quarta-feira, outubro 11, 2006

ó balhamedeus

esta menina passou-me a batatinha quente de contar aqui 6 coisas sobre mim,

  1. (logo eu que tenho a mania) de pouco ou nada falar a meu respeito
  2. sou muito desarrumada, mas graças ao computador, diminuiram as pilhas de papel na minha secretária
  3. gosto de dias grandes, quentes e luminosos (e está quase a chegar a grande neura da mudança da hora)
  4. odeio as convencionadas épocas festivas, sendo o natal o expoente máximo dessa antipatia
  5. gosto de um certo e determinado grupo de pessoas que só estão bem a fazer pouco
  6. que mais é que eu hei-de dizer? ah, é verdade: gosto de gatos (aposto que ainda não sabiam esta... >:D )

passo a palavra à spot, à ana e à beatriz



uff, já me safei. agora amanhem-se. a culpa não foi minha.

terça-feira, outubro 10, 2006

slow motion

Guy Gagnon

domingo, outubro 01, 2006

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Alexandre O'Neill

segunda-feira, setembro 25, 2006

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio
de um cais frio. Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.


Amalia Bautista

sexta-feira, julho 28, 2006

Ter esperança é quase tão difícil como o resto. Mas estamos mais habituados a ter esperança e a ter medo do que a estar no meio daquilo que esperamos ou tememos. Aprendi: que não há nenhuma verdadeira saída para a vida. Podemos quando muito adiar a decisão, com habilidade e astúcia. Mas não há saída. É um sistema totalmente fechado, e no fim existe só a morte. E a morte, claro, não é uma saída. Sou um corpo. Apenas um corpo. Tudo o que tem de ser feito, que pode ser feito, tem de ser feito dentro deste corpo.
Lars Gustafsson
obrigada, N. ;)

domingo, julho 23, 2006

walking on a thin rope

Hyeyoung Kim

quarta-feira, julho 05, 2006

before my death I hope to obtain my life

what can we do?


at their best, there is gentleness in Humanity.
some understanding and, at times, acts of
courage
but all in all it is a mass, a glob that doesn't
have too much.
it is like a large animal deep in sleep and
almost nothing can awaken it.
when activated it's best at brutality,
selfishness, unjust judgments, murder.

what can we do with it, this Humanity?

nothing.

avoid the thing as much as possible.
treat it as you would anything poisonous, vicious
and mindless.
but be careful. it has enacted laws to protect
itself from you.
it can kill you without cause.
and to escape it you must be subtle.
few escape.

it's up to you to figure a plan.

I have met nobody who has escaped.

I have met some of the great and
famous but they have not escaped
for they are only great and famous within
Humanity.

I have not escaped
but I have not failed in trying again and
again.

before my death I hope to obtain my
life.



Charles Bukowski

domingo, julho 02, 2006

Deves andar sempre bêbado. É a única solução.

Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa

sobre os ombros e te verga ao encontro da terra,

deves embriagar-te sem cessar.

Com vinho, com poesia ou com a virtude. Escolhe tu,

mas embriaga-te.

E se alguma vez, nos degraus de um palácio,

sobre as ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto,

tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento,

à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta,

a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são: «São horas

de te embriagares. Para não seres como os escravos martirizados

do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso. Com vinho,

com Poesia, ou com a virtude.



Charles Baudelaire

domingo, junho 25, 2006

The Silent Spheres



O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.

André Malraux - A Condição Humana

segunda-feira, junho 19, 2006

Peggy Washburn

E imagine quem puder minha pessoa de criança frágil, caixilhos de solidão acolchoada contra micróbios e correntes de ar.

Nuno Bragança - A noite e o Riso

We're on a road to nowhere

Gary Irving

sábado, junho 17, 2006

As cidades e os rios # 2

Eugène Atget

quinta-feira, junho 15, 2006

Assim vêm pessoas até nós, dando sinal de coisas importantes. Logo passam; mas quem tem olhos e ouvidos recebe prendas inestimáveis.
Nuno Bragança - A Noite e o Riso

Alfred Stieglitz

terça-feira, junho 13, 2006

current mood


Kurt Halsey

sábado, junho 10, 2006

a chuva de verão chove-me na vida

Samuel Beckett

no blog da lebre
Edward Hopper
Sun in an empty room

Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente



Jo Whaley / Ferreira Gullar


sexta-feira, junho 09, 2006

Estou viciada nisto.

quarta-feira, junho 07, 2006

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou
,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector

terça-feira, junho 06, 2006


Andrew Wyeth

terça-feira, maio 30, 2006

Pouco mais há a dizer


pouco mais há a dizer. caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo, recomeço a escrever. estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.


Al Berto

domingo, maio 28, 2006

life is an illusion

sábado, maio 27, 2006

revisiting past

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos

terça-feira, maio 23, 2006

Misha Gordin

Havia um anonimato satisfatório nas multidões, uma ausência de intrusão. Aqui ninguém estava interessado nos seus mistérios. Toda a gente estava aqui para se perder de si própria. Tal era a magia ineloquente das massas (...)
Salman Rushdie

domingo, maio 21, 2006

Alice



Abelardo Morell

sábado, maio 20, 2006

dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a àgua, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.

Herberto Hélder


primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti,como gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.

Nuno Júdice
Douglas Foulke
Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto



António Ramos Rosa



Um compasso de espera
tão longo e musical
por estrelas destas a tocar-me o rosto

E aprender a aceitá-las,
e eu ser um céu imenso onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,
um pequeno silêncio
de folhas,
e poeiras, e cometas.

Na desordem mais cósmica
das coisas,
organizar inteiro:
o coração.

Porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
do nada mais atónito.

Terá valido tudo
a desordem do Sol,
terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul.

Porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas

transportadas em luz
nas tuas mãos


Ana Luísa Amaral

Tim Cook

domingo, maio 14, 2006



sábado, maio 13, 2006

This is your life and it's ending one minute at a time.



You're not
You're not your job.You're not how much money you have in the bank.You're not the car you drive.You're not the contents of your wallet.You're not your fucking khakis. You're the all-singing, all-dancing crap of the world. You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You're the same decaying organic matter as everything else.



Free
Its not until you lose everything that you are free to do anything.


Depression
We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives.



Pissed off
We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.


Tyler Durden says
People do it everyday, they talk to themselves... they see themselves as they'd like to be










Fight Club

quarta-feira, maio 10, 2006

desassossegos

O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução.


no blog do citador
(...) Agora que passara os quarenta anos, já não viria a ser pianista, já não aprenderia japonês, disto tinha a certeza, e essa certeza causava-lhe simultaneamente tristeza, como se a vida começasse finalmente a mostrar as suas limitações, tornando assim visível a morte: não era verdade que tudo era possível. Talvez tudo tivesse sido possível, mas agora já não era assim.

Rituais
Cees Nooteboom

segunda-feira, maio 08, 2006

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis
Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.


Daniel Faria
Sigmund Freud

Acknowledge yourself

(or whatever)
Philip Roth

domingo, maio 07, 2006

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, maio 04, 2006

Miquel Barceló


quarta-feira, maio 03, 2006

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.


Natália Correia

don't like the look of those clouds

segunda-feira, maio 01, 2006

six feet under



às 2ªs, a melhor série da TV, na dois.

eu vim de longe...


1º de MAIO




(...) A seguir pôs-se a falar do Primeiro de Maio. Aquele. O que teve lugar apenas uma semana depois do 25 de Abril. Aquele em que a cidade toda enlouqueceu e ainda estou para perceber como é que no fim não caímos ao chão para nunca mais nos levantarmos, fulminados por uma descarga de energia colectiva a que não é suposto os seres humanos sobreviverem. Depois pede à tua mãe que te conte. Eu não sou capaz. A tua mãe disse que dessa vez andara pelas ruas durante três dias. Nunca se lembrara de telefonar para casa. Não conseguia lembrar-se de grande coisa. Ou antes, corrigiu logo a seguir. Lembro-me muito bem de uma coisa. (...) Lembro-me de estar parada no passeio a ver desfilar a multidão, disse a tua mãe. E, de repente, pensei que estava a assistir ao Domingo de Ramos. (...) Pensei, disse a tua mãe. Pensei que estávamos a coroar um rei que íamos crucificar poucos dias mais tarde.

Clara Pinto Correia - Domingo de Ramos

domingo, abril 30, 2006

retrato de família

miss daisy - 200 g
tess - 180 g
che - 150 g
ontem recolhi uma família de gatinhos
(só falta fotografar a mãe gata)