sábado, janeiro 13, 2007

banksy # 1








mais uma recomendação do sítio do costume (não, não é o pingo doce).

quarta-feira, janeiro 10, 2007

as ruínas circulares # 1

O desígnio que o guiava não era impossível, se bem que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com uma integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Este projecto mágico esgotara o espaço inteiro da sua alma; se alguém lhe perguntasse o seu próprio nome ou qualquer pormenor da sua vida anterior, não seria capaz de responder.
(...)
Ao princípio, os sonhos eram caóticos; pouco depois, foram de natureza dialéctica. O forasteiro sonhava-se no meio de um anfiteatro circular, que era de certo modo o templo incendiado: magotes de alunos taciturnos fatigavam os degraus; as caras dos das últimas filas pendiam há muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas viam-se com uma precisão absoluta. O homem dava-lhes lições de anatomia, de cosmografia, de magia: os rostos escutavam com ansiedade e tentavam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que deveria redimir um deles da vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e acordado, considerava as respostas dos seus fantasmas, não se deixava enganar pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligência crescente. Procurava uma alma que merecesse participar do universo.
Ao cabo de nove ou dez noites compreendeu com certa amargura que nada podia esperar dos alunos que aceitavam passivamente a sua doutrina, mas sim dos que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam elevar-se a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora só estava acordado umas horinhas ao amanhecer) despediu para sempre o vasto colégio ilusório e ficou apenas com um único aluno.
Jorge Luís Borges - Ficções
Descoberta recente, com a devida vénia aos meus dealers culturais:



terça-feira, janeiro 09, 2007

Era o que sentia agora. Lembrava-se de uma terrível convulsão no seu interior, algo para cuja explicação todos os meios de que dispunha por enquanto eram insuficientes.
Portanto, concluiu, deve ter siso alguma coisa muito mais necessária e profunda do que se pode avaliar com a razão e os conceitos...
E aquilo que existira antes da paixão, que fora recoberto por ela, a coisa real, o verdadeiro problema, estava enraizado nele. Aquela perspectiva alternada de longe e perto, que ele experimentara. Aquela relação incompreensível que dá a factos e coisas valores súbitos, conforme o nosso ponto de vista, e que são inteiramente estranhos e incomparáveis entre si...
Isso e tudo o resto - ele via-o singularmente, nítido, puro e pequeno. Assim como vemos pela manhã, quando os primeiros e puros raios de sol secaram o suor do medo, e a mesa, o armário, o inimigo e o destino se recolhem novamente às suas dimensões naturais.
Mas tal como nesse caso permanece em nós uma leve lassidão pensativa, também assim acontecia com Torless. Agora ele sabia distinguir entre o dia e a noite; na verdade sempre soubera; apenas, um pesadelo deslizara sobre essas fronteiras, confundindo-as, e ele envergonhava-se dessa confusão. Contudo, a lembrança de que podia ser diferente, de que existem ao redor do ser humano fronteiras finas, facilmente extinguíveis, e de que sonhos febris se esgueiram em torno da nossa alma, corroendo os muros firmes e abrindo sulcos sinistros - essa lembrança acomodava-se no fundo dele e irradiava as suas pálidas sombras.
Robert Musil - O Jovem Torless
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The battle king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah




amadeo de souza cardoso # 2

segunda-feira, janeiro 08, 2007

I keep going round and round on the same old circuit.
A wire travles underground to a vacant lot.
Where something I can't see interrupts the current.
And shrinks the picture down to a tiny dot.
And from behind the screen, it can look so perfect.
But it's not.

So here im sittin in my car at the same old stop light.
I keep waiting for a change, but I don't know what.
So red turns into green, turning into yellow.
But I'm just frozen here on the same old spot.
And all I have to do is press the pedal.
But I'm not. No I'm not.

Well people are tricky,
You can't afford to show,
anything risky, anything they don't know.
The moment you try, well kiss it goodbye.

So baby kiss me like a drug, like a respirator.
And let me fall into the dream of the astrounaut.
Where I get lost in space that goes on forever.
And you make all the rest just an after thought.
And I believe it's you who could make it better.
But it's not. No it's not.



Já não tenho medo de nada. Sei que as coisas são coisas e sempre o serão, e que sempre as verei ora de uma maneira, ora de outra. Ora com os olhos do raciocínio, ora com aqueles outros...E nunca mais tentarei comparar as duas coisas.


Robert Musil - O Jovem Torless

Prometheus dips into the inner F ring at its farthest point from Saturn in its orbit, creating a dark gore and a corresponding bright streamer - http://www.nasa.gov/mission_pages/cassini/multimedia/pia08849.html

domingo, janeiro 07, 2007

shout


Misha Gordin
Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastos; Os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer. Pode-se ter uma ideia genial, e ainda assim, como uma flor, ela murchará lentamente entre as nossas mãos. Permanece uma forma, mas faltam as suas cores e o seu aroma. Isso significa que, embora posteriormente nos lembremos bem dessas ideias, palavra por palavra, e o valor lógico da frase permaneça inalterado, ela apenas flutua desorientada na superfície do nosso interior, e já não nos sentimos enriquecidos por possuí-la. Até que - talvez anos depois - de súbito surge o momento em que vemos que, naquele meio tempo, nada sabíamos sobre ela, ainda que, do ponto de vista da lógica, soubéssemos tudo.
Sim, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. Um pensamento que se encontra por esse meio permanece indiferente, como um homem qualquer a marchar numa fila de soldados. Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é a lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada...uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz da nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja porta extrema, como uma flor, pousa o pensamento.
Robert Musil - O Jovem Torless

sábado, janeiro 06, 2007

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Quando anoiteceu e acenderam os lampiões, sentou-se à mesa e colocou à frente o caderno em que fizera todas aquelas rápidas anotações.
Mas por muito tempo não leu nada. Passou a mão pelas páginas, e era como se delas subisse um delicado aroma, como alfazema entre velhas cartas. Era a ternura misturada com a melancolia que dirigimos às coisas já passadas, quando, na suave, pálida sombra que delas emerge, com flores murchas nas mãos redescobrimos esquecidas semelhanças connosco próprios.
E essa nostálgica, delicada sombra, esse perfume fanado pareciam perder-se numa ampla, densa e cálida torrente - a vida, agora aberta diante de Torless.
Uma fase encerrava-se, a alma formara mais um anel, como na casca de uma árvore jovem. Essa sensação poderosa, para a qual não havia palavras, desculpava tudo o que acontecera.


Robert Musil - O Jovem Torless

quinta-feira, janeiro 04, 2007



yann tiersen & neil hannon (david bowie's cover)
A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois os nossos pensamentos e sensações não correm tranquilamente como um rio, eles "ocorrem-nos", na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se surgisse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão.Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte. (*)
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. É por isso que temos esse medo ridículo da morte irreversível, porque ela é, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insondável em que caímos. Na verdade, ela é a negação absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida, apenas para aqueles que não aprenderam a sentir-se de outro modo, a não ser de instante em instante.
Chamo a isso o mal saltitante, e o segredo está apenas em superá-lo. Temos de despertar em nós a sensação de que a vida é algo que desliza tranquilamente. No momento em que isso acontecer, estamos tão próximos da morte como da vida.
Já não vivemos - à luz dos nossos conceitos terrenos -, mas também já não podemos morrer, pois com a vida superámos também a morte. É o momento da imortalidade, o momento em que a alma sai da estreiteza do nosso cérebro para entrar nos maravilhosos jardins da sua vida. (**)

Robert Musil - O Jovem Torless

(*) - citação segundo o livro - colecção mil folhas do 'Público'
(**) - citação segundo o blog do 'citador'
por verificar que a citação existia no blog, interrompi a transcrição, verificando depois haver diferenças significativas na tradução.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

new year's resolutions

Jim Davis

bichos # 1


Fotos de Bruno Espadana, na União Zoófila

Então Torless desistiu de procurar palavras. A sensualidade que se esgueirara para dentro dele paulatinamente nos momentos de desespero despertava agora com toda a intensidade. Deitava-se ao lado dele, nua, cobrindo-lhe a cabeça com um manto negro e macio, sussurrava ao seu ouvido suaves palavras de resignação e com os seus dedos cálidos afastava todas as perguntas e deveres, como se fossem vãos. Sussurrava: na solidão tudo é permitido.
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, janeiro 02, 2007

Contrastes


Que me lembre, é a primeira vez que vejo papoilas em Janeiro.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

all this useless beauty



Its at times such as this shed be tempted to spit
If she wasnt so ladylike
She imagines how she might have lived
Back when legends and history collide
So she looks to her prince finding hes so charmingly
Slumped at her side
Those days are recalled on the gallery wall
And shes waiting for passion or humour to strike

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty

Good friday arrived, the sky darkened on time
til he almost began to negotiate
She held his head like a baby and said its okay if you cry
Now he wants her to dress as if you couldnt guess
He desires to impress his associates
But hes part ugly beast and hellenic deceased
So she finds that the mixture is hard to deny

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty

She wont practice the looks from the great tragic books
That were later disgraced to face celluloid
It wont even make sense but you can bet
If she isnt a sweetheart or plaything or pet
The film turns her into an unveiled threat

Nonsense prevails, modesty fails
Grace and virtue turn into stupidity
While the calendar fades almost all barricades to a pale compromise
And our leaders have feasts on the backsides of beasts
They still think theyre the gods of antiquity
If something you missed didnt even exist
It was just an ideal - is it such a surprise?

What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty
What shall we do, what shall we do with all this useless beauty?
All this useless beauty
Tentou algumas vezes prosseguir com as suas anotações, mas as palavras escritas eram mortas, uma série de pontos de interrogação horrendos, bem conhecidos, sem que voltasse o momento em que ele olhara através delas como uma abóboda iluminada pela ténue claridade de velas.
Robert Musil - O Jovem Torless

looking around


we are always asked
to understand the other person's
viewpoint
no matter how
out-dated
foolish or
obnoxious.

one is asked
to view
their total error
their life-waste
with
kindliness,
especially if they are
aged.

but age is the total of
our doing.
they have aged
badly
because they have
lived
out of focus,
they have refused to
see.

not their fault?

whose fault?
mine?

I am asked to hide
my viewpoint
from them
for fear of their
fear.

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.



Charles Bukowski

sábado, dezembro 30, 2006

time



Abelardo Morell

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Experimentando o go ear:



I was getting ready to be a threat
I was getting set for my
accidental suicide
the kind where no one dies
no one looks too surprised
then you realize
that you're riding on a para-success
of a heavy-handed metaphor
and a feeling like you've been here before
because you've been here before
and you've been here before
then a word washed ashore
a word washed ashore
then a word washed ashore

sovay, sovay,sovay
all along the day

I was getting ready to consider my next plan of attack
I think I'm gonna sack
the whole board of trustees
all those Don Quixotes un their B-17s
and I swear this time
yeah this time
they'll blow us back to the 70's
and this time
they're playin Ride of the Valkyries
with no semblance of grace or ease
and they're acting on vagaries
with their violent proclivities
and they're playing ride
Ride of the Valkyries
sovay,sovay,sovay
all along the day

Andrew Bird - Sovay

quarta-feira, dezembro 27, 2006

- Às vezes, penso no meu isolamento voluntário e acho um inferno. Que já estou morto, apesar de não o saber. Mas estou bem. Revi o meu passado, agora que tenho as "respostas".

- Não parece muito divertido.

- Precisamente, Marianne. Não é. Mas quem raio é que disse que a maldição tinha de ser divertida?

- E o que dizem as "respostas"?

- Queres mesmo saber?

- Perguntei, não perguntei?

- Que a minha vida tem sido uma merda. Uma vida idiota e sem sentido.

- O nosso casamento faz parte do teu inferno?

- Para ser sincero, faz.

- Lamento ouvir isso.

- Uma vez um padre disse-me que uma boa relação tem dois componentes: uma amizade sincera e um erotismo inabalável. Ninguém pode dizer que não éramos bons amigos. Bondosos e capazes.

- Bons amigos.

- Sem dúvida.

- Tu eras infiel. Eu era tão...

- Eu também.

- Tão triste.

- Mas foi há tanto tempo.

- Ainda é doloroso.

- Para mim, não.

- Não, suponho que não.

- Querida Marianne.

- És tu quem o diz.

- Pois sou. É bom estar aqui contigo. De mãos dadas, a olhar para esta vista magnífica. Sem falar de coisas dolorosas.

- És tu que estás a agarrar a minha mão.



- Podemos ver a vista, dar as mãos...

- Vamos dar as mãos?

- Não fazíamos isso, nos velhos tempos?

- Fazíamos, penso que sim.

- Não dou as mãos desde que...bem penso que desisti de dar as mãos.

Uma história de Natal, para ler e sorrir.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Será lei geral que exista em nós algo mais forte, mais belo, maior, mais apaixonado, mais sombrio do que nós mesmos? Algo sobre o qual exercemos tão pouco poder? Podemos apenas espalhar milhares de sementes sem objectivo, até que uma delas repentinamente floresça como uma flama escura, crescendo muito acima de nós?

Robert Musil - O Jovem Torless

sábado, dezembro 23, 2006

I think I saw a pussy cat


I did, I did! Two pussy cats.

aos amigos de alex



greeting card from sufjan stevens

uma ideia desenterrada do vaso da mio

no further comments

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?


Jorge de Sena

and so this is christmas


geada


A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.

Stig Dagerman

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Não pensava em nada, embora estivesse muito ocupado interiormente. Observava-se a si mesmo. Era como se olhasse para o vazio e só de esguelha obtivesse uma indistinta noção de si.
Robert Musil - O Jovem Torless

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Esta volúvel ragazza contribuiu para a primeira internacionalização do projecto travelling journal.



Photobucket - Video and Image Hosting




Photobucket - Video and Image Hosting

nem me digam nada...

Photobucket - Video and Image Hosting

terça-feira, dezembro 19, 2006

De repente notou - e era quase como se fosse pela primeira vez - quanto o céu ficava longe.
Foi como um sobressalto. Exactamente por cima dele reluziu entre nuvens uma nesga azul, indizivelmente profunda.
Sentiu que poderia subir até lá numa escada bem longa. Mas, quanto mais entrava ali, erguendo-se pelo olhar, mais o fundo azul e luminoso se encolhia, recuando. Era como se ele tivesse de alcançá-lo, segurando-o com os olhos. Esse desejo tornou-se torturantemente intenso.
(...)
- O infinito! - Torless conhecia o termo das aulas de matemática. Jamais imaginara algo de especial a esse respeito (...)
Agora, porém, varava-o como um raio a compreensão de que essa palavra continha algo terrivelmente inquietante. Parecia-lhe um conceito domesticado, com que fizera diariamente pequenas artes, mas que de repente se libertara. Algo que ultrapassava o entendimento, algo selvagem, aniquilador, adormecido pelo trabalho de algum inventor e que de repente despertara e se tornara novamente terrível. Ali, naquele céu, isso achava-se agora por cima dele, vivo e ameaçador, zombando sinistramente dele.
Por fim, cerrou os olhos, porque a visão torturava-o demais.
(...)
Ainda percebia o céu, imenso, silencioso, a fitá-lo lá de cima; agora recordava-se que muitas vezes essa impressão o dominara e, entre a vigília e o sonho, reviveu essas lembranças, enredado na sua trama.
(...)
Torless ficou dominado pelo anseio louco de ver duplamente todas as coisas, pessoas e factos. Como se se prendessem, de um lado, à palavra inocente e esclarecedora fornecida por um inventor qualquer e do outro lado fossem muito estranhas, ameaçando libertar-se a qualquer momento.
(...)
É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse de si. E aquilo que parece grande e estranho enquanto as nossas palavras, de longe, anseiam por isso, torna-se simples e perde o que tem de inquietante mal entra no ritmo da nossa vida diária.
(...)
Era a falha das palavras que o torturava, a vaga consciência de que as palavras eram apenas subterfúgios transitórios para as coisas realmente experimentadas.
(...)
Voltara novamente os olhos para o céu. Como se, por acaso, ainda pudesse descobrir o seu mistério e decifrar o que havia nele de tão perturbador. Mas cansou-se e foi dominado por uma profunda solidão. O céu estava mudo. Torless sentia que estava completamente só debaixo da abóboda hirta e calada, como um diminuto ponto vivo sob aquele cadáver imenso e transparente. Isso, porém, pouco o assustou. Era como uma dor antiga, já familiar, que enfiam atacasse também as suas últimas fibras.


Robert Musil - O Jovem Torless
The Cassini spacecraft gazes down at the marvelous rings and swirling clouds of giant Saturn from above the planet's north pole.

murder ballads

Henry Lee


Get down, get down, little Henry Lee
And stay all night with me
You won't find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

I can't get down and I won't get down
And stay all night with thee
For the girl I have in that merry green land
I love far better than thee
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

She leaned herself against a fence
Just for a kiss or two
And with a little pen-knife held in her hand
She plugged him through and through
And the wind did roar and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Come take him by his lilly-white hands
Come take him by his feet
And throw him in this deep deep well
Which is more than one hundred feet
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Lie there, lie there, little Henry Lee
Till the flesh drops from your bones
For the girl you have in that merry green land
Can wait forever for you to come home
And the wind did howl and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Where the wild roses grow


They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day

From the first day I saw her I knew she was the one
She stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild

When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day


On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?"

On the second day he came with a single red rose
Said: "Will you give me your loss and your sorrow"
I nodded my head, as I lay on the bed
He said, "If I show you the roses, will you follow?"

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he knelt (stood smiling) above me with a rock in his fist

On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
And I kissed her goodbye, said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose between her teeth

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day



Death is not the end


When you're sad and when you're lonely
And you haven't got a friend
Just remember that death is not the end

And all that you held sacred
Falls down and does not mend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

When you're standing on the crossroads
That you cannot comprehend
Just remember that death is not the end

And all your dreams have vanished
And you don't know what's up the bend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

When the storm clouds gather round you
And heavy rains descend
Just remember that death is not the end

And there's no-one there to comfort you
With a helping hand to lend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

For the tree of life is growing
Where the spirit never dies
And the bright light of salvation
Up in dark and empty skies
When the cities are on fire
With the burning flesh of men
Just remember that death is not the end

When you search in vain to find
Some law-abiding citizen
Just remember that death is not the end

Not the end, not the end
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Existia, portanto, algo com que sempre se tinha de contar, algo de que se precaver, algo que subitamente pode saltar fora dos calados espelhos dos nossos pensamentos?
Mas assim tudo o resto também era possível. (...)
Assim também era possível que, no mundo quotidiano e nítido que ele até então conhecera, se abrisse uma porta, levando a outro mundo, abafado, ardente, apaixonado, desnudado, devastador. (...)
Havia só uma questão: como é que isso é possível? o que acontece em tais momentos? O que é que explode no ar com um grito e subitamente se extingue?
(...)
Tudo o que se movia nele jazia ainda em trevas, embora já sentisse o desejo de contemplar no meio da escuridão coisas que os outros não percebiam. Esse desejo misturava-se a um leve calafrio. Como se sobre a sua vida pairasse permanentemente um céu cinzento e encoberto com grandes nuvens, vultos monstruosos e mutáveis, e a pergunta sempre renovada: serão monstros? serão apenas nuvens?


Robert Musil - O Jovem Torless




- Acordei-te?

- És tu, Marianne! Olá.

- Não, não te levantes.

- Típico, estavas a espreitar-me.

- Não estava nada.

- Não nos víamos há 30 anos, 32!

- Perdemos o rasto um do outro.

- É natural. Primeiro as pessoas estão juntas,depois separam-se e telefonam-se. E por fim há o silêncio.

- É triste.

- Isso é uma crítica?

- Não, só não tínhamos o que dizer.Depois, de repente, telefonas-me e dizes querer visitar-me.

- Não pareces muito entusiasmado.

- Entusiasmado? Eu disse que não. E continuo a dizer, não quero isto. Não. Mas tu não queres saber.

- Eu tinha que vir.

- Porquê?

- Não vou dizer-te.

- Estás a rir.

- Johan...fiz 340 Km e consegui encontrar o teu covil no meio de nenhures. Mas agora que já te vi, beijei e falei contigo, já me posso ir embora.

- Não pode ser!

- Não?

- Tens pelo menos de jantar.

- Porquê?

- Há uma semana, disse à Srª Nilsson que uma ex-mulher viria visitar-me. Não posso, agora, dizer-lhe que não haverá jantar. Ela ficaria furiosa.

- Quem é a Srª Nilsson?

- Agda. Agda Nilsson.

- Vocês são um casal?

- Santo Deus do Céu! Deus me livre!

- Vocês os dois vivem aqui sozinhos na profunda e escura floresta?

- A Srª Nilsson vive na aldeia. Ela vem cá fazer as limpezas, cozinhar e depois vai para casa. Ela é religiosa e maligna.

- Então, isto não é bem um idílio.

- Para dizer a verdade, tenho medo da velha. Tenho medo que queira casar comigo. Bom, mas fica para jantar. E ela arrumou o quarto de hóspedes, por isso tens de passar cá a noite.

- Suponho que terei de me submeter.

- Tenho cá um trabalhão para saír desta cadeira. Não, não me ajudes!

- O que se passa, Johan?

- Pretendo abraçar-te.

- Vamos abraçar-nos? Raios parta, Johan! Maldito velho idiota.



domingo, dezembro 17, 2006

ladies and gentlemen, mr. tom waits



Wasted and wounded, it ain't what the moon did
I've got what I paid for now
see ya tomorrow, hey Frank, can I borrow
a couple of bucks from you, to go
Waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

I'm an innocent victim of a blinded alley
and I'm tired of all these soldiers here
no one speaks English, and everything's broken
and my Stacys are soaking wet
to go waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

now the dogs are barking
and the taxi cab's parking
a lot they can do for me
I begged you to stab me
you tore my shirt open
and I'm down on my knees tonight
Old Bushmill's I staggered, you buried the dagger in
your silhouette window light go to go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

now I lost my Saint Christopher now that I've kissed her and the one-armed bandit knows, and the maverick Chinamen, and the cold-blooded signs
and the girls down by the strip-tease shows go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

no, I don't want your sympathy, the fugitives say that the streets aren't for dreaming now
manslaughter dragnets and the ghosts that sell memories
they want a piece of the action anyhow go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

and you can ask any sailor, and the keys from the jailor
and the old men in wheelchairs know
that Mathilda's the defendant, she killed about a hundred
and she follows wherever you may go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

and it's a battered old suitcase to a hotel someplace
and a wound that will never heal
no prima donna, the perfume is on
an old shirt that is stained with blood and whiskey
and goodnight to the street sweepers
the night watchman flame keepers
and goodnight to Mathilda too

Tom Waits - Tom Traubert's Blues


outono


Só quando se tratava de tomar uma decisão, de assumir os riscos de uma escolha entre as várias opções psicológicas e agir, é que ele falhava, perdia o interesse e a energia.
(...)
Ansiava então por sentir algo determinado, necessidades certas, distinguindo entre o bom e o mau, entre o útil e o pernicioso, saber decidir-se, ainda que erradamente, era melhor que assimilar tudo com excessiva receptividade...
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, dezembro 12, 2006

Desde que acordei, tenho estado a ouvir isto, em repeat mode, na minha cabeça.





Ground control to major tom
Ground control to major tom
Take your protein pills and put your helmet on

Ground control to major tom
Commencing countdown, engines on
Check ignition and may gods love be with you

Ten, nine, eight, seven, six, five,
Four, three, two, one, liftoff

This is ground control to major tom
Youve really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now its time to leave the capsule if you dare

This is major tom to ground control
Im stepping through the door
And Im floating in a most peculiar way
And the stars look very different today

For here
Am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet earth is blue
And theres nothing I can do

Though Im past one hundred thousand miles
Im feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell me wife I love her very much she knows

Ground control to major tom
Your circuits dead, theres something wrong
Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you....

Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet earth is blue
And theres nothing I can do.



David Bowie - Space Oddity

Google rules


Celebrando o aniversário do nascimento de Edvard Munch, o Google tem hoje este logotipo