sábado, agosto 04, 2007
Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono,na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono,na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa
terça-feira, julho 31, 2007
43
quinta-feira, julho 26, 2007
quarta-feira, julho 25, 2007
(...) o relato de um sonho não transmite a sensação-sonho, aquele emaranhado de absurdos e surpresas, o desespero na angústia de sermos aprisionados, a sensação de sermos presas do inacreditável que é a verdadeira essência dos sonhos...(...)
- ... não, é impossível; é impossível transmitir a sensação-vida de uma época que vivemos - aquilo que constrói as suas verdades, o seu significado - a sua penetrante e subtil essência. É impossível. Vivemos como sonhamos - sós...
Joseph Conrad - O Coração das Trevas
quarta-feira, julho 18, 2007
Just the place to bury a crook of gold - said Sebastian - I should like to bury something precious in every place where I've been happy and then,when I was old and miserable,I could come back and dig it up and remember.
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terça-feira, julho 17, 2007
Se partires, não me abraces
Se partires, não me abraces -a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -
o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -
o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.
quinta-feira, junho 21, 2007
De vez em quando, clica-se num dos links habituais e dá-se de caras com as palavras que nos cortam a respiração:
O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer
Carson McCullers
O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer
Carson McCullers
terça-feira, junho 19, 2007
Smoking e Pompom
domingo, junho 10, 2007
quinta-feira, junho 07, 2007
terça-feira, maio 29, 2007
segunda-feira, maio 28, 2007
há dias...
Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro o meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Aos sábados em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
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quarta-feira, maio 23, 2007
terça-feira, maio 22, 2007
Lullaby
O trovejar abafado de diálogo chega através das paredes, depois de um coro de gargalhadas. Depois mais trovejar. A maior parte das faixas de risos na televisão foi gravada no princípio dos anos 50. Hoje em dia, a maior parte das pessoas que se ouve, está morta.
O martelar e martelar e martelar de uma bateria chega até cá abaixo através do tecto. O ritmo muda. Talvez a batida se comprima, mais depressa, ou se espraie, mais devagar, mas não pára.
Subindo através do chão, alguém está a ladrar a letra de uma canção. Estas pessoas que precisam da televisão ou da aparelhagem estereofónica ou do rádio a funcionar o tempo todo. Estas pessoas tão assustadas com o silêncio. Estes são os meus vizinhos. Estes viciados em som. Estes silêncio-fóbicos.
O riso dos mortos vem de todas as paredes.
Hoje em dia, isto é o que passa por lar doce lar.
Este cerco de barulho.
(...)
No meu apartamento, o tecto está a vibrar ao som de uma música rápida qualquer. As paredes estão a murmurar com vozes de pânico. Ou uma antiga múmia egípcia amaldiçoada voltou à vida e está a tentar matar as pessoas da porta ao lado ou estão a ver um filme.
Por baixo do chão, há alguém a gritar, um cão a ladrar, portas a bater com violência, os gritos à leiloeiro de uma canção qualquer.
(...)
Estes viciados em distracção. Estes atenção-fóbicos.
O velho George Orwell percebeu tudo ao contrário.
O Grande Irmão não está a observar. Está a cantar e a dançar. Está a tirar coelhos de uma cartola. O Grande Irmão está ocupado em prender-te a atenção em cada momento que estás acordado. Está a certificar-se de que estás sempre distraído. Está a certificar-se de que estás totalmente absorto.
Está a certificar-se de que a tua imaginação definha. Até ser tão útil como o apêndice. Está a certificar-se de que a tua atenção está sempre preenchida.
E isto de estar a ser alimentado é pior do que estar a ser observado. Com o mundo sempre a encher-te, ninguém tem de se preocupar com o que vai na tua mente. Com a imaginação de toda a gente atrofiada, ninguém será nunca uma ameaça para o mundo.
(...)
Os peritos na cultura da Grécia Antiga dizem que as pessoas naquela altura não viam os pensamentos como pertencendo a elas mesmas. Quando os antigos gregos tinham um pensamento, ocorria-lhes como sendo um deus ou uma deusa a dar uma ordem. Apolo estava a dizer-lhes para serem corajosos. Atena estava a dizer-lhes para se apaixonarem.
Agora as pessoas ouvem um anúncio a batatas fritas de coalhada e correm para comprá-las, mas agora chamam a isto livre-arbítrio.
O martelar e martelar e martelar de uma bateria chega até cá abaixo através do tecto. O ritmo muda. Talvez a batida se comprima, mais depressa, ou se espraie, mais devagar, mas não pára.
Subindo através do chão, alguém está a ladrar a letra de uma canção. Estas pessoas que precisam da televisão ou da aparelhagem estereofónica ou do rádio a funcionar o tempo todo. Estas pessoas tão assustadas com o silêncio. Estes são os meus vizinhos. Estes viciados em som. Estes silêncio-fóbicos.
O riso dos mortos vem de todas as paredes.
Hoje em dia, isto é o que passa por lar doce lar.
Este cerco de barulho.
(...)
No meu apartamento, o tecto está a vibrar ao som de uma música rápida qualquer. As paredes estão a murmurar com vozes de pânico. Ou uma antiga múmia egípcia amaldiçoada voltou à vida e está a tentar matar as pessoas da porta ao lado ou estão a ver um filme.
Por baixo do chão, há alguém a gritar, um cão a ladrar, portas a bater com violência, os gritos à leiloeiro de uma canção qualquer.
(...)
Estes viciados em distracção. Estes atenção-fóbicos.
O velho George Orwell percebeu tudo ao contrário.
O Grande Irmão não está a observar. Está a cantar e a dançar. Está a tirar coelhos de uma cartola. O Grande Irmão está ocupado em prender-te a atenção em cada momento que estás acordado. Está a certificar-se de que estás sempre distraído. Está a certificar-se de que estás totalmente absorto.
Está a certificar-se de que a tua imaginação definha. Até ser tão útil como o apêndice. Está a certificar-se de que a tua atenção está sempre preenchida.
E isto de estar a ser alimentado é pior do que estar a ser observado. Com o mundo sempre a encher-te, ninguém tem de se preocupar com o que vai na tua mente. Com a imaginação de toda a gente atrofiada, ninguém será nunca uma ameaça para o mundo.
(...)
Os peritos na cultura da Grécia Antiga dizem que as pessoas naquela altura não viam os pensamentos como pertencendo a elas mesmas. Quando os antigos gregos tinham um pensamento, ocorria-lhes como sendo um deus ou uma deusa a dar uma ordem. Apolo estava a dizer-lhes para serem corajosos. Atena estava a dizer-lhes para se apaixonarem.
Agora as pessoas ouvem um anúncio a batatas fritas de coalhada e correm para comprá-las, mas agora chamam a isto livre-arbítrio.
Chuck Palahniuck - Lullaby
domingo, maio 20, 2007
para ti
Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
Daniel Faria
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segunda-feira, maio 14, 2007
Apesar de tudo, a vida é agradável, tolera-se. À segunda segue-se a terça e depois a quarta. A mente constrói anéis; a identidade torna-se mais robusta; a dor é absorvida no processo de crescimento. Sempre a abrir-se e a fechar-se, zumbindo cada vez mais, a velocidade e a febre da juventude são aproveitadas para o trabalho, até o ser nada mais parecer do que o mecanismo de um relógio. Com que velocidade a corrente segue de Janeiro a Dezembro! Somos arrastados por tudo aquilo que se nos tornou tão familiar que não chega a projectar sombra. Flutuamos, flutuamos...
(...)
À segunda segue-se a terça, depois a quarta e a quinta. Cada dia espalha a mesma onda de bem-estar, repete a mesma curva de ritmo; cobre a areia fresca com um arrepio ou constrói uma pequena teia de espuma. E é assim que o ser começa a deixar crescer anéis, a identidade torna-se mais robusta. Aquilo que antes era furtivo como um pequeno grão lançado ao ar e soprado de uma lado para o outro pelas rajadas fortes da vida, passa a ser agora atirado de forma metódica numa direcção precisa, obedecendo a um objectivo - pelo menos é o que parece.
Virgínia Wolf - As Ondas
domingo, maio 13, 2007
sexta-feira, maio 11, 2007
segunda-feira, maio 07, 2007
music addiction
sábado, abril 28, 2007

Descíamos a rua de mão dada. Ele levava-me à fonte luminosa e fazia-me barquinhos de papel de jornal, para eu pôr a navegar. No regresso, comprava sempre doces para levar para casa e, enquanto não eram horas de jantar, ensinava-me a jogar - batalha naval, jogo do galo, bisca, sueca, dominó, damas e até xadrez. Claro que fazia batota para me deixar ganhar.
sexta-feira, abril 27, 2007
domingo, abril 22, 2007
earthday
If blood will flow when fresh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrows rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay
Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetimes argument

That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star
like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star
like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
how fragile we are
How fragile we are
how fragile we are
"O que importa o nome do autor na capa? Viajemos com o pensamento até daqui a três mil anos. Sabe-se lá que livros da nossa época se terão salvado e de que autores se recordará ainda o nome. Haverá livros que continuarão famosos mas que serão considerados obras anónimas como para nós a epopeia de Gilgamesh; Haverá autores cujo nome será sempre famoso mas de que não ficará nenhuma obra, como aconteceu com Sócrates; ou talvez todos os livros sobreviventes sejam atribuidos a um único autor misterioso, como Homero."
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
sábado, abril 21, 2007
sexta-feira, abril 20, 2007
bird on a wire
Like a bird on the wire,
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a worm on a hook,
Like a knight from some old fashioned book
I have saved all my ribbons for thee.
If i, if I have been unkind,
I hope that you can just let it go by.
If i, if I have been untrue
I hope you know it was never to you.
Like a baby, stillborn,
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me.
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee.
I saw a beggar leaning on his wooden crutch,
He said to me, you must not ask for so much.
And a pretty woman leaning in her darkened door,
She cried to me, hey, why not ask for more?
Oh like a bird on the wire,
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a worm on a hook,
Like a knight from some old fashioned book
I have saved all my ribbons for thee.
If i, if I have been unkind,
I hope that you can just let it go by.
If i, if I have been untrue
I hope you know it was never to you.
Like a baby, stillborn,
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me.
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee.
I saw a beggar leaning on his wooden crutch,
He said to me, you must not ask for so much.
And a pretty woman leaning in her darkened door,
She cried to me, hey, why not ask for more?
Oh like a bird on the wire,
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
O romance que mais me apetecia ler neste momento - explica Ludmilla - deveria ter só como força motriz a vontade de contar, de acumular histórias sobre histórias, sem pretender impôr uma visão do mundo, só fazer assistir ao seu crescimento, como uma planta, como que um emaranhado de ramos e folhas...
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
quinta-feira, abril 19, 2007
quarta-feira, abril 18, 2007
Ler
- Ler - diz ele - é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe, passando, perdida, inalcansável, para o país dos mortos...
- ...Ou que não está presente porque ainda não existe, algo de desejado, de temido, possível ou impossível - diz Ludmilla - ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será...
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
segunda-feira, abril 16, 2007
Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disto, a não ser por alusões.
Italo Calvino - Se numa noite de Inverno um viajante
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