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terça-feira, março 02, 2010

meia-noite todo o dia

Não voltarei a ser jovem


Que a vida é a sério
só mais tarde o começamos a entender
— como todos os jovens, eu vim
para levar a vida em frente.

Queria deixar marca
e sair entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Mas passou o tempo
e a desagradável verdade assoma:
envelhecer, morrer,
são o único argumento da peça.


Jaime Gil de Biedma



"roubado" ao manuel a. domingos

quarta-feira, dezembro 16, 2009

sublinhados



A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal-amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.


Carlos Ruiz Záfon in O Jogo do Anjo



sábado, abril 18, 2009

o vazio, o nada


Não há inferno nem paraíso, não há Deus, ninguém te observa, ninguém te vigia, ninguém quer castigar-te ou perdoar-te! Depois da morte cairás no fundo do nada, como no fundo do mar escuro, donde já não poderás emergir. Vais afogar-te no vazio silencioso, um vazio donde nunca mais se volta. O teu corpo vai apodrecer na terra fria, a terra vai encher o teu crânio e a tua boca como vasos de flores, a carne vai separar-se dos ossos, vai esborar-se como estrume seco, o teu esqueleto vai esmigalhar-se como carvão, vai desfazer-se em pó, entrarás nesse pântano repugnante onde o teu corpo se decomporá completamente, até ao último cabelo, e nem sequer tens o direito de esperar um regresso, vais desaparecer sozinha no lodo glacial e implacável do nada...


A casa do silêncio - Orhan Pamuk


sexta-feira, março 13, 2009

sublinhados


a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos.

a viagem do elefante - josé saramago


terça-feira, março 10, 2009

marcha contra o optimismo


1.
Leio numa caixa de comentários de um blogue amigo: «As pedras são degraus de outros caminhos...». Nunca fui muito com este género de filosofia. Pedras são pedras em qualquer parte. Não acredito que exista alguém que goste de caminhar por um caminho cheio de pedras. Podem ser muito optimistas e mais tarde pensar que são «degraus de outros caminhos...». Mas enquanto percorrem o caminho duvido que não pensem: «Ora aqui está uma boa merda!».

2.
Não foi necessário ler Cândido de Voltaire para saber que sou pessimista. O optimismo nunca me atraiu. Sempre o considerei sem sal. E vendo bem as coisas é. Por exemplo: a chamada grande literatura é, toda ela, pessimista. Onde é que existe optimismo nos livros de Kafka, Dostoievski, Céline, Mishima, Hemingway, Faulkner, Cossery? Não me lembro. O mundo é irremediavelmente absurdo e está irremediavelmente condenado. E a esperança? A esperança é outra conversa. Talvez um dia fale aqui sobre ela. Mas não associo esperança a optimismo. Um pessimista pode ter esperança. É possível. Só que a esperança não o cega. Por outras palavras: um pessimista é alguém que tem os olhos bem abertos.

3.
Os pessimistas são sempre mais criticados do que os optimistas. Se alguém chama a atenção para possíveis obstáculos na vida, há logo alguém que exclama: «Ai! És tão pessimista!». Mas o contrário não se verifica. Ninguém diz: «Ai! És tão optimista!». Ou: «Lá vens tu com o teu optimismo!». Os pessimistas são, muitas vezes, discriminados. São acusados de ver obstáculos em tudo, quando na realidade isso (o facto de ver obstáculos) só traz vantagens: os pessimistas são mais rápidos a desviarem-se deles. Os optimistas não. Tropeçam, caem, lamentam-se, depois vão ler Paulo Coelho e esperam, com isso, aprender a "caminhar".


junto-me ao manuel a. domingos na sua marcha contra o optimismo.


domingo, fevereiro 15, 2009

marx


"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

lido aqui

quarta-feira, janeiro 14, 2009

sábado, dezembro 27, 2008

saudades da infância


bill watterson

terça-feira, dezembro 23, 2008

muttley's corner # 5





por vezes, as melhores estratégias de marketing devem-se a rasgos de inspiração que surgem de onde menos se espera. o homem pode ter revelado não ter grande pontaria, mas a empresa beneficiária deveria não só empenhar-se a sério na sua defesa, como reconhecer-lhe o justo valor, quando chegar a hora de contabilizar os lucros.

sábado, novembro 29, 2008

ler os outros / vida breve

No meu recanto microscópico perdido entre as esferas medito na volubilidade dos homens. Eis um cenário digno de Montaigne. Uma pulga contempla o infinito e lamenta o pêlo indigesto do cão. Penso que toda a filosofia é um vampirismo derrotado. Depois penso que é irónico procurarmos a paz e ficarmos tão aflitos quando a encontramos. Um cemitério é como uma camarata, só que não se dorme mal. Tem flores de plástico e calotas de mármore em que à noite se derrama o brilho dos fogos-fátuos. Não há qualquer uso para a consciência da mortalidade.

a consciência da mortalidade - luis m jorge



quinta-feira, julho 31, 2008

that's it

E depois, que importa que tenha levado uma vida estúpida? Qualquer pessoa com alguma inteligência sabe que está a levar uma vida estúpida mesmo enquanto está a levá-la. Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida.


Teatro de Sabbath - Philip Roth

segunda-feira, junho 16, 2008

reencontro com o passado

a infância irrompeu-me na garganta em vermelhidão e pus. O corpo fraqueja, trai e cede, acusa sovas antigas que deixam doridos os músculos e as articulações a estalar.

We may be through with the past, but the past ain't through with us

sábado, junho 07, 2008

em cadeia

we're all pretty bizarre. some of us are just better at hiding it, that's all.

roubado ao assobio, que roubou da espiral medula

bom demais para resistir à tentação de o trazer para aqui.

segunda-feira, maio 26, 2008

o caminho

(...) O caminho da história não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajectória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar. (...)
roubado daqui (e a abrir o apetite para o livro)

sexta-feira, maio 09, 2008

da natureza do fanatismo

São 7 páginas da autoria do escritor israelita Amos Oz. Um texto publicado integralmente no Bitaites, a evitar somente por quem não goste de ler.
via womenage a trois

quarta-feira, maio 07, 2008

ainda sobre a democracia e a ignorância dos jovens

Não era muito jovem o nosso Presidente e orgulhava-se de não ler jornais. Não ia a debates, tratava a contestação à bastonada e quem lhe fazia frente era visto como força de bloqueio. Foi por isso com algum espanto que ouvi o seu lamento pela suposta descrença dos jovens na democracia. Que descanse Cavaco. Até ele teve de esperar pela idade madura para a compreender plenamente.
Os jovens sabem menos do que os seus pais sobre o 25 de Abril? É natural. Não o viveram. Quanto à democracia, o estudo encomendado pela Presidência não nos devia perturbar. Os jovens não se excitam com o voto. E quem os pode censurar? Não são os próprios governantes a repetir até à náusea que tudo é inevitável? Por causa da União Europeia, por causa do défice, por causa da globalização dos mercados, por causa do Leste e da China, por causa da competitividade… Se quem é eleito garante que não há alternativas como pode querer que os jovens eleitores percebam o valor da escolha? Que se identifiquem com a esquerda ou com a direita quando isso é irrelevante na hora de governar? São práticos os nossos jovens; as distinções ideológicas só valem alguma coisa se tiverem tradução prática. E são lúcidos: o voto é o mínimo dos mínimos em qualquer democracia. Mas não lhes chega. Parece que assinam petições e boicotam produtos. Bom sinal. Acreditam que a democracia é uma coisa que se usa todos os dias. Se assim for, perceberam, apesar de tudo, o essencial do 25 de Abril.
Daniel Oliveira