domingo, abril 16, 2006


sexta-feira, abril 14, 2006

ao espelho

(...)
Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar. (...)

José Cardoso Pires

quinta-feira, abril 13, 2006

A Religião do Girassol

Aquele que acredita no girassol não
meditará dentro de casa.
Todos os pensamentos de amor
serão os seus pensamentos.

René Char






Dennis Stock




Que humilhação!
Apesar de ser uma simples flor
Roda e ao rodar
Protege do sol as suas raízes.
Enquanto eu não me resta senão
Procurar as minhas
Sob um sol abrasador.

Li Bai


mais poemas da antologia organizada por Jorge Sousa Braga, n' o lugar das palavras

domingo, abril 09, 2006

To look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is. At last to know it, to love it, for what it is, and then, to put it away.

The Hours


Melanie McWhorther

The past is not dead. In fact, it's not even past.

William Faulkner


This Be The Verse


They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.


But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.


Philip Larkin

loneliness


...Sometimes I think people don't understand how
lonely it is to be a kid, like you don't matter...


there's only one alice, you can't miss her!

sábado, abril 08, 2006

O Engano da Bondade


Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra.

Pablo Neruda - Nasci para Nascer

quinta-feira, abril 06, 2006

assim vai o mundo, mafalda...

(blog mantido para notícias da actualidade que não têm cabimento neste espaço mais íntimo)

quarta-feira, abril 05, 2006

Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo, amar a areia
arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias
com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos,
ébrios em redor do pólen.

Fiama Hasse Pais Brandão

Botella al mar

Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.


Mario Benedetti

aqui

(...)
Regresso, pois, à primeira linha, à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, abril 04, 2006

cat stuff


verdes estão os campos

à minha volta, os campos enchem-se de campaínhas, azedas, tremoço, giesta, malmequeres e papoilas, muitas papoilas.


Harry Gruyaert

Dennis Stock

Magnum Photos - Say it with Flowers

Demónios interiores


Hieronymous Bosch

Sentei à minha mesa
os meus demónios interiores
falei-lhes com franqueza
dos meus piores temores

tratei-os com carinho
pus jarra de flores
abri o melhor vinho
trouxe amêndoas e licores

chamei-os pelo nome
quebrei a etiqueta
matei-lhes a sede e a fome
dei-lhes cabo da dieta

conheci bem cada um
pus de lado toda a farsa
abri a minha alma
como se fosse um comparsa

E no fim, já bem bebidos
demos abraços fraternos
saíram de mansinho
aos primeiros alvores
de copos bem erguidos
brindámos aos infernos
fizeram-se ao caminho
sem mágoas nem rancores

Adeus, foi um prazer!
disseram a cantar
mantém a mesa posta
porque havemos de voltar

Jorge Palma / Carlos Tê

repescado daqui




a room with a view

Carole Maurel

ouch...

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca


Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo


Mia Couto

sábado, abril 01, 2006

darkness and light

Mark Citret
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, março 31, 2006

Os cinco

Depois de ter andado a ler aqui sobre As Aventuras dos Cinco, também eu fui atacada por um momento de nostalgia. A Ana disse-me que encontrava tudo no site misterio juvenil e tinha razão. Só que as capas dos meus livros são mais antigas que as dos dela. E mais bonitas. Este foi o meu primeiro livro 'a sério', depois da banda desenhada. Foi-me oferecido pela minha mãe e os seguintes pelo meu avô materno. Até acabar a colecção, nunca mais descansei.
Seguiu-se a Colecção Mistério, que no site é chamada 'Os cinco descobridores e o seu cão:
Kurt Halsey

A cidade


A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.


José Carlos Ary dos Santos


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Gerhard Richter

quinta-feira, março 30, 2006

de ti

Queria de ti um país de bondade e de bruma
Queria de ti o mar de uma rosa de espuma

Mário Cesariny

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
Com os livros atrás a arder para toda a eternidade…
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
Dentro do fogo:
-temos um talento doloroso e obscuro.
Construimos um lugar de silêncio.
De paixão

Herberto Hélder

as cidades e os rios


Praga


Florença

Michael Kenna

terça-feira, março 28, 2006

With my eyes wide open, I'm dreaming




Vírginia Astley
From Gardens Where We Feel Secure

segunda-feira, março 27, 2006

The aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little friction of distress.
they dress well, sleep well.
they are contented with
their family life.
they are undisturbed
and often feel very good.
and when they die
it is an easy death,

usually in their sleep.

you may not believe it
but such people do
exist.


Charles Bukowski


republicado daqui

é primavera

(...)
É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.

Herberto Hélder


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No teu amor por mim há uma rua que começa.
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas.
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera.
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados.
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem.
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera.

Ruy Belo

As cidades e os mortos

Não há cidade mais propensa que Eusápia a gozar a vida e a fugir às ansiedades. E para que o salto da vida para a morte seja menos brusco, os habitantes construíram debaixo de terra uma cópia idêntica da sua cidade. Os cadáveres, secos de maneira que fique o esqueleto revestido de pele amarela, são levados lá para baixo para continuarem as ocupações de antes. Destas, são os momentos despreocupados que têm a preferência: a maior parte deles, colocam-nos sentados à volta de mesas postas, ou em posição de dança ou no gesto de tocar trompas. Mas também todos os comércios e ofícios da Eusápia dos vivos continuam ao trabalho debaixo de terra, ou pelo menos aqueles que os vivos realizaram com mais satisfação que enfado: o relojoeiro, no meio de todos os relógios parados da sua oficina, encosta uma orelha ressequida a um relógio de pêndulo sem corda; um barbeiro ensaboa com o pincel seco o osso das bochechas de um actor enquanto este estuda o papel fixando o guião com as órbitas vazias; uma rapariga de caveira sorridente ordenha uma carcaça de bezerra. É claro que são os vivos que pedem para depois de mortos um destino diferente do que lhes calhou: a necrópole está cheia de caçadores de leões, meios-sopranos, banqueiros, violinistas, duquesas, cortesãs, generais, mais dos que contou a cidade viva. A incumbência de levar lá para baixo os mortos e colocá-los no lugar desejado está outorgada a uma confraria de encapuçados. Mais ninguém tem acesso à Eusápia dos mortos e tudo o que se sabe lá de baixo sabe-se por eles. Diz-se que a própria confraria existe entre os mortos e que não deixa de lhes dar uma ajuda; os encapuçados depois de mortos prosseguirão também o mesmo ofício na outra Eusápia; fazem crer que alguns deles já estão mortos e continuam a andar para cima e para baixo. É evidente que é muito ampla a autoridade desta congregação sobre a Eusápia dos vivos. Dizem que sempre que descem encontram qualquer coisa mudada na Eusápia de baixo; os mortos trazem inovações à sua cidade; não muitas, mas certamente fruto de reflexão ponderada, e não de caprichos passageiros. De um ano para o outro, dizem, a Eusápia dos mortos não se reconhece. E os vivos, para não lhes ficarem atrás, querem fazer também tudo o que os encapuçados contam das novidades dos mortos. Assim a Eusápia dos vivos pôs-se a copiar a sua cópia subterrânea. Dizem que isto não é só agora que acontece: na realidade teriam sido os mortos a construir a Eusápia de cima à semelhança da sua cidade. Dizem que nas duas cidades gémeas já não há maneira de saber quais são os vivos e quais os mortos.
Italo Calvino
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Tim Burton - The Corpse Bride

Edward Steichen

Miss Sawyer

no regrets

What does it mean to regret when you have no choice? It's what you can bear. And there it is... It was death. I chose life.
Michael Cunningham - The Hours

Constantin Brancusi

Muse

Kiss

luck

The man who said "I'd rather be lucky than good" saw deeply into life. People are often afraid to realize how much of an impact luck plays. There are moments in a tennis match where the ball hits the top of the net, and for a split second, remains in mid-air. With a litte luck, the ball goes over, and you win. Or maybe it doesn't, and you lose.

Woody Allen - Match Point

domingo, março 26, 2006

tempestade de areia - II

E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami
Harry Zernike

sábado, março 25, 2006

vidinha difícil...tss,tss

photographs from the edge of the sea






Brad Cole
Ainda não percebi por que não consegui posicionar-me melhor neste caminho escorregadio a que chamam vida, ou por que razão para alguns é uma travessia em linha recta, enquanto outros vagueiam, sem fim, na escuridão dos becos sem saída.

Einar Már Gudmundsson, Anjos do Universo

tempestade de areia

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta à outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

Haruki Murakami - Kafka à Beira-Mar

wild at heart

I like darkness and confusion and absurdity, but I like to know that there could be a little door that you could go out into a safe life area of happiness.
David Lynch

running from one falling star to another

I like too many things and get all confused and hung-up running from one falling star to another till I drop. This is the night, what it does to you. I had nothing to offer anybody except my own confusion.
Jack Kerouac

quinta-feira, março 23, 2006

minha irmã puro sangue
nadas nas águas nocturnas do mar
todos riem eu finjo que não temo
que não contenho a raiva a alegria
a dor o medo o desejo da tua pele
que não te bebo cada gesto
nem é por ciúme que te cubro
ou por loucura que te seco o sal

a poesia da orlando, no memoria perturbada.

vale a pena visitar.

Gerhard Richter

garfield mood

quinta-feira, março 16, 2006

Há no meu ombro lugar para o teu cansaço
e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.

ruy belo

crepúsculo

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.

Bernardo Soares. Livro do Desassossego

quarta-feira, março 08, 2006

por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes por vezes
ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

sábado, março 04, 2006

burn, burn, burn

"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars..."

Jack Kerouac

sexta-feira, março 03, 2006

a meu favor

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis: a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


Manuel António Pina


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A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O'Neill