her long cool stare and her silence
I suddenly remember each time we've met
And she turns to me with her hand extended
Her palm is split with a flower with a flame
Suzanne Vega
[...]
mellon collie and the infinite sadness
sábado, setembro 13, 2008
sexta-feira, setembro 12, 2008
o urso e o crustáceo
livros # 2
Creio que foi o meu primeiro livro, descontando as colecções da Enid Blyton e os livros "aos quadradinhos". Li-o numa tarde de sol, durante as férias - que eram o meu exílio no campo - estirada numa cama de campismo. Por qualquer motivo que não recordo, não me levaram à praia - o meu horizonte de evasão - e eu sentia-me triste e só.

A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou ‘dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. [...] Totoca me deu um puxão. Eu acordei. - Que é que você tem, Zezé? - Nada. Tava cantando. - Cantando? É. Então eu devo estar ficando surdo. Será que ele não sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia eu não ensinava. Tínhamos chegado na beira da estrada Rio-São Paulo. Passava tudo nela. Caminhão, automóvel, carroça e bicicleta. - Olhe, Zezé, isso é importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora. Atravessamos correndo a estrada. - Teve medo? Bem que tive mas fiz não com a cabeça. - Nós vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se você aprendeu. Voltamos.
- Agora você sozinho. Nada de medo que você está ficando um homenzinho. Meu coração acelerou. - Agora. Vai. Meti o pé e quase não respirava. Esperei um pedaço e ele deu o sinal para que eu voltasse. - Pela primeira vez, você foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para você. Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.
Totoca. - Que é? - Idade da razão pesa? - Que besteira é essa? - Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era "precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença. - Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua, cabeça. - Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço. Por que gravata de laço? Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço. - Zezé, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso. - Então ele é filho da puta? - Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco. - Você falou que ele era mentiroso. - Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: “o filho da puta do velho mente pra burro"... E ninguém bateu na boca dele. - Gente grande pode dizer, que não faz mal. Fizemos uma pausa. - Tio Edmundo não é... Que é que é mesmo trongola, Totoca? Ele girou o dedo na cabeça. - Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força. Totoca deu um pulo. - Ele deu uma palmada em você? Quando? - Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão. -Vai buscar que eu dou. - Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. - “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão. Totoca riu. - Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca. Eu continuava pensando em Tio Edmundo. Totoca, criança é aposentado? O quê? Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo mês. - E daí? - Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais. - Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe. Paramos e Totoca apontou a casa.
- É bem ali. Você gosta? Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.
- Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para cá?
- É bom a gente sempre se mudar. Ficamos observando pela cerca um pé de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro. - Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.
Demorou um pouco, em silêncio.
- Totoca, vão trazer a pantera negra e as duas leoas pra cá?
- Claro que vão. E o escravo aqui é que vai ter de desmontar o galinheiro. Me
olhou com certa meiguice e pena. - Eu é que vou desmontar o jardim zoológico e armar ele aqui. Fiquei aliviado. Porque senão eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmãozinho mais novo: Luís.
- Bem, viu como eu sou seu amigo, Zezé. Agora não custava me contar como foi que você conseguiu "aquilo"...
- Juro, Totoca, que não sei. Não sei mesmo.
- Você está mentindo. Você estudou com alguém.
- Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo. Totoca estava perplexo. No começo até me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.
- Ninguém aprende essas coisas sozinho. Mas ficava embatucado porque realmente ninguém vira ninguém me ensinar nada. Era um mistério. Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A família ficou atarantada.
Começou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.
- Titio.
- Que é, meu filho. Ele puxou os óculos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.
- Quando o senhor aprendeu a ler?
- Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
- E uma pessoa pode ler com cinco anos?
- Poder, pode. Ninguém gosta de fazer isso porque a criança ainda é muito pequena.
- Como é que o senhor aprendeu a ler?
- Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.
- Todo mundo tem que fazer assim?
- Que eu saiba, sim.
- Mas todo mundo mesmo?
- Ele me olhou intrigado. Olhe, Zezé, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal. Colocou os óculos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu não saí do canto.
- Que pena!... A exclamação saiu tão sentida que ele de novo trouxe os óculos para a ponta do nariz.
- Não adianta, quando você quer...
- É que eu vim lá de casa, andei pra burro só para contar uma coisa para o senhor.
- Então vamos, conte.
- Não. Não é assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.
- Depois de amanhã. Deu um suave sorriso me estudando.
- E quando é depois de amanhã?
- Sexta-feira. - Pois na sexta-feira o senhor não quer trazer um “Raio de Luar”
pra mim, da cidade?
- Vamos devagar, Zezé. O que é Raio de Luar?
- É o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele é Fred Thompson. É um cavalo ensinado.
- Você quer que eu traga um cavalinho de rodas?
- Não, senhor. Quero aquele que tem uma cabeça de pau com rédeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde. Ele continuou rindo.
- Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
- Eu faço uma coisa pro senhor.
- Um beijo?
- Não gosto muito de beijos.
- Um abraço?
Aí eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho lá dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos ... Vivia tão sozinho e caminhava devagar, devagar ... Quem sabe se ele não andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para ele. Dei a volta na mesa e apertei com força o seu pescoço. Senti o seu cabelo branco roçar na minha testa, bem macio.
- Isto não é pelo cavalinho. O que eu vou fazer é outra coisa. Vou ler.
- Você sabe ler, Zezé? Que história é essa? Quem foi que lhe ensinou?
- Ninguém.
- Você está com lorotas.
Me afastei e da porta comentei: - Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu não leio!... Depois quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampião porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos pés para ver a “estrela”. Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma oração para proteger a casa. - Jandira me pegue no colo que eu vou ler ali.
- Deixe de invenções, Zezé. Estou muito ocupada.
- Pois me pegue e veja se eu não sei ler.
- Olhe, Zezé, se você estiver me aprontando alguma, você vai ver. Me colocou no colo e me levou bem atrás da porta.
- Então, leia. Quero ver.
Aí eu li mesmo. Li a oração que pedia aos céus, bênção e protecção para a casa e afugentasse os maus espíritos. Jandira me depositou no chão. Estava de queixo caído.
- Zezé, você decorou aquilo. Você está me enganando.
- Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
- Ninguém pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?
- Ninguém.
Ela pegou um pedaço de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glória. Glória ficou nervosa e foi chamar Alaíde. Em dez minutos uma porção de gente da vizinhança veio ver o fenómeno. Era isso que Totoca estava querendo saber.
- Ele ensinou e prometeu o cavalinho se você aprendesse.
- Não foi, não.
- Eu vou perguntar a ele.
- Pois vá perguntar. Eu não sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse eu contava pra você.
- Então vamos embora. Você vai ver. Quando precisar de uma coisa... Pegou minha mão, zangado, e me puxou de volta para a casa. Aí ele pensou numa coisa para se vingar.
- Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro. Aquilo tinha sido idéia de Jandira. Assim a casa ficava a manhã inteira em paz e eu aprendia a ter modos. - Vamos treinar a Rio-São Paulo. Porque não pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando você todo tempo. Você é muito sabido, que aprenda logo isso também.
Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver. Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remédio. - “Esse produto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo”. Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal. - Mamãe. Até Pharmacia ele leu direitinho. Os dois juntos começaram a me dar coisas para ler e eu lia tudo. Minha avó resmungou que o mundo estava perdido.
Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Então ele pegou no meu queixo e me falou emocionado.
- Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor. Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola. - Isto você não entende. É a história de José do Egipto. Quando você crescer mais eu conto essa história. Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.
Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio
Edmundo e perguntei:
- A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?...
quinta-feira, setembro 11, 2008
...cada instante verte para o vazio...
onde ser dura apenas um instante onde cada instante
verte para o vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no final
corpo e sombra juntos se devoram
que faria sem este silêncio sorvedouro dos murmúrios
que anelam frenéticos por socorro por amor
sem este céu que se ergue
sobre a poeira do seu lastro
que faria faria o que fiz ontem o que fiz hoje
espreitar do meu postigo para ver se não estou só
a dar voltas e voltas longe de toda a vida
num espaço fantoche
sem voz no meio das vozes
encerradas comigo
Samuel Beckett
aqui
muttley's corner # 4

passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.
(rui bebiano, n'a terceira noite)
parece que hoje estamos* em maré de links.
(*acho que nunca tinha usado um plural magestático)
e não resisto
quarta-feira, setembro 10, 2008
domingo, agosto 31, 2008
ítaca
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Konstantínos Kaváfis
(tradução de Jorge de Sena)
desenterrado de um buraco na sombra
sexta-feira, agosto 29, 2008
quinta-feira, agosto 28, 2008
não há outro caminho
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
sábado, agosto 23, 2008
em plena silly season

------1964 ------------1966-------------1978

------1982-------------1986-------------1992

------1996------------ 1998------------ 2000

------1950------------1956

------1974-------------1978-------------1984

(o meu avô à esquerda, a minha fake image ao centro e o meu pai à direita)
quarta-feira, agosto 20, 2008
sábado, agosto 16, 2008
o sonho dos heróis
O último a entrar foi Gauna. Serafín Taboada estendeu-lhe uma mão muito limpa e muito seca. Era um homem magro, baixo, de farta cabeleira, de testa alta, ossuda, olhos encovados, de nariz vermelhusco proeminente. No quarto havia muitos livros, um harmónio, uma mesa, duas cadeiras; em cima da mesa, uma incontrolável desordem de livros e de papéis, um cinzeiro com muitas beatas, uma pedra cinzenta que servia de pisa-papéis. Havia duas gravuras - as efígies de Spencer e de Confúcio - nas paredes. Taboada fez sinal a Gauna para se sentar; ofereceu-lhe um cigarro (que Gauna não aceitou) e, depois de acender outro, perguntou:
- Em que posso servi-lo?
Gauna pensou um instante. Depois respondeu:
- Em nada. Vim só acompanhar os rapazes.
Taboada deitou fora o cigarro que acendera e acendeu outro.
- Lamento - disse, como se fosse levantar-se e pôr fim à entrevista; continuou sentado e, enigmaticamente, acrescentou: - Lamento, porque tinha uma coisa para lhe dizer. Fica para outra vez.
- Quem sabe.
- Não desespere. O futuro é um mundo em que há de tudo.
- Como na loja da esquina? - comentou Gauna. - É o que reza a propaganda, mas, creia-me, quando você pede alguma coisa, respondem-lhe que já não há.
Gauna pensou que Taboada era talvez mais falador do que astuto ou inteligente. Taboada continuou:
- No futuro corre, como um rio, o nosso destino, tal como o desenhamos aqui em baixo. No futuro está tudo, porque tudo é possível. Nele, você morreu na semana passada e nele vive para sempre. Nele, você transformou-se num homem razoável e também se transformou em Valerga.
- Não permito que troce do doutor.
- Não estou a troçar - respondeu brevemente Taboada - mas gostaria de lhe perguntar uma coisa, se não levar a mal: doutor em quê?
- Você há-de sabê-lo - respondeu Gauna, acto contínuo - dado que é bruxo.
Taboada sorriu.
- Está bem, rapaz - disse; e em seguida continuou, explicando: - se no futuro não encontrarmos o que procuramos, será porque não sabemos procurar. Podemos sempre esperar alguma coisa.
- Eu não espero muito - declarou Gauna. - E também não acredito em bruxarias.
- Talvez tenha razão respondeu Taboada com tristeza. - Mas seria preciso saber a que é que você chama bruxaria. Falemos, por exemplo, da transmissão de pensamento. Não há grande mérito, asseguro-lhe, em descobrir o que pensa um jovem enfastiado e assustadiço.





























