segunda-feira, janeiro 29, 2007

you can call me a bitch

SIM


Alice Geirinhas
ideia copiada do voluvel quanto basta

sexta-feira, janeiro 26, 2007

The Blowers Daughter

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new



esta menina lembrou-se de inventariar toponímias que não lembram ao diabo. O endereço do blog vai já para os links favoritos.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Nuvens mostram-nos ao longe
a ficção de serem formas cénicas.
Mesmo rostos podem nascer ali
debaixo de madeixas claras.
Risos podem rasgar-se, entre
raios de sol e sombra. Essa,
por vezes, a vida frágil dos risos.


Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, janeiro 23, 2007

Icy Night
Alfred Stieglitz

segunda-feira, janeiro 22, 2007

When you were here before,
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel,
Your skin makes me cry

You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
You're so fuckin' special

But I'm a creep,
I'm a weirdo
What the hell am I doin' here?
I don't belong here

I don't care if it hurts,
I wanna have control
I want a perfect body
I want a perfect soul

I want you to notice
when I'm not around
You're so fuckin' special
I wish I was special

But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doin' here?
I don't belong here, ohhhh, ohhhh

She's running out again
She's running
She runs runs runs runs...
runs...

Whatever makes you happy
Whatever you want
You're so fucking special
I wish I was special

But I'm a creep,
I'm a weirdo
What the hell am I doin' here?
I don't belong here

I don't belong here...



domingo, janeiro 21, 2007

CONSERVE ESTE BILHETE ATÉ AO FINAL DA VIAGEM

Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas.
E também
os que replicam:
Valha-nos isso.


Rui Pires Cabral - Capitais da Solidão

sábado, janeiro 20, 2007

as ruínas circulares # 7

As ruínas do santuário do deus do fogo foram destruídas pelo fogo. Numa madrugada sem pássaros o mago viu abater-se sobre as paredes o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas logo compreendeu que a morte vinha coroar a sua velhice e absolvê-lo dos seus trabalhos. Caminhou ao encontro dos círculos de fogo. Estes não morderam a sua carne, acariciaram-no e inundaram-no sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.

Jorge Luís Borges - Ficções

amadeo de souza cardoso # 5

i have become a silent movie
the hero killed the clown
can't make a sound
can't make a sound
can't make a sound
nobody knows what he's doing
still hanging around
can't make a sound
can't make a sound
can't make a sound
can't make a sound
the slow motion moves me
the monologue means nothing to me
bored in the role, but he can't stop
standing up to sit back down
or lose the one thing found
spinning the world like a toy top
til there's a ghost in every town
can't make a sound
can't make a sound
can't make a sound
can't make a sound
eyes locked and shining
can't you tell me what's happening?
why should you want any other when you're a world within a world?
why should you want any other when you're a world within a world?
why should you want any other when you're a world within a world?
why should you want any other when you're a world within a world?



quinta-feira, janeiro 18, 2007

as ruínas circulares # 6

Compreendeu com uma certa amargura que o seu filho estava pronto para nascer - e talvez até impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o para o outro templo cujos despojos branqueavam rio abaixo, a muitas léguas da inextricável floresta de pântanos. Mas antes (para que ele nunca soubesse que era um fantasma, para que se julgase um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total dos seus anos de aprendizagem.
(...)
Ao fim de um tempo que certos narradores da sua história preferem calcular em anos e outros em lustres, à meia noite acordaram-no dois remadores: não conseguiu ver as caras deles, mas falavam-lhe de um homem mágico num templo do Norte, capaz da andar sobre o fogo sem se queimar. O mago lembrou-se de repente das palavras do deus. Lembrou-se de que, de todas as criaturas que compõem o globo, o fogo era a única que sabia que o seu filho era um fantasma. Esta recordação, que o descansou ao princípio, acabou por atormentá-lo. Receou que o seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de qualquer modo a sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projecção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem!
Jorge Luís Borges - Ficções

quarta-feira, janeiro 17, 2007

:)

dedicado aos meus seis meninos:

mais cartoons em www.offthemark.com

marketing

Modelos inspirados nos momentos de elevação, indignação, embevecimento caseiro e arrojo metafísico do povo português.




não percam uma visita à Loja BomPovo

as ruínas circulares # 5

Em geral, os seus dias eram felizes; ao fechar os olhos pensava: agora vou estar com o meu filho ou então, mais raramente: o filho que gerei espera por mim e não existirá se eu não for ter com ele.


Jorge Luís Borges - Ficções

bichos # 3


segunda-feira, janeiro 15, 2007

as ruínas circulares # 4

No sonho do homem que sonhava o sonhado acordou.

Jorge Luís Borges - Ficções

amadeo de souza cardoso # 4

I've got memories
I keep them away from me
They won't behave
Won't be what I want them to be

I've seen it all and it's all done
I've been with everyone and no one

So many squandered moments
So much wasted time
So busy chasing dreams
I left myself behind

I've seen it all and it's all done
I've been with everyone and no one

So this dying slowly
It seemed better than shooting myself
This dying slowly
It seemed better than shooting myself

These worms, darling
They're nibbling away at me
They go at it when I'm sleeping
Won't let me get to my feet

I've seen it all and it's all done
I've been with everyone and no one

So this dying slowly
It seemed better than shooting myself
This dying slowly
It seemed better than shooting -
If I could find the words to explain this feeling
I would shout them out
If I could find out all this, what's inside me

I would shout it out

So this dying slowly
It seemed better than shooting myself
This dying slowly
It seemed better than shouting it out

I make some coffee
Pull on that new pair of pants
I can get so far off
The feeling just falls away

I've seen it all and it's all done
I've been with everyone and no one

I'm just tired, baby
I just need to lay down
I'm just tired, darling
I just need to lay down
I'm just tired, baby
I just need to lay down
I'm just tired, darling
I just need to lay down
I'm just tired, darling



domingo, janeiro 14, 2007

as ruínas circulares # 3

Para retomar a tarefa, esperou que o disco da lua ficasse perfeito. Depois, à tarde purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e adormeceu. Quase imediatamente, sonhou com um coração a bater.
Sonhou-o activo, quente, secreto, do tamanho de um punho cerrado, de cor escarlate na penumbra de um corpo humano ainda sem cara nem sexo, com minucioso amor sonhou-o durante catorze lúcidas noites. Noite a noite, percebia-o com uma evidência cada vez maior. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, a observá-lo talvez, e corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o de muitas distâncias e de muitos ângulos. Na décima quarta noite roçou a artéria pulmonar com o dedo indicador e a seguir o coração todo, por fora e por dentro. O exame deixou-o satisfeito. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: depois, tornou a pegar no coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outros dos orgãos principais. Em menos de um ano, chegou ao esqueleto, às pálpebras. O inumerável cabelo foi talvez a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um mancebo, mas este não se levantava nem falava nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhou-o adormecido.

Jorge Luís Borges - Ficções

bichos # 2


sábado, janeiro 13, 2007

amadeo de souza cardoso # 3


as ruínas circulares # 2

Um dia o homem emergiu do sono como de um deserto viscoso, fitou a vã luz da tarde que começou por confundir com a da aurora, e compreendeu que não tinha sonhado. Durante essa noite toda e todo o dia, abateu-se sobre ele a intolerável lucidez da insónia. Quis explorar a floresta, extenuar-se; só a custo conseguiu pela cicuta uns quantos lampejos de sono fraco, riscados fugazmente por visões de tipo rudimentar: inaproveitáveis. Quis voltar a reunir o colégio e mal articulou umas breves palavras de exortação, logo este se deformou e desfez. Na sua quase perpétua vigília, lágrimas de cólera queimavam-lhe os velhíssimos olhos.
Compreendeu que a tarefa de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos é a mais árdua a que se pode entregar um homem (...).

banksy # 1








mais uma recomendação do sítio do costume (não, não é o pingo doce).

quarta-feira, janeiro 10, 2007

as ruínas circulares # 1

O desígnio que o guiava não era impossível, se bem que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com uma integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Este projecto mágico esgotara o espaço inteiro da sua alma; se alguém lhe perguntasse o seu próprio nome ou qualquer pormenor da sua vida anterior, não seria capaz de responder.
(...)
Ao princípio, os sonhos eram caóticos; pouco depois, foram de natureza dialéctica. O forasteiro sonhava-se no meio de um anfiteatro circular, que era de certo modo o templo incendiado: magotes de alunos taciturnos fatigavam os degraus; as caras dos das últimas filas pendiam há muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas viam-se com uma precisão absoluta. O homem dava-lhes lições de anatomia, de cosmografia, de magia: os rostos escutavam com ansiedade e tentavam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que deveria redimir um deles da vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e acordado, considerava as respostas dos seus fantasmas, não se deixava enganar pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligência crescente. Procurava uma alma que merecesse participar do universo.
Ao cabo de nove ou dez noites compreendeu com certa amargura que nada podia esperar dos alunos que aceitavam passivamente a sua doutrina, mas sim dos que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam elevar-se a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora só estava acordado umas horinhas ao amanhecer) despediu para sempre o vasto colégio ilusório e ficou apenas com um único aluno.
Jorge Luís Borges - Ficções
Descoberta recente, com a devida vénia aos meus dealers culturais:



terça-feira, janeiro 09, 2007

Era o que sentia agora. Lembrava-se de uma terrível convulsão no seu interior, algo para cuja explicação todos os meios de que dispunha por enquanto eram insuficientes.
Portanto, concluiu, deve ter siso alguma coisa muito mais necessária e profunda do que se pode avaliar com a razão e os conceitos...
E aquilo que existira antes da paixão, que fora recoberto por ela, a coisa real, o verdadeiro problema, estava enraizado nele. Aquela perspectiva alternada de longe e perto, que ele experimentara. Aquela relação incompreensível que dá a factos e coisas valores súbitos, conforme o nosso ponto de vista, e que são inteiramente estranhos e incomparáveis entre si...
Isso e tudo o resto - ele via-o singularmente, nítido, puro e pequeno. Assim como vemos pela manhã, quando os primeiros e puros raios de sol secaram o suor do medo, e a mesa, o armário, o inimigo e o destino se recolhem novamente às suas dimensões naturais.
Mas tal como nesse caso permanece em nós uma leve lassidão pensativa, também assim acontecia com Torless. Agora ele sabia distinguir entre o dia e a noite; na verdade sempre soubera; apenas, um pesadelo deslizara sobre essas fronteiras, confundindo-as, e ele envergonhava-se dessa confusão. Contudo, a lembrança de que podia ser diferente, de que existem ao redor do ser humano fronteiras finas, facilmente extinguíveis, e de que sonhos febris se esgueiram em torno da nossa alma, corroendo os muros firmes e abrindo sulcos sinistros - essa lembrança acomodava-se no fundo dele e irradiava as suas pálidas sombras.
Robert Musil - O Jovem Torless
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The battle king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah




amadeo de souza cardoso # 2

segunda-feira, janeiro 08, 2007

I keep going round and round on the same old circuit.
A wire travles underground to a vacant lot.
Where something I can't see interrupts the current.
And shrinks the picture down to a tiny dot.
And from behind the screen, it can look so perfect.
But it's not.

So here im sittin in my car at the same old stop light.
I keep waiting for a change, but I don't know what.
So red turns into green, turning into yellow.
But I'm just frozen here on the same old spot.
And all I have to do is press the pedal.
But I'm not. No I'm not.

Well people are tricky,
You can't afford to show,
anything risky, anything they don't know.
The moment you try, well kiss it goodbye.

So baby kiss me like a drug, like a respirator.
And let me fall into the dream of the astrounaut.
Where I get lost in space that goes on forever.
And you make all the rest just an after thought.
And I believe it's you who could make it better.
But it's not. No it's not.



Já não tenho medo de nada. Sei que as coisas são coisas e sempre o serão, e que sempre as verei ora de uma maneira, ora de outra. Ora com os olhos do raciocínio, ora com aqueles outros...E nunca mais tentarei comparar as duas coisas.


Robert Musil - O Jovem Torless

Prometheus dips into the inner F ring at its farthest point from Saturn in its orbit, creating a dark gore and a corresponding bright streamer - http://www.nasa.gov/mission_pages/cassini/multimedia/pia08849.html

domingo, janeiro 07, 2007

shout


Misha Gordin
Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastos; Os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer. Pode-se ter uma ideia genial, e ainda assim, como uma flor, ela murchará lentamente entre as nossas mãos. Permanece uma forma, mas faltam as suas cores e o seu aroma. Isso significa que, embora posteriormente nos lembremos bem dessas ideias, palavra por palavra, e o valor lógico da frase permaneça inalterado, ela apenas flutua desorientada na superfície do nosso interior, e já não nos sentimos enriquecidos por possuí-la. Até que - talvez anos depois - de súbito surge o momento em que vemos que, naquele meio tempo, nada sabíamos sobre ela, ainda que, do ponto de vista da lógica, soubéssemos tudo.
Sim, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. Um pensamento que se encontra por esse meio permanece indiferente, como um homem qualquer a marchar numa fila de soldados. Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é a lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada...uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz da nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja porta extrema, como uma flor, pousa o pensamento.
Robert Musil - O Jovem Torless

sábado, janeiro 06, 2007

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Quando anoiteceu e acenderam os lampiões, sentou-se à mesa e colocou à frente o caderno em que fizera todas aquelas rápidas anotações.
Mas por muito tempo não leu nada. Passou a mão pelas páginas, e era como se delas subisse um delicado aroma, como alfazema entre velhas cartas. Era a ternura misturada com a melancolia que dirigimos às coisas já passadas, quando, na suave, pálida sombra que delas emerge, com flores murchas nas mãos redescobrimos esquecidas semelhanças connosco próprios.
E essa nostálgica, delicada sombra, esse perfume fanado pareciam perder-se numa ampla, densa e cálida torrente - a vida, agora aberta diante de Torless.
Uma fase encerrava-se, a alma formara mais um anel, como na casca de uma árvore jovem. Essa sensação poderosa, para a qual não havia palavras, desculpava tudo o que acontecera.


Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, janeiro 04, 2007



yann tiersen & neil hannon (david bowie's cover)
A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois os nossos pensamentos e sensações não correm tranquilamente como um rio, eles "ocorrem-nos", na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se surgisse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão.Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte. (*)
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. É por isso que temos esse medo ridículo da morte irreversível, porque ela é, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insondável em que caímos. Na verdade, ela é a negação absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida, apenas para aqueles que não aprenderam a sentir-se de outro modo, a não ser de instante em instante.
Chamo a isso o mal saltitante, e o segredo está apenas em superá-lo. Temos de despertar em nós a sensação de que a vida é algo que desliza tranquilamente. No momento em que isso acontecer, estamos tão próximos da morte como da vida.
Já não vivemos - à luz dos nossos conceitos terrenos -, mas também já não podemos morrer, pois com a vida superámos também a morte. É o momento da imortalidade, o momento em que a alma sai da estreiteza do nosso cérebro para entrar nos maravilhosos jardins da sua vida. (**)

Robert Musil - O Jovem Torless

(*) - citação segundo o livro - colecção mil folhas do 'Público'
(**) - citação segundo o blog do 'citador'
por verificar que a citação existia no blog, interrompi a transcrição, verificando depois haver diferenças significativas na tradução.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

new year's resolutions

Jim Davis

bichos # 1


Fotos de Bruno Espadana, na União Zoófila

Então Torless desistiu de procurar palavras. A sensualidade que se esgueirara para dentro dele paulatinamente nos momentos de desespero despertava agora com toda a intensidade. Deitava-se ao lado dele, nua, cobrindo-lhe a cabeça com um manto negro e macio, sussurrava ao seu ouvido suaves palavras de resignação e com os seus dedos cálidos afastava todas as perguntas e deveres, como se fossem vãos. Sussurrava: na solidão tudo é permitido.
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, janeiro 02, 2007

Contrastes


Que me lembre, é a primeira vez que vejo papoilas em Janeiro.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

all this useless beauty



Its at times such as this shed be tempted to spit
If she wasnt so ladylike
She imagines how she might have lived
Back when legends and history collide
So she looks to her prince finding hes so charmingly
Slumped at her side
Those days are recalled on the gallery wall
And shes waiting for passion or humour to strike

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty

Good friday arrived, the sky darkened on time
til he almost began to negotiate
She held his head like a baby and said its okay if you cry
Now he wants her to dress as if you couldnt guess
He desires to impress his associates
But hes part ugly beast and hellenic deceased
So she finds that the mixture is hard to deny

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty

She wont practice the looks from the great tragic books
That were later disgraced to face celluloid
It wont even make sense but you can bet
If she isnt a sweetheart or plaything or pet
The film turns her into an unveiled threat

Nonsense prevails, modesty fails
Grace and virtue turn into stupidity
While the calendar fades almost all barricades to a pale compromise
And our leaders have feasts on the backsides of beasts
They still think theyre the gods of antiquity
If something you missed didnt even exist
It was just an ideal - is it such a surprise?

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty
What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty
Tentou algumas vezes prosseguir com as suas anotações, mas as palavras escritas eram mortas, uma série de pontos de interrogação horrendos, bem conhecidos, sem que voltasse o momento em que ele olhara através delas como uma abóboda iluminada pela ténue claridade de velas.
Robert Musil - O Jovem Torless

looking around


we are always asked
to understand the other person's
viewpoint
no matter how
out-dated
foolish or
obnoxious.

one is asked
to view
their total error
their life-waste
with
kindliness,
especially if they are
aged.

but age is the total of
our doing.
they have aged
badly
because they have
lived
out of focus,
they have refused to
see.

not their fault?

whose fault?
mine?

I am asked to hide
my viewpoint
from them
for fear of their
fear.

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.



Charles Bukowski

sábado, dezembro 30, 2006

time



Abelardo Morell

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Experimentando o go ear:



I was getting ready to be a threat
I was getting set for my
accidental suicide
the kind where no one dies
no one looks too surprised
then you realize
that you're riding on a para-success
of a heavy-handed metaphor
and a feeling like you've been here before
because you've been here before
and you've been here before
then a word washed ashore
a word washed ashore
then a word washed ashore

sovay, sovay,sovay
all along the day

I was getting ready to consider my next plan of attack
I think I'm gonna sack
the whole board of trustees
all those Don Quixotes un their B-17s
and I swear this time
yeah this time
they'll blow us back to the 70's
and this time
they're playin Ride of the Valkyries
with no semblance of grace or ease
and they're acting on vagaries
with their violent proclivities
and they're playing ride
Ride of the Valkyries
sovay,sovay,sovay
all along the day

Andrew Bird - Sovay