terça-feira, setembro 11, 2007

It's raining on Santiago - o outro 11 de Setembro







Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes (...) Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos. (...) Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria. (...) Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.

texto do último discurso de salvador allende











segunda-feira, setembro 10, 2007

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.



António Ramos Rosa


Francesca Woodman

quinta-feira, setembro 06, 2007

terça-feira, setembro 04, 2007

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar


Al Berto

quarta-feira, agosto 29, 2007

Lisa


Às vezes, vagueava por aí durante dois ou três dias. Regressava sedenta de festas e, depois de receber os mimos, enroscava-se a dormir perto de nós. Hoje, sei que não volta. Procurarei esquecer a amálgama de sangue e pêlo preto espalmada no alcatrão e lembrar apenas o brilho verde dos seus olhos, nos momentos que partilhámos desde que a recolhemos com os seus três filhotes. Ela, pagou com a vida o seu desejo de independência e liberdade. Nós, pagamos com mágoa e saudade o respeito que ela nos mereceu.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Queixa das almas jovens censuradas



Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte







Natália Correia / José Mário Branco

Continuing to live

Continuing to live - that is, repeat
A habit formed to get necessaries -
Is nearly always losing, or going without.
It varies.

This loss of interest, hair, and enterprise -
Ah, if the game were poker, yes,
You might discard them, draw a full house!
But it's chess.

And once you have walked the length of your mind, what
You command is clear as a lading-list.
Anything else must not, for you, be thought
To exist.

And what's the profit? Only that, in time,
We half-identify the blind impress
All our behavings bear, may trace it home.
But to confess,

On that green evening when our death begins,
Just what it was, is hardly satisfying,
Since it applied only to one man once,
And that one dying.


Philip Larkin

todos temos um passado*

Devo estar a ficar velha, ultimamente dá-me para os momentos revivalistas. Como diz a menina-alice,todos temos um passado e apesar de não ter saudades da infância, vêm-me agora mais frequentemente à memória em modo de flash, recordações esbatidas pela passagem do tempo.
no youtube descobri os genéricos de abertura de algumas séries de tv que me prendiam ao écran:


Flipper:





Skippy:



Mr. Ed:



Pippi:



Pequenos vagabundos:





*label roubada na complicadíssima teia

domingo, agosto 26, 2007


assim pousadas nos fios eléctricos, fazem-me lembrar pautas, claves de sol e notas de música salpicadas no céu. ainda andam por aí, apesar de este ano terem chegado cedo e os dias cálidos ameaçarem findar demasiado depressa. ao vê-las, trauteio mentalmente a canção andorinha negra do efémero agrupamento lua extravagante (vitorino, janita salomé, filipa pais):



Num belo dia, voltou outra vez
já me tardava a frescura em flor,
dos malmequeres dos Maios que perdi,
tímido cravo deixo leve odor...

Mesmo que tarde, sempre esperarei
da andorinha o cantar renovado
no meu beiral todo o ano guarde:
afectos para te ter ao meu lado

Lá pra Setembro, quando o sol mudar
dirás "Adeus porque me vou embora"
negras as asas, negro é abalar
guardam-se as mágoas, pela vida fora

terça-feira, agosto 21, 2007

sexta-feira, agosto 17, 2007



tom chambers, em destaque na photoeye
todos os pássaros sossegaram.
as crianças desceram das árvores, guardaram os jogos, recolheram a casa.

a noite está próxima.

levanto a cabeça e deixo a voz deambular por dentro deste silêncio de água e de estrelas.

a noite está próxima.

deixo o corpo escorregar na poeira luminosa.
acendo um cigarro, ponho-me a falar com o meu fantasma.

longe daqui, a cidade enfeitou-se com os seus crimes de néon, com suas traições.

ouço hélices de barcos, motores, quando um rosto esvoaça ao alcance da mão.

a verdade é que passei a vida a fugir, de cidade em cidade, com um sussurro cortante nos lábios.

e atravessei cidades e ruas sem nome, estradas, pontes que ligam uma treva a outra treva.

caminho como sempre caminhei, dentro de mim - rasgando paisagens, sulcando mares, devorando imagens.

o absinto, esse álcool que me permitiu medir o tempo no movimento dos astros

e vi a vida como um barco à deriva. vi esse barco tentar regressar ao porto - mas os portos são olhos enormes que vigiam os oceanos. servem para levarmos o corpo até um deles e morrer.

a noite está próxima.

vejo acenderem-se mãos voláteis, e uma sede de poços e de nomadismo.
sulco a areia que sitia as cidades para trás abandonadas.

abro fendas na memória, e a noite surge com suas cidades queimadas, desertas - e o vento... o vento cintila onde cresce o lobo que me ronda o sono.

estendo a mão, pego no revólver, mas nada acontece.

de nada me serviria inventar outra vez o rio das palavras, de nada me serviria saber a geometria exacta dos cristais, ou redesenhar o corpo e aperfeiçoá-lo.

fico assim, inerte, à beira da noite... olhando o brilho da luz rojando águas.

o regresso nunca foi possível
o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar, reduz os continentes a distâncias mentais.

aprende a falar dos outros - e, por cima dele, as constelações vão esboçando o tormentoso destino dos homens.

pressinto uma sombra a envolver-me. ouço músicas... espirais de som subindo aos subúrbios da alma.

e acendo o lume das pirâmides, onde o tempo não foi inventado, e renego a alegria.

não semearei o meu desgosto, por onde passar.

nem as minhas traições.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Gogol Bordello




quem não se deixa contagiar por este ritmo?

terça-feira, agosto 14, 2007

Isto realmente. Não encontro um sítio
para tomar café sem televisão, que saudades
desse tempo em que passava os olhos
pelo jornal e só se ouviam moscas
e vozes, peço por favor se podiam ao menos
baixar um pouco o som, bem, é como
se tivesse ofendido alguém, olham-me
de alto a baixo com desdém, como se
tivesse dito que não tinha dinheiro
para pagar. Volto para casa, faço café
em casa, qualquer dia não saio de casa.


Hélder Moura Pereira

domingo, agosto 12, 2007

sexta-feira, agosto 10, 2007

- O tabaco mata, está aqui escrito. Sabe como se chama a isto? Publicidade enganosa. Um tipo compra um maço de tabaco, para se matar, naturalmente, vai para casa, fuma os cigarros todos e o que acontece? Continua vivo. Com sorte morre vinte ou trinta anos depois. Imagine que você compra um produto para clarear os dentes, e que a publicidade a esse produto assegure isso mesmo, que o tal produto clareia os dentes. Você utiliza o produto e não acontece nada. E só então lhe explicam que para ficar com os dentes de um branco impecável vai ter de usar o produto todos os dias durante vinte ou trinta anos. Estaria certo, isso? Não, porra, não estaria certo. Pois olhe, é a mesma coisa com o tabaco.
José Eduardo Agualusa

terça-feira, agosto 07, 2007


Uma pessoa que não tem inimigos não merece ter amigos.

José Eduardo Agualusa

segunda-feira, agosto 06, 2007

Thirsty

As far as I can tell
I'm nothing like a princess
but today I find myself
curling up behind the house

There's nothing in the air today
now I know I'm not so important

Take these girly arms
and ever keep me
Take these girly arms
and ever keep me

I don't have a hawk in my heart
no dumbass dove in my brain
I don't have a hawk in my heart
no dumbass dove in my dumbass brain

Take these girly arms
and ever keep me
Take these girly arms
and ever keep me

I don't have a hawk in my heart
no I don't have a hawk in my heart
no I don't have a hawk in my heart
...


The National

rosa de hiroshima

sábado, agosto 04, 2007

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono,na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


António Ramos Rosa

terça-feira, julho 31, 2007

Michelangelo Antonioni

1912-2007



blow-up

43


foi ele quem me ligou de manhã,
com as ocas palavras apropriadas à ocasião.
mais logo, falar-te-á de mim e eu ouvirei a tua voz,
sem saber ao certo o que consegues ainda recordar de nós.

moonlight swimming

chegaram as noites quentes.

la edad de la línea de sombra

Enrique Vila-Matas

Ingmar Bergman

1918-2007

quinta-feira, julho 26, 2007

Summertime



na versão de Janis Joplin. Yeah!

quarta-feira, julho 25, 2007

(...) o relato de um sonho não transmite a sensação-sonho, aquele emaranhado de absurdos e surpresas, o desespero na angústia de sermos aprisionados, a sensação de sermos presas do inacreditável que é a verdadeira essência dos sonhos...(...)
- ... não, é impossível; é impossível transmitir a sensação-vida de uma época que vivemos - aquilo que constrói as suas verdades, o seu significado - a sua penetrante e subtil essência. É impossível. Vivemos como sonhamos - sós...
Joseph Conrad - O Coração das Trevas

quarta-feira, julho 18, 2007



Just the place to bury a crook of gold - said Sebastian - I should like to bury something precious in every place where I've been happy and then,when I was old and miserable,I could come back and dig it up and remember.

terça-feira, julho 17, 2007

Se partires, não me abraces

Se partires, não me abraces -a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.



Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -



o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.



Se me abraçares, não partas.

quinta-feira, junho 21, 2007

De vez em quando, clica-se num dos links habituais e dá-se de caras com as palavras que nos cortam a respiração:

O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer

Carson McCullers

terça-feira, junho 19, 2007

Smoking e Pompom


Aqui por casa, o planeamento familiar não anda a correr nada bem. Esta menina, que já há uns tempos andava aí pelas redondezas, resolveu trazer o filhote para educar cá no quintal. Quem é que pode resistir a uma coisa destas, hm? Já fizeram as contas? Com mais estes dois, passam a ser oito.




domingo, junho 10, 2007

it's raining again







isto deve ter sido praga da emigra que ficou com inveja do nosso sol.

quinta-feira, junho 07, 2007

Quando eu morrer, voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)











ontem, primeiro dia de praia do ano. costa quase deserta, mar revolto.


terça-feira, maio 29, 2007

cats

segunda-feira, maio 28, 2007

há dias...


Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro o meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol

Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão

Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural

Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão

Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar

Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão

Aos sábados em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais

Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão

Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?

Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão



quarta-feira, maio 23, 2007

Zen




Dong-Hong-Oai

fotografias originais na photoeye

a smile that explodes