sábado, dezembro 09, 2006

quinta-feira, dezembro 07, 2006



Tenho estado a pensar...que tenho de visitar o Johan.
E agora estou mesmo aqui.
Ele está ali sentado, na varanda.
E eu tenho estado aqui...a olhar para ele e...
a conter-me
há pelo menos, dez minutos.
Talvez devesse ter ignorado este impulso totalmente irracional.
Esta viagem...
Na verdade, não sou de todo do tipo impulsivo.
Mas aqui estou eu...
Por isso, tenho de me decidir:
ou volto calmamente para o meu carro estacionado à beira da estrada...
ou vou ter com ele.
É claro que eu também podia ficar aqui mais um pouco
e deixar a minha confusão tornar-se num caos.
Mas não durante demasiado tempo.
Mais um minuto!
Este minuto leva o seu tempinho.
33 segundos...
47 segundos...
55 segundos.


O Johan e eu não tivemos contacto...nenhum contacto desde há muitos anos.
Tenho andado a pensar que tenho de visitar o Johan.
Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não é o efeito de uma primeira paixão, mas a sua causa. A paixão é apenas um refúgio, no qual estar com o outro significa solidão duplicada.
Quase sempre a primeira paixão pouco perdura e deixa um ressaibo amargo. Trata-se de um logro, de uma decepção. Quando ela passa não compreendemos como fomos capazes de tudo aquilo, nem sabemos a quem culpar. Isso acontece porque as personagens desse drama em geral encontram-se por acaso: eventuais companheiros de uma fuga enlouquecida. Apaziguados, não se reconhecem mais. Percebem que são diferentes, porque já não se dão conta do que têm em comum.

Robert Musil - O Jovem Torless

domingo, dezembro 03, 2006

song to the siren

On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.

And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."

Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?

Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?

Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."


green leaves






Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente!
Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

passagem dos elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore



Mário Cesariny

radiograma

Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar


Mário Cesariny

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar



Mário Cesariny

lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco



Mário Cesariny

sábado, dezembro 02, 2006

Entre os factos externos e o seu eu, sim, entre as suas próprias emoções e o seu eu mais remoto, que ansiava por entendê-las, haveria sempre uma linha divisória que, como um horizonte, recuava ante o seu anseio.
Robert Musil - O Jovem Torless

intelectual cats



sexta-feira, dezembro 01, 2006

Riverman

Betty came by on her way
Said she had a word to say
About things today
And fallen leaves

Said she hadn’t heard the news
Hadn’t had the time to choose
A way to lose
But she believes

Gonna see the river man
Gonna tell him all I can
About the plan
For lilac time

If he tells me all he knows
About the way his river flows
And all night shows
In summertime

Betty said she prayed today
For the sky to blow away
Or maybe stay
She wasn’t sure

For when she thought of summer rain
Calling for her mind again
She lost the pain
And stayed for more

Gonna to see the river man
Gonna to tell him all I can
About the ban
On feeling free

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don’t suppose
It’s meant for me

Oh, how they come and go


when the day is done

When the day is done
Down to earth then sinks the sun
Along with everything that was lost and won
When the day is done

When the day is done
Hope so much your race will be all run
Then you find you jumped the gun
Have to go back where you begun
When the day is done

When the night is cold
Some get by but some get old
Just to show life’s not made of gold
When the night is cold

When the bird has flown
Got no-one to call your own
Got no place to call your home
When the bird has flown

When the game’s been fought
You speed the ball across the court
Lost much sooner than you would have thought
Now the game’s been fought

When the party’s through
Seems so very sad for you
Didn’t do the things you meant to do
Now there’s no time to start anew
Now the party’s through

When the day is done
Down to earth then sinks the sun
Along with everything that was lost and won
When the day is done

quinta-feira, novembro 30, 2006

O que é que na verdade faz algum sentido? De que nos adianta? Quero dizer, o que é que adianta para nós, entende? À noite, sabemos que vivemos mais um dia, que aprendemos isto e aquilo, cumprimos o horário, mas permanecemos vazios, quero dizer, vazios por dentro, e continuamos com uma fome interior...
(...)
- Preparar? Exercitar-se? Para quê? Você sabe algo determinado? Talvez espere algo, mas também não tem nenhuma certeza do que seja. A coisa é assim. Uma eterna espera de algo do qual não sabemos senão isto: que estamos à sua espera...É tão aborrecido...

Robert Musil - O Jovem Torless
Há sempre um momento em que já não sabemos mais se estamos a mentir, ou se o que inventamos é mais verdadeiro que nós próprios.

Robert Musil - O Jovem Torless

I'm back

Pois é, mais de um mês sem net em casa e o blog deixado às moscas. Agora, com modem novo e ligação mais rápida (dizem eles), estou de volta à blogocoisa.

quarta-feira, outubro 11, 2006

ó balhamedeus

esta menina passou-me a batatinha quente de contar aqui 6 coisas sobre mim,

  1. (logo eu que tenho a mania) de pouco ou nada falar a meu respeito
  2. sou muito desarrumada, mas graças ao computador, diminuiram as pilhas de papel na minha secretária
  3. gosto de dias grandes, quentes e luminosos (e está quase a chegar a grande neura da mudança da hora)
  4. odeio as convencionadas épocas festivas, sendo o natal o expoente máximo dessa antipatia
  5. gosto de um certo e determinado grupo de pessoas que só estão bem a fazer pouco
  6. que mais é que eu hei-de dizer? ah, é verdade: gosto de gatos (aposto que ainda não sabiam esta... >:D )

passo a palavra à spot, à ana e à beatriz



uff, já me safei. agora amanhem-se. a culpa não foi minha.

terça-feira, outubro 10, 2006

slow motion

Guy Gagnon

domingo, outubro 01, 2006

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Alexandre O'Neill

segunda-feira, setembro 25, 2006

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio
de um cais frio. Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.


Amalia Bautista

sexta-feira, julho 28, 2006

Ter esperança é quase tão difícil como o resto. Mas estamos mais habituados a ter esperança e a ter medo do que a estar no meio daquilo que esperamos ou tememos. Aprendi: que não há nenhuma verdadeira saída para a vida. Podemos quando muito adiar a decisão, com habilidade e astúcia. Mas não há saída. É um sistema totalmente fechado, e no fim existe só a morte. E a morte, claro, não é uma saída. Sou um corpo. Apenas um corpo. Tudo o que tem de ser feito, que pode ser feito, tem de ser feito dentro deste corpo.
Lars Gustafsson
obrigada, N. ;)

domingo, julho 23, 2006

walking on a thin rope

Hyeyoung Kim

quarta-feira, julho 05, 2006

before my death I hope to obtain my life

what can we do?


at their best, there is gentleness in Humanity.
some understanding and, at times, acts of
courage
but all in all it is a mass, a glob that doesn't
have too much.
it is like a large animal deep in sleep and
almost nothing can awaken it.
when activated it's best at brutality,
selfishness, unjust judgments, murder.

what can we do with it, this Humanity?

nothing.

avoid the thing as much as possible.
treat it as you would anything poisonous, vicious
and mindless.
but be careful. it has enacted laws to protect
itself from you.
it can kill you without cause.
and to escape it you must be subtle.
few escape.

it's up to you to figure a plan.

I have met nobody who has escaped.

I have met some of the great and
famous but they have not escaped
for they are only great and famous within
Humanity.

I have not escaped
but I have not failed in trying again and
again.

before my death I hope to obtain my
life.



Charles Bukowski

domingo, julho 02, 2006

Deves andar sempre bêbado. É a única solução.

Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa

sobre os ombros e te verga ao encontro da terra,

deves embriagar-te sem cessar.

Com vinho, com poesia ou com a virtude. Escolhe tu,

mas embriaga-te.

E se alguma vez, nos degraus de um palácio,

sobre as ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto,

tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento,

à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta,

a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são: «São horas

de te embriagares. Para não seres como os escravos martirizados

do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso. Com vinho,

com Poesia, ou com a virtude.



Charles Baudelaire

domingo, junho 25, 2006

The Silent Spheres



O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.

André Malraux - A Condição Humana

segunda-feira, junho 19, 2006

Peggy Washburn

E imagine quem puder minha pessoa de criança frágil, caixilhos de solidão acolchoada contra micróbios e correntes de ar.

Nuno Bragança - A noite e o Riso

We're on a road to nowhere

Gary Irving

sábado, junho 17, 2006

As cidades e os rios # 2

Eugène Atget

quinta-feira, junho 15, 2006

Assim vêm pessoas até nós, dando sinal de coisas importantes. Logo passam; mas quem tem olhos e ouvidos recebe prendas inestimáveis.
Nuno Bragança - A Noite e o Riso

Alfred Stieglitz

terça-feira, junho 13, 2006

current mood


Kurt Halsey

sábado, junho 10, 2006

a chuva de verão chove-me na vida

Samuel Beckett

no blog da lebre
Edward Hopper
Sun in an empty room

Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente



Jo Whaley / Ferreira Gullar


sexta-feira, junho 09, 2006

Estou viciada nisto.

quarta-feira, junho 07, 2006

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou
,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector

terça-feira, junho 06, 2006


Andrew Wyeth

terça-feira, maio 30, 2006

Pouco mais há a dizer


pouco mais há a dizer. caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo, recomeço a escrever. estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.


Al Berto

domingo, maio 28, 2006

life is an illusion

sábado, maio 27, 2006

revisiting past

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos

terça-feira, maio 23, 2006

Misha Gordin

Havia um anonimato satisfatório nas multidões, uma ausência de intrusão. Aqui ninguém estava interessado nos seus mistérios. Toda a gente estava aqui para se perder de si própria. Tal era a magia ineloquente das massas (...)
Salman Rushdie

domingo, maio 21, 2006

Alice



Abelardo Morell

sábado, maio 20, 2006

dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a àgua, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.

Herberto Hélder


primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti,como gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.

Nuno Júdice