Não consigo conceber a cidade como um aglomerado de prédios que crescem selvaticamente como cogumelos, sem qualquer planeamento urbanístico, ao sabor dos ventos da especulação imobiliária. Privilegiada pelo horizonte largo de um jardim para onde se debruçavam todas as janelas da casa onde vivi até aos 30 anos, arrepia-me pensar nos bairros-gaveta em que não se pode fugir a dar de caras com a vida dos vizinhos. O anonimato da cidade pode ser solidão, mas é também a liberdade que sempre defendi ferozmente. É de novo na minha ascendência materna que me reconheço nesta postura distante - por muitos considerada arrogante e até declaradamente hostil - de não-se-metam-na-minha-vida. Crescendo longe de mexericos da vizinhança que nunca encontraram eco nos ouvidos da minha mãe, lograva iludir a vigilância familiar protectora e claustrofóbica, aventurando-me em escapadelas da escola, transgredindo limites e desbravando territórios proíbidos num arrojo crescente, das primeiras incursões às máquinas de gelados de cone do café mesmo em frente à escola preparatória, à vagabundagem pelo vale do silêncio, cemitério, encarnação, olivais velho.
Um bairro que granjeou má fama pela heterogeneidade dos seus habitantes, muitos deles de classes sociais economicamente desfavorecidas, nunca me tolheu a liberdade de viver a rua, onde creio não ter corrido mais riscos do que em qualquer outra zona da cidade. Cedo se aprendia o modus vivendi que possibilitava a convivência com a multiplicidade das tribos - dos betinhos aos janados - e se evitavam situações de confronto com a ciganada do bairro do relógio e outras zonas mais degradadas. Dado ser essencialmente um dormitório, com escasso comércio local, a maior parte dos seus habitantes trabalhava fora, estando as ruas, pracetas e jardins dos Olivais - e também os cafés - praticamente por conta dos putos das escolas, entregues a si próprios durante todo o dia.
Nos Olivais em que eu vivi não havia metro, os autocarros eram escassos, abarrotavam de gente e nunca cumpriam horários. Também não havia cinema, nem centro comercial, nem bedeteca, nem quinta pedagógica. Ainda existiam alguns terrenos baldios, com carreirinhos formados a corta-mato, muito usados para encurtar caminhos. Tínhamos bicicletas, bolas, passeios largos, muitas pracetas e espaços verdes. Percorríamos kilómetros a pé para visitar amigos, esperávamos os livros da biblioteca itinerante. Tínhamos o tempo e a rua, espaço de aventuras e cumplicidades.
A cidade descoberta pelo meu próprio pé, começou aqui.
A cidade descoberta pelo meu próprio pé, começou aqui.


fotos do arquivo fotográfico da câmara municipal de lisboa




















































