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quarta-feira, dezembro 16, 2009

sublinhados



A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal-amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.


Carlos Ruiz Záfon in O Jogo do Anjo



quarta-feira, setembro 02, 2009

current mood



brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer.


um deus passeando pela brisa da tarde - mário de carvalho

roubada à franksy, uma citação muito a propósito, de um livro altamente recomendável.

sexta-feira, março 13, 2009

sublinhados


a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos.

a viagem do elefante - josé saramago


domingo, fevereiro 15, 2009

marx


"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

lido aqui

sábado, agosto 16, 2008

o sonho dos heróis

(...)

O último a entrar foi Gauna. Serafín Taboada estendeu-lhe uma mão muito limpa e muito seca. Era um homem magro, baixo, de farta cabeleira, de testa alta, ossuda, olhos encovados, de nariz vermelhusco proeminente. No quarto havia muitos livros, um harmónio, uma mesa, duas cadeiras; em cima da mesa, uma incontrolável desordem de livros e de papéis, um cinzeiro com muitas beatas, uma pedra cinzenta que servia de pisa-papéis. Havia duas gravuras - as efígies de Spencer e de Confúcio - nas paredes. Taboada fez sinal a Gauna para se sentar; ofereceu-lhe um cigarro (que Gauna não aceitou) e, depois de acender outro, perguntou:
- Em que posso servi-lo?
Gauna pensou um instante. Depois respondeu:
- Em nada. Vim só acompanhar os rapazes.
Taboada deitou fora o cigarro que acendera e acendeu outro.
- Lamento - disse, como se fosse levantar-se e pôr fim à entrevista; continuou sentado e, enigmaticamente, acrescentou: - Lamento, porque tinha uma coisa para lhe dizer. Fica para outra vez.
- Quem sabe.
- Não desespere. O futuro é um mundo em que há de tudo.
- Como na loja da esquina? - comentou Gauna. - É o que reza a propaganda, mas, creia-me, quando você pede alguma coisa, respondem-lhe que já não há.
Gauna pensou que Taboada era talvez mais falador do que astuto ou inteligente. Taboada continuou:
- No futuro corre, como um rio, o nosso destino, tal como o desenhamos aqui em baixo. No futuro está tudo, porque tudo é possível. Nele, você morreu na semana passada e nele vive para sempre. Nele, você transformou-se num homem razoável e também se transformou em Valerga.
- Não permito que troce do doutor.
- Não estou a troçar - respondeu brevemente Taboada - mas gostaria de lhe perguntar uma coisa, se não levar a mal: doutor em quê?
- Você há-de sabê-lo - respondeu Gauna, acto contínuo - dado que é bruxo.
Taboada sorriu.
- Está bem, rapaz - disse; e em seguida continuou, explicando: - se no futuro não encontrarmos o que procuramos, será porque não sabemos procurar. Podemos sempre esperar alguma coisa.
- Eu não espero muito - declarou Gauna. - E também não acredito em bruxarias.
- Talvez tenha razão respondeu Taboada com tristeza. - Mas seria preciso saber a que é que você chama bruxaria. Falemos, por exemplo, da transmissão de pensamento. Não há grande mérito, asseguro-lhe, em descobrir o que pensa um jovem enfastiado e assustadiço.

sexta-feira, maio 30, 2008

most of us need the eggs

I thought of that old joke, you know, the, this, this guy goes to a psychiatrist and says, 'Doc, uh, my brother's crazy, he thinks he's a chicken,' and uh, the doctor says, 'well why don't you turn him in?' And the guy says, 'I would, but I need the eggs.' Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships. You know, they're totally irrational and crazy and absurd and, but uh, I guess we keep going through it...because...most of us need the eggs.


segunda-feira, maio 26, 2008

o caminho

(...) O caminho da história não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajectória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar. (...)
roubado daqui (e a abrir o apetite para o livro)

terça-feira, fevereiro 26, 2008

sublinhados de leitura - jerusalém # 3

Com dezoito anos Mylia sabia já como humilhar os homens. Conhecia o intervalo existente entre a sedução e a repulsa e sabia manipular esse espaço: reduzindo-o, ampliando-o, fingindo que ele não existe para logo a seguir o exibir de modo ostensivo. Só se humilha quem se aproxima, sabia já por instinto Mylia, e preparava-se assim para exercer essa habilidade perversa - de puxar primeiro para depois empurrar - sobre aquele médico que avançava, logo nos primeiros segundos após a saída dos seus pais, para algo que Mylia receava e desejava: um interrogatório.
- Sou esquizofrénica - disse ela, sem deixar que o médico Theodor Busbeck abrisse a boca. - Li nos livros. Sei bem o que sou. Sou esquizofrénica, louca. Vejo coisas que não existem e sou perigosa. Quer-me curar?

sábado, fevereiro 23, 2008

sublinhados de leituras - jerusalém # 2

(...) Mylia começou a sentir algo no estômago. A princípio esse aviso deixou-a perplexa: não era a sua dor, era outra coisa, mas igualmente forte, mais forte ainda.
Que ridículo, apeteceu-lhe dar uma gargalhada. Estou com fome, murmurou, há horas que não como. Estou aqui de noite, sozinha, mas o meu estômago veio; estou acompanhada.
O motivo de troça foi, logo de imediato, motivo de reflexão e de um certo temor, pouco explicável. Aquela dor no estômago, que manifestava a vontade de comer, essa dor era agora mais forte que a outra: a dor constante da doença, a dor que lhe traria rapidamente aquilo de que todos os grandes e pequenos medos fogem. Como é possível, perguntou Mylia, que a dor provocada pela vontade de comer pão seja mais forte? Porque os médicos já o garantiram: vou morrer da dor que agora não consigo ouvir.
Ela percebeu, claramente, que ali, junto à igreja, estavam em competição duas dores grandes: a dor que a ia matar, a dor má, assim ela a designou, e, do outro lado. a dor boa, a dor do apetite, dor da vontade de comer, dor que significa estar viva, a dor da existência, diria ela, como se o estômago fosse, naquele momento, ainda em plena noite, a evidente manifestação da humanidade, mas também das suas relações ambíguas com os mistérios de que nada se sabe. Estava viva, e essa circunstância doía mais, naquele momento, de um modo objectivo e material, do que a dor de que ia morrer, agora secundária. Como se naquele momento fosse mais importante comer um pão do que ser imortal.
Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

sublinhados de leituras - jerusalem # 1



Mylia morava no primeiro andar do número 77 da Rua Moltke. Sentada numa cadeira desconfortável pensava nas palavras fundamentais da sua vida. Dor, pensou, dor era uma palavra essencial.

Havia sido operada uma vez, depois outra, quatro vezes operada. E agora aquilo. Aquele ruído no centro do corpo, no miolo. Estar doente era uma forma de exercitar a resistência à dor ou a apetência para se aproximar de um deus qualquer. Mylia murmurou: a igreja está fechada de noite.


Quatro da manhã do dia 29 de Maio, e Mylia não consegue dormir. A dor constante vinda do estômago, ou talvez mais de baixo, de onde vem exactamente a dor larga, que não pertence a um ponto? Talvez da parte de baixo do estômago, do ventre. O certo é que eram quatro da manhã e ainda não descansara um minuto. Fechar os olhos quando se tem medo de morrer?

Levantou-se. Mylia era uma mulher magra, mas forte. Não utilizava os dedos para ninharias. (Muitas vezes repetia a frase: não utilizar os dedos para ninharias.) Concentrava-se; sabia que tinha poucos anos de vida; a doença veio: ficamos juntas uns anos, depois ela permanece e eu parto. Pois bem, havia que concentrar a energia que existe nos dias ou que existe num corpo e se dirige aos dias, concentrá-la - à energia - como a um rolo de carne, estar pronta para agir. Dispensando ninharias. Os dedos devem tocar só no que é espesso, no que é fundamental; o urgente tem de coincidir com o essencial, com o que altera de alto a baixo. Como uma pancada forte no momento em que a recebemos: todas as coisas do dia mais insignificante se devem aproximar desse momento em que se recebe uma pancada forte. Mylia olhava-se ao espelho: estou viva e já dei um passo mau. Estar doente é ter dado um passo mau, um passo diabólico, murmurou Mylia. Uma doença que altera de alto a baixo.

Mas nesse dia, às quatro da manhã, decidira sair de casa. De noite a dor desce sobre o corpo de modo distinto. Como um concentrado químico, uma substância que lentamente desliza por um declive mínimo que os olhos mal conseguem perceber. Entre o dia e a noite a superfície não é plana. Um ligeiro declive.

Concentrada a dor nesse sítio largo que não era um ponto - entre o baixo estômago e o ventre - Mylia estava na rua à procura de uma igreja.

Surpreendido, um vagabundo diz que não sabe. Uma igreja?, pergunta.

É de noite, diz o homem, podem roubá-la. Não deve procurar uma igreja, mas sim a polícia para a proteger. Onde quer ir a estas horas? Eu podia roubá-la, senhora.

Mylia sorriu, afastou-se. A dor não a deixava concentrar-se num diálogo.

Não quero a polícia, quero uma igreja. Sabe se estão fechadas a esta hora?


(...)

- A igreja está fechada. Sabe que horas são? Quase cinco da manhã. E não deveria estar aqui. De noite esta zona é má, é uma zona perigosa.

Mylia sentiu vontade de rir em frente ao bom homem. Zona má porque perigosa! Ela que vem com a doença, uma doença que já está dentro e a vai matar num ano, dois, não mais. Ela que está com a morte fechada num sítio de onde já não sai; ela quer precisamente o perigo, aquilo que ainda a excite, que ainda revele nela energia suplementar. Esteve à beira de dizer ao homem, certamente trabalhador na igreja em ofícios menores, esteve tentada a dizer: se esta zona é perigosa, não é uma zona má. Aqui se poderá construir.


Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, outubro 10, 2007


Estamos todos condenados, (...) mas alguns de nós tiraram as vendas dos olhos e viram que não havia nada para ver. É uma espécie de salvação.


Flannery O'Connor

quinta-feira, setembro 27, 2007


A depressão é uma boneca russa, e na última boneca estão a faca, a lâmina de barbear, o veneno, as águas profundas e o salto para um grande abismo.

roubado à menina-limão

sexta-feira, agosto 10, 2007

- O tabaco mata, está aqui escrito. Sabe como se chama a isto? Publicidade enganosa. Um tipo compra um maço de tabaco, para se matar, naturalmente, vai para casa, fuma os cigarros todos e o que acontece? Continua vivo. Com sorte morre vinte ou trinta anos depois. Imagine que você compra um produto para clarear os dentes, e que a publicidade a esse produto assegure isso mesmo, que o tal produto clareia os dentes. Você utiliza o produto e não acontece nada. E só então lhe explicam que para ficar com os dentes de um branco impecável vai ter de usar o produto todos os dias durante vinte ou trinta anos. Estaria certo, isso? Não, porra, não estaria certo. Pois olhe, é a mesma coisa com o tabaco.
José Eduardo Agualusa

terça-feira, agosto 07, 2007


Uma pessoa que não tem inimigos não merece ter amigos.

José Eduardo Agualusa

quarta-feira, julho 25, 2007

(...) o relato de um sonho não transmite a sensação-sonho, aquele emaranhado de absurdos e surpresas, o desespero na angústia de sermos aprisionados, a sensação de sermos presas do inacreditável que é a verdadeira essência dos sonhos...(...)
- ... não, é impossível; é impossível transmitir a sensação-vida de uma época que vivemos - aquilo que constrói as suas verdades, o seu significado - a sua penetrante e subtil essência. É impossível. Vivemos como sonhamos - sós...
Joseph Conrad - O Coração das Trevas

quinta-feira, junho 21, 2007

De vez em quando, clica-se num dos links habituais e dá-se de caras com as palavras que nos cortam a respiração:

O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer

Carson McCullers

terça-feira, maio 22, 2007

Lullaby

O trovejar abafado de diálogo chega através das paredes, depois de um coro de gargalhadas. Depois mais trovejar. A maior parte das faixas de risos na televisão foi gravada no princípio dos anos 50. Hoje em dia, a maior parte das pessoas que se ouve, está morta.
O martelar e martelar e martelar de uma bateria chega até cá abaixo através do tecto. O ritmo muda. Talvez a batida se comprima, mais depressa, ou se espraie, mais devagar, mas não pára.
Subindo através do chão, alguém está a ladrar a letra de uma canção. Estas pessoas que precisam da televisão ou da aparelhagem estereofónica ou do rádio a funcionar o tempo todo. Estas pessoas tão assustadas com o silêncio. Estes são os meus vizinhos. Estes viciados em som. Estes silêncio-fóbicos.
O riso dos mortos vem de todas as paredes.
Hoje em dia, isto é o que passa por lar doce lar.
Este cerco de barulho.

(...)

No meu apartamento, o tecto está a vibrar ao som de uma música rápida qualquer. As paredes estão a murmurar com vozes de pânico. Ou uma antiga múmia egípcia amaldiçoada voltou à vida e está a tentar matar as pessoas da porta ao lado ou estão a ver um filme.
Por baixo do chão, há alguém a gritar, um cão a ladrar, portas a bater com violência, os gritos à leiloeiro de uma canção qualquer.

(...)

Estes viciados em distracção. Estes atenção-fóbicos.
O velho George Orwell percebeu tudo ao contrário.
O Grande Irmão não está a observar. Está a cantar e a dançar. Está a tirar coelhos de uma cartola. O Grande Irmão está ocupado em prender-te a atenção em cada momento que estás acordado. Está a certificar-se de que estás sempre distraído. Está a certificar-se de que estás totalmente absorto.
Está a certificar-se de que a tua imaginação definha. Até ser tão útil como o apêndice. Está a certificar-se de que a tua atenção está sempre preenchida.
E isto de estar a ser alimentado é pior do que estar a ser observado. Com o mundo sempre a encher-te, ninguém tem de se preocupar com o que vai na tua mente. Com a imaginação de toda a gente atrofiada, ninguém será nunca uma ameaça para o mundo.

(...)

Os peritos na cultura da Grécia Antiga dizem que as pessoas naquela altura não viam os pensamentos como pertencendo a elas mesmas. Quando os antigos gregos tinham um pensamento, ocorria-lhes como sendo um deus ou uma deusa a dar uma ordem. Apolo estava a dizer-lhes para serem corajosos. Atena estava a dizer-lhes para se apaixonarem.
Agora as pessoas ouvem um anúncio a batatas fritas de coalhada e correm para comprá-las, mas agora chamam a isto livre-arbítrio.
Chuck Palahniuck - Lullaby

segunda-feira, maio 14, 2007

Apesar de tudo, a vida é agradável, tolera-se. À segunda segue-se a terça e depois a quarta. A mente constrói anéis; a identidade torna-se mais robusta; a dor é absorvida no processo de crescimento. Sempre a abrir-se e a fechar-se, zumbindo cada vez mais, a velocidade e a febre da juventude são aproveitadas para o trabalho, até o ser nada mais parecer do que o mecanismo de um relógio. Com que velocidade a corrente segue de Janeiro a Dezembro! Somos arrastados por tudo aquilo que se nos tornou tão familiar que não chega a projectar sombra. Flutuamos, flutuamos...

(...)


À segunda segue-se a terça, depois a quarta e a quinta. Cada dia espalha a mesma onda de bem-estar, repete a mesma curva de ritmo; cobre a areia fresca com um arrepio ou constrói uma pequena teia de espuma. E é assim que o ser começa a deixar crescer anéis, a identidade torna-se mais robusta. Aquilo que antes era furtivo como um pequeno grão lançado ao ar e soprado de uma lado para o outro pelas rajadas fortes da vida, passa a ser agora atirado de forma metódica numa direcção precisa, obedecendo a um objectivo - pelo menos é o que parece.


Virgínia Wolf - As Ondas