que faria sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde ser dura apenas um instante onde cada instante
verte para o vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no final
corpo e sombra juntos se devoram
que faria sem este silêncio sorvedouro dos murmúrios
que anelam frenéticos por socorro por amor
sem este céu que se ergue
sobre a poeira do seu lastro
que faria faria o que fiz ontem o que fiz hoje
espreitar do meu postigo para ver se não estou só
a dar voltas e voltas longe de toda a vida
num espaço fantoche
sem voz no meio das vozes
encerradas comigo
Samuel Beckett
aqui
quinta-feira, setembro 11, 2008
muttley's corner # 4

(...)
passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.
(rui bebiano, n'a terceira noite)
parece que hoje estamos* em maré de links.
(*acho que nunca tinha usado um plural magestático)
passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.
(rui bebiano, n'a terceira noite)
parece que hoje estamos* em maré de links.
(*acho que nunca tinha usado um plural magestático)
e não resisto
a linkar este texto do little black spot.
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propostas irrecusáveis
quarta-feira, setembro 10, 2008
domingo, agosto 31, 2008
ítaca
Quando partires de regresso a Ítaca
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Konstantínos Kaváfis
(tradução de Jorge de Sena)
desenterrado de um buraco na sombra
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Konstantínos Kaváfis
(tradução de Jorge de Sena)
desenterrado de um buraco na sombra
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sexta-feira, agosto 29, 2008
quinta-feira, agosto 28, 2008
não há outro caminho
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
sábado, agosto 23, 2008
em plena silly season
um momento narcísico-hilariante
vão a este site http://www.yearbookyourself.com/e divirtam-se a recriar o vosso aspecto com penteados e acessórios de moda, desde 1950 até 2000. aqui ficam alguns exemplos:

------1964 ------------1966-------------1978

------1982-------------1986-------------1992

------1996------------ 1998------------ 2000
entretanto, ainda não satisfeita com a barrigada de riso, fiz algumas experiências as a boy:

------1950------------1956
nas fotos mais antigas, ainda me safo. agora, naqueles anos em que os gajos usaram cabelinhos mais compridos...

------1974-------------1978-------------1984
...não fosse a maçã-de-adão artificial e poderia facilmente descobrir fotos minhas com aspecto muito semelhante. aliás, na foto de 1984, se compararmos as versões feminina (arrgh) e masculina,

é natural que eu tivesse um aspecto mais semelhante ao da foto da direita. deve ser por isso que passaram a vida a chamar-me maria-rapaz, mas de facto nunca tive grande pachorra para muitos arrebiques.
agora, as conclusões didácticas:
apesar de ter passado toda a minha infância e adolescência com a família a encher-me os ouvidos sobre eu ser a cara-chapada do meu pai, posso provar agora inequivocamente que:
1) não tenho cara de gajo
2) tenho mais traços fisionómicos herdados do meu avô materno do que alguma vez me ocorreu.
(o meu avô à esquerda, a minha fake image ao centro e o meu pai à direita)
quarta-feira, agosto 20, 2008
sábado, agosto 16, 2008
o sonho dos heróis
(...)
O último a entrar foi Gauna. Serafín Taboada estendeu-lhe uma mão muito limpa e muito seca. Era um homem magro, baixo, de farta cabeleira, de testa alta, ossuda, olhos encovados, de nariz vermelhusco proeminente. No quarto havia muitos livros, um harmónio, uma mesa, duas cadeiras; em cima da mesa, uma incontrolável desordem de livros e de papéis, um cinzeiro com muitas beatas, uma pedra cinzenta que servia de pisa-papéis. Havia duas gravuras - as efígies de Spencer e de Confúcio - nas paredes. Taboada fez sinal a Gauna para se sentar; ofereceu-lhe um cigarro (que Gauna não aceitou) e, depois de acender outro, perguntou:
- Em que posso servi-lo?
Gauna pensou um instante. Depois respondeu:
- Em nada. Vim só acompanhar os rapazes.
Taboada deitou fora o cigarro que acendera e acendeu outro.
- Lamento - disse, como se fosse levantar-se e pôr fim à entrevista; continuou sentado e, enigmaticamente, acrescentou: - Lamento, porque tinha uma coisa para lhe dizer. Fica para outra vez.
- Quem sabe.
- Não desespere. O futuro é um mundo em que há de tudo.
- Como na loja da esquina? - comentou Gauna. - É o que reza a propaganda, mas, creia-me, quando você pede alguma coisa, respondem-lhe que já não há.
Gauna pensou que Taboada era talvez mais falador do que astuto ou inteligente. Taboada continuou:
- No futuro corre, como um rio, o nosso destino, tal como o desenhamos aqui em baixo. No futuro está tudo, porque tudo é possível. Nele, você morreu na semana passada e nele vive para sempre. Nele, você transformou-se num homem razoável e também se transformou em Valerga.
- Não permito que troce do doutor.
- Não estou a troçar - respondeu brevemente Taboada - mas gostaria de lhe perguntar uma coisa, se não levar a mal: doutor em quê?
- Você há-de sabê-lo - respondeu Gauna, acto contínuo - dado que é bruxo.
Taboada sorriu.
- Está bem, rapaz - disse; e em seguida continuou, explicando: - se no futuro não encontrarmos o que procuramos, será porque não sabemos procurar. Podemos sempre esperar alguma coisa.
- Eu não espero muito - declarou Gauna. - E também não acredito em bruxarias.
- Talvez tenha razão respondeu Taboada com tristeza. - Mas seria preciso saber a que é que você chama bruxaria. Falemos, por exemplo, da transmissão de pensamento. Não há grande mérito, asseguro-lhe, em descobrir o que pensa um jovem enfastiado e assustadiço.
O último a entrar foi Gauna. Serafín Taboada estendeu-lhe uma mão muito limpa e muito seca. Era um homem magro, baixo, de farta cabeleira, de testa alta, ossuda, olhos encovados, de nariz vermelhusco proeminente. No quarto havia muitos livros, um harmónio, uma mesa, duas cadeiras; em cima da mesa, uma incontrolável desordem de livros e de papéis, um cinzeiro com muitas beatas, uma pedra cinzenta que servia de pisa-papéis. Havia duas gravuras - as efígies de Spencer e de Confúcio - nas paredes. Taboada fez sinal a Gauna para se sentar; ofereceu-lhe um cigarro (que Gauna não aceitou) e, depois de acender outro, perguntou:
- Em que posso servi-lo?
Gauna pensou um instante. Depois respondeu:
- Em nada. Vim só acompanhar os rapazes.
Taboada deitou fora o cigarro que acendera e acendeu outro.
- Lamento - disse, como se fosse levantar-se e pôr fim à entrevista; continuou sentado e, enigmaticamente, acrescentou: - Lamento, porque tinha uma coisa para lhe dizer. Fica para outra vez.
- Quem sabe.
- Não desespere. O futuro é um mundo em que há de tudo.
- Como na loja da esquina? - comentou Gauna. - É o que reza a propaganda, mas, creia-me, quando você pede alguma coisa, respondem-lhe que já não há.
Gauna pensou que Taboada era talvez mais falador do que astuto ou inteligente. Taboada continuou:
- No futuro corre, como um rio, o nosso destino, tal como o desenhamos aqui em baixo. No futuro está tudo, porque tudo é possível. Nele, você morreu na semana passada e nele vive para sempre. Nele, você transformou-se num homem razoável e também se transformou em Valerga.
- Não permito que troce do doutor.
- Não estou a troçar - respondeu brevemente Taboada - mas gostaria de lhe perguntar uma coisa, se não levar a mal: doutor em quê?
- Você há-de sabê-lo - respondeu Gauna, acto contínuo - dado que é bruxo.
Taboada sorriu.
- Está bem, rapaz - disse; e em seguida continuou, explicando: - se no futuro não encontrarmos o que procuramos, será porque não sabemos procurar. Podemos sempre esperar alguma coisa.
- Eu não espero muito - declarou Gauna. - E também não acredito em bruxarias.
- Talvez tenha razão respondeu Taboada com tristeza. - Mas seria preciso saber a que é que você chama bruxaria. Falemos, por exemplo, da transmissão de pensamento. Não há grande mérito, asseguro-lhe, em descobrir o que pensa um jovem enfastiado e assustadiço.
sábado, agosto 09, 2008
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