quarta-feira, dezembro 20, 2006

Esta volúvel ragazza contribuiu para a primeira internacionalização do projecto travelling journal.



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nem me digam nada...

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terça-feira, dezembro 19, 2006

De repente notou - e era quase como se fosse pela primeira vez - quanto o céu ficava longe.
Foi como um sobressalto. Exactamente por cima dele reluziu entre nuvens uma nesga azul, indizivelmente profunda.
Sentiu que poderia subir até lá numa escada bem longa. Mas, quanto mais entrava ali, erguendo-se pelo olhar, mais o fundo azul e luminoso se encolhia, recuando. Era como se ele tivesse de alcançá-lo, segurando-o com os olhos. Esse desejo tornou-se torturantemente intenso.
(...)
- O infinito! - Torless conhecia o termo das aulas de matemática. Jamais imaginara algo de especial a esse respeito (...)
Agora, porém, varava-o como um raio a compreensão de que essa palavra continha algo terrivelmente inquietante. Parecia-lhe um conceito domesticado, com que fizera diariamente pequenas artes, mas que de repente se libertara. Algo que ultrapassava o entendimento, algo selvagem, aniquilador, adormecido pelo trabalho de algum inventor e que de repente despertara e se tornara novamente terrível. Ali, naquele céu, isso achava-se agora por cima dele, vivo e ameaçador, zombando sinistramente dele.
Por fim, cerrou os olhos, porque a visão torturava-o demais.
(...)
Ainda percebia o céu, imenso, silencioso, a fitá-lo lá de cima; agora recordava-se que muitas vezes essa impressão o dominara e, entre a vigília e o sonho, reviveu essas lembranças, enredado na sua trama.
(...)
Torless ficou dominado pelo anseio louco de ver duplamente todas as coisas, pessoas e factos. Como se se prendessem, de um lado, à palavra inocente e esclarecedora fornecida por um inventor qualquer e do outro lado fossem muito estranhas, ameaçando libertar-se a qualquer momento.
(...)
É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse de si. E aquilo que parece grande e estranho enquanto as nossas palavras, de longe, anseiam por isso, torna-se simples e perde o que tem de inquietante mal entra no ritmo da nossa vida diária.
(...)
Era a falha das palavras que o torturava, a vaga consciência de que as palavras eram apenas subterfúgios transitórios para as coisas realmente experimentadas.
(...)
Voltara novamente os olhos para o céu. Como se, por acaso, ainda pudesse descobrir o seu mistério e decifrar o que havia nele de tão perturbador. Mas cansou-se e foi dominado por uma profunda solidão. O céu estava mudo. Torless sentia que estava completamente só debaixo da abóboda hirta e calada, como um diminuto ponto vivo sob aquele cadáver imenso e transparente. Isso, porém, pouco o assustou. Era como uma dor antiga, já familiar, que enfiam atacasse também as suas últimas fibras.


Robert Musil - O Jovem Torless
The Cassini spacecraft gazes down at the marvelous rings and swirling clouds of giant Saturn from above the planet's north pole.

murder ballads

Henry Lee


Get down, get down, little Henry Lee
And stay all night with me
You won't find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

I can't get down and I won't get down
And stay all night with thee
For the girl I have in that merry green land
I love far better than thee
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

She leaned herself against a fence
Just for a kiss or two
And with a little pen-knife held in her hand
She plugged him through and through
And the wind did roar and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Come take him by his lilly-white hands
Come take him by his feet
And throw him in this deep deep well
Which is more than one hundred feet
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Lie there, lie there, little Henry Lee
Till the flesh drops from your bones
For the girl you have in that merry green land
Can wait forever for you to come home
And the wind did howl and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee

Where the wild roses grow


They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day

From the first day I saw her I knew she was the one
She stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild

When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day


On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?"

On the second day he came with a single red rose
Said: "Will you give me your loss and your sorrow"
I nodded my head, as I lay on the bed
He said, "If I show you the roses, will you follow?"

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he knelt (stood smiling) above me with a rock in his fist

On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
And I kissed her goodbye, said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose between her teeth

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day



Death is not the end


When you're sad and when you're lonely
And you haven't got a friend
Just remember that death is not the end

And all that you held sacred
Falls down and does not mend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

When you're standing on the crossroads
That you cannot comprehend
Just remember that death is not the end

And all your dreams have vanished
And you don't know what's up the bend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

When the storm clouds gather round you
And heavy rains descend
Just remember that death is not the end

And there's no-one there to comfort you
With a helping hand to lend
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

For the tree of life is growing
Where the spirit never dies
And the bright light of salvation
Up in dark and empty skies
When the cities are on fire
With the burning flesh of men
Just remember that death is not the end

When you search in vain to find
Some law-abiding citizen
Just remember that death is not the end

Not the end, not the end
Just remember that death is not the end
Not the end, not the end
Just remember that death is not the end

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Existia, portanto, algo com que sempre se tinha de contar, algo de que se precaver, algo que subitamente pode saltar fora dos calados espelhos dos nossos pensamentos?
Mas assim tudo o resto também era possível. (...)
Assim também era possível que, no mundo quotidiano e nítido que ele até então conhecera, se abrisse uma porta, levando a outro mundo, abafado, ardente, apaixonado, desnudado, devastador. (...)
Havia só uma questão: como é que isso é possível? o que acontece em tais momentos? O que é que explode no ar com um grito e subitamente se extingue?
(...)
Tudo o que se movia nele jazia ainda em trevas, embora já sentisse o desejo de contemplar no meio da escuridão coisas que os outros não percebiam. Esse desejo misturava-se a um leve calafrio. Como se sobre a sua vida pairasse permanentemente um céu cinzento e encoberto com grandes nuvens, vultos monstruosos e mutáveis, e a pergunta sempre renovada: serão monstros? serão apenas nuvens?


Robert Musil - O Jovem Torless




- Acordei-te?

- És tu, Marianne! Olá.

- Não, não te levantes.

- Típico, estavas a espreitar-me.

- Não estava nada.

- Não nos víamos há 30 anos, 32!

- Perdemos o rasto um do outro.

- É natural. Primeiro as pessoas estão juntas,depois separam-se e telefonam-se. E por fim há o silêncio.

- É triste.

- Isso é uma crítica?

- Não, só não tínhamos o que dizer.Depois, de repente, telefonas-me e dizes querer visitar-me.

- Não pareces muito entusiasmado.

- Entusiasmado? Eu disse que não. E continuo a dizer, não quero isto. Não. Mas tu não queres saber.

- Eu tinha que vir.

- Porquê?

- Não vou dizer-te.

- Estás a rir.

- Johan...fiz 340 Km e consegui encontrar o teu covil no meio de nenhures. Mas agora que já te vi, beijei e falei contigo, já me posso ir embora.

- Não pode ser!

- Não?

- Tens pelo menos de jantar.

- Porquê?

- Há uma semana, disse à Srª Nilsson que uma ex-mulher viria visitar-me. Não posso, agora, dizer-lhe que não haverá jantar. Ela ficaria furiosa.

- Quem é a Srª Nilsson?

- Agda. Agda Nilsson.

- Vocês são um casal?

- Santo Deus do Céu! Deus me livre!

- Vocês os dois vivem aqui sozinhos na profunda e escura floresta?

- A Srª Nilsson vive na aldeia. Ela vem cá fazer as limpezas, cozinhar e depois vai para casa. Ela é religiosa e maligna.

- Então, isto não é bem um idílio.

- Para dizer a verdade, tenho medo da velha. Tenho medo que queira casar comigo. Bom, mas fica para jantar. E ela arrumou o quarto de hóspedes, por isso tens de passar cá a noite.

- Suponho que terei de me submeter.

- Tenho cá um trabalhão para saír desta cadeira. Não, não me ajudes!

- O que se passa, Johan?

- Pretendo abraçar-te.

- Vamos abraçar-nos? Raios parta, Johan! Maldito velho idiota.



domingo, dezembro 17, 2006

ladies and gentlemen, mr. tom waits



Wasted and wounded, it ain't what the moon did
I've got what I paid for now
see ya tomorrow, hey Frank, can I borrow
a couple of bucks from you, to go
Waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

I'm an innocent victim of a blinded alley
and I'm tired of all these soldiers here
no one speaks English, and everything's broken
and my Stacys are soaking wet
to go waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

now the dogs are barking
and the taxi cab's parking
a lot they can do for me
I begged you to stab me
you tore my shirt open
and I'm down on my knees tonight
Old Bushmill's I staggered, you buried the dagger in
your silhouette window light go to go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

now I lost my Saint Christopher now that I've kissed her and the one-armed bandit knows, and the maverick Chinamen, and the cold-blooded signs
and the girls down by the strip-tease shows go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

no, I don't want your sympathy, the fugitives say that the streets aren't for dreaming now
manslaughter dragnets and the ghosts that sell memories
they want a piece of the action anyhow go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing Mathilda with me

and you can ask any sailor, and the keys from the jailor
and the old men in wheelchairs know
that Mathilda's the defendant, she killed about a hundred
and she follows wherever you may go
waltzing Mathilda, waltzing Mathilda, you'll go waltzing
Mathilda with me

and it's a battered old suitcase to a hotel someplace
and a wound that will never heal
no prima donna, the perfume is on
an old shirt that is stained with blood and whiskey
and goodnight to the street sweepers
the night watchman flame keepers
and goodnight to Mathilda too

Tom Waits - Tom Traubert's Blues


outono


Só quando se tratava de tomar uma decisão, de assumir os riscos de uma escolha entre as várias opções psicológicas e agir, é que ele falhava, perdia o interesse e a energia.
(...)
Ansiava então por sentir algo determinado, necessidades certas, distinguindo entre o bom e o mau, entre o útil e o pernicioso, saber decidir-se, ainda que erradamente, era melhor que assimilar tudo com excessiva receptividade...
Robert Musil - O Jovem Torless

terça-feira, dezembro 12, 2006

Desde que acordei, tenho estado a ouvir isto, em repeat mode, na minha cabeça.





Ground control to major tom
Ground control to major tom
Take your protein pills and put your helmet on

Ground control to major tom
Commencing countdown, engines on
Check ignition and may gods love be with you

Ten, nine, eight, seven, six, five,
Four, three, two, one, liftoff

This is ground control to major tom
Youve really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now its time to leave the capsule if you dare

This is major tom to ground control
Im stepping through the door
And Im floating in a most peculiar way
And the stars look very different today

For here
Am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet earth is blue
And theres nothing I can do

Though Im past one hundred thousand miles
Im feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell me wife I love her very much she knows

Ground control to major tom
Your circuits dead, theres something wrong
Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you hear me, major tom?
Can you....

Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet earth is blue
And theres nothing I can do.



David Bowie - Space Oddity

Google rules


Celebrando o aniversário do nascimento de Edvard Munch, o Google tem hoje este logotipo

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Sentar-se de noite na janela aberta, sentindo-se abandonado, sentindo-se diferente dos adultos, com todos aqueles sorrisos e olhares trocistas que não o compreendiam, sem poder explicar a ninguém o que já sabia ser, e ansiar por alguém que o compreendesse...Isso é amor! Mas para senti-lo é preciso ser jovem e solitário.
(...)
Os planos pacientes que imperceptivelmente encadeiam os dias, formando meses e anos para o adulto, ainda lhe eram alheios. Assim também o embotamento que nem permite ao menos fazer indagações quando mais um dia se acaba. A sua vida estava centrada em cada dia. Cada noite, significava um nada, uma extinção. Ele ainda não tinha aprendido a morrer ao fim de cada dia sem se preocupar.
Por isso sempre imaginara que, por detrás de tudo, havia algo que lhe ocultavam. As noites pareciam-lhe escuros portões diante de secretas alegrias, de modo que a vida permanecia-lhe secreta e infeliz.
Robert Musil - O Jovem Torless

sábado, dezembro 09, 2006

The Travelling Journal Project




Cátia Mourão...................... Fernando Gouveia...................... Raquel Costa




Karen Dalton



ouvir mais em http://www.wirz.de/music/daltofrm.htm

quinta-feira, dezembro 07, 2006



Tenho estado a pensar...que tenho de visitar o Johan.
E agora estou mesmo aqui.
Ele está ali sentado, na varanda.
E eu tenho estado aqui...a olhar para ele e...
a conter-me
há pelo menos, dez minutos.
Talvez devesse ter ignorado este impulso totalmente irracional.
Esta viagem...
Na verdade, não sou de todo do tipo impulsivo.
Mas aqui estou eu...
Por isso, tenho de me decidir:
ou volto calmamente para o meu carro estacionado à beira da estrada...
ou vou ter com ele.
É claro que eu também podia ficar aqui mais um pouco
e deixar a minha confusão tornar-se num caos.
Mas não durante demasiado tempo.
Mais um minuto!
Este minuto leva o seu tempinho.
33 segundos...
47 segundos...
55 segundos.


O Johan e eu não tivemos contacto...nenhum contacto desde há muitos anos.
Tenho andado a pensar que tenho de visitar o Johan.
Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não é o efeito de uma primeira paixão, mas a sua causa. A paixão é apenas um refúgio, no qual estar com o outro significa solidão duplicada.
Quase sempre a primeira paixão pouco perdura e deixa um ressaibo amargo. Trata-se de um logro, de uma decepção. Quando ela passa não compreendemos como fomos capazes de tudo aquilo, nem sabemos a quem culpar. Isso acontece porque as personagens desse drama em geral encontram-se por acaso: eventuais companheiros de uma fuga enlouquecida. Apaziguados, não se reconhecem mais. Percebem que são diferentes, porque já não se dão conta do que têm em comum.

Robert Musil - O Jovem Torless

domingo, dezembro 03, 2006

song to the siren

On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.

And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."

Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?

Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?

Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."


green leaves






Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente!
Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

passagem dos elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore



Mário Cesariny

radiograma

Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar


Mário Cesariny

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar



Mário Cesariny

lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco



Mário Cesariny

sábado, dezembro 02, 2006

Entre os factos externos e o seu eu, sim, entre as suas próprias emoções e o seu eu mais remoto, que ansiava por entendê-las, haveria sempre uma linha divisória que, como um horizonte, recuava ante o seu anseio.
Robert Musil - O Jovem Torless

intelectual cats



sexta-feira, dezembro 01, 2006

Riverman

Betty came by on her way
Said she had a word to say
About things today
And fallen leaves

Said she hadn’t heard the news
Hadn’t had the time to choose
A way to lose
But she believes

Gonna see the river man
Gonna tell him all I can
About the plan
For lilac time

If he tells me all he knows
About the way his river flows
And all night shows
In summertime

Betty said she prayed today
For the sky to blow away
Or maybe stay
She wasn’t sure

For when she thought of summer rain
Calling for her mind again
She lost the pain
And stayed for more

Gonna to see the river man
Gonna to tell him all I can
About the ban
On feeling free

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don’t suppose
It’s meant for me

Oh, how they come and go


when the day is done

When the day is done
Down to earth then sinks the sun
Along with everything that was lost and won
When the day is done

When the day is done
Hope so much your race will be all run
Then you find you jumped the gun
Have to go back where you begun
When the day is done

When the night is cold
Some get by but some get old
Just to show life’s not made of gold
When the night is cold

When the bird has flown
Got no-one to call your own
Got no place to call your home
When the bird has flown

When the game’s been fought
You speed the ball across the court
Lost much sooner than you would have thought
Now the game’s been fought

When the party’s through
Seems so very sad for you
Didn’t do the things you meant to do
Now there’s no time to start anew
Now the party’s through

When the day is done
Down to earth then sinks the sun
Along with everything that was lost and won
When the day is done

quinta-feira, novembro 30, 2006

O que é que na verdade faz algum sentido? De que nos adianta? Quero dizer, o que é que adianta para nós, entende? À noite, sabemos que vivemos mais um dia, que aprendemos isto e aquilo, cumprimos o horário, mas permanecemos vazios, quero dizer, vazios por dentro, e continuamos com uma fome interior...
(...)
- Preparar? Exercitar-se? Para quê? Você sabe algo determinado? Talvez espere algo, mas também não tem nenhuma certeza do que seja. A coisa é assim. Uma eterna espera de algo do qual não sabemos senão isto: que estamos à sua espera...É tão aborrecido...

Robert Musil - O Jovem Torless
Há sempre um momento em que já não sabemos mais se estamos a mentir, ou se o que inventamos é mais verdadeiro que nós próprios.

Robert Musil - O Jovem Torless

I'm back

Pois é, mais de um mês sem net em casa e o blog deixado às moscas. Agora, com modem novo e ligação mais rápida (dizem eles), estou de volta à blogocoisa.

quarta-feira, outubro 11, 2006

ó balhamedeus

esta menina passou-me a batatinha quente de contar aqui 6 coisas sobre mim,

  1. (logo eu que tenho a mania) de pouco ou nada falar a meu respeito
  2. sou muito desarrumada, mas graças ao computador, diminuiram as pilhas de papel na minha secretária
  3. gosto de dias grandes, quentes e luminosos (e está quase a chegar a grande neura da mudança da hora)
  4. odeio as convencionadas épocas festivas, sendo o natal o expoente máximo dessa antipatia
  5. gosto de um certo e determinado grupo de pessoas que só estão bem a fazer pouco
  6. que mais é que eu hei-de dizer? ah, é verdade: gosto de gatos (aposto que ainda não sabiam esta... >:D )

passo a palavra à spot, à ana e à beatriz



uff, já me safei. agora amanhem-se. a culpa não foi minha.

terça-feira, outubro 10, 2006

slow motion

Guy Gagnon

domingo, outubro 01, 2006

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Alexandre O'Neill

segunda-feira, setembro 25, 2006

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio
de um cais frio. Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.


Amalia Bautista

sexta-feira, julho 28, 2006

Ter esperança é quase tão difícil como o resto. Mas estamos mais habituados a ter esperança e a ter medo do que a estar no meio daquilo que esperamos ou tememos. Aprendi: que não há nenhuma verdadeira saída para a vida. Podemos quando muito adiar a decisão, com habilidade e astúcia. Mas não há saída. É um sistema totalmente fechado, e no fim existe só a morte. E a morte, claro, não é uma saída. Sou um corpo. Apenas um corpo. Tudo o que tem de ser feito, que pode ser feito, tem de ser feito dentro deste corpo.
Lars Gustafsson
obrigada, N. ;)

domingo, julho 23, 2006

walking on a thin rope

Hyeyoung Kim

quarta-feira, julho 05, 2006

before my death I hope to obtain my life

what can we do?


at their best, there is gentleness in Humanity.
some understanding and, at times, acts of
courage
but all in all it is a mass, a glob that doesn't
have too much.
it is like a large animal deep in sleep and
almost nothing can awaken it.
when activated it's best at brutality,
selfishness, unjust judgments, murder.

what can we do with it, this Humanity?

nothing.

avoid the thing as much as possible.
treat it as you would anything poisonous, vicious
and mindless.
but be careful. it has enacted laws to protect
itself from you.
it can kill you without cause.
and to escape it you must be subtle.
few escape.

it's up to you to figure a plan.

I have met nobody who has escaped.

I have met some of the great and
famous but they have not escaped
for they are only great and famous within
Humanity.

I have not escaped
but I have not failed in trying again and
again.

before my death I hope to obtain my
life.



Charles Bukowski

domingo, julho 02, 2006

Deves andar sempre bêbado. É a única solução.

Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa

sobre os ombros e te verga ao encontro da terra,

deves embriagar-te sem cessar.

Com vinho, com poesia ou com a virtude. Escolhe tu,

mas embriaga-te.

E se alguma vez, nos degraus de um palácio,

sobre as ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto,

tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento,

à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta,

a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são: «São horas

de te embriagares. Para não seres como os escravos martirizados

do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso. Com vinho,

com Poesia, ou com a virtude.



Charles Baudelaire

domingo, junho 25, 2006

The Silent Spheres



O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.

André Malraux - A Condição Humana

segunda-feira, junho 19, 2006

Peggy Washburn

E imagine quem puder minha pessoa de criança frágil, caixilhos de solidão acolchoada contra micróbios e correntes de ar.

Nuno Bragança - A noite e o Riso

We're on a road to nowhere

Gary Irving

sábado, junho 17, 2006

As cidades e os rios # 2

Eugène Atget

quinta-feira, junho 15, 2006

Assim vêm pessoas até nós, dando sinal de coisas importantes. Logo passam; mas quem tem olhos e ouvidos recebe prendas inestimáveis.
Nuno Bragança - A Noite e o Riso