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terça-feira, julho 29, 2008
sábado, julho 19, 2008
a herança
não me lembro bem como foi que começou com ele. o avô estava a ficar esquecido, diziam-me. recordo-me, sim, de a progressão ser lenta e relativamente benigna. arterioesclerose, era o que lhe chamavam na altura. o avô tomava as gotas, mantinha-se sorridente e bonacheirão, às vezes perdia-se nos seus passeios diários. sempre calma, a avó telefonava a pedir ajuda. saímos de carro e encontrávamo-lo invariavelmente num dos pontos do seu trajecto habitual: alameda, jardim constantino, praça do chile. ficava feliz de nos ver, como se se tratasse de um encontro casual e levávamo-lo a casa. às vezes, durante os passeios de carro, lia compulsivamente os anúncios dos outdoors. ou repetia o que tinha acabado de dizer. a minha avó nunca lhe restringiu a liberdade. só quando ele ficou de fraldas e acamado, se sentiu incapaz de lidar com a situação e o internou num lar. ele tinha 85 anos e ela 80 e todos os dias saía de casa sózinha e apanhava os transportes para o ir ver. do areeiro para o príncipe real.
anos depois, a história repete-se. aos 72 anos, pouco depois de ter deixado de trabalhar, ela começa com os esquecimentos, só que, desta vez, agravados pelo pânico: "vou acabar como o meu pai". ao lado dela, também não encontrou uma presença serena como a da minha avó, antes alguém que alimentou o medo, restringiu a liberdade de acção, a substituiu nas tarefas e a isolou. a progressão foi galopante. durante cinco anos, ela fechada com ele: não mexas, eu faço, senta-te, veste-te, deita-te. ou vamos à rua, para as pessoas verem que ainda és bonita e estás bem tratada. e finalmente, ao fim de muitos anos de vida em comum, ela obedecia ao que ele mandava fazer. pena a decadência, o descontrolo, o desgaste. ele adoeceu, ela foi internada. passeia agora num corredor sombrio, os olhos cor de mel perdidos no vazio. creio que nos conhece, se bem que por vezes não saiba bem quem somos. ontem fui visitá-la. que havemos de fazer quando as palavras se tornam inúteis? como saber se há ou não sofrimento em quem não se sabe expressar? porque teima o corpo em persistir, o coração em bater, quando não se sabe de onde se veio ou para onde se vai? nem como, nem porquê.
às vezes, naquela rede de neurónios carcomida, alguma coisa faz contacto e uma frase faz sentido. quantas vezes pensamos que ela não nos entende e ela percebe tudo em silêncio? quantas vezes acontecerá o contrário?
alzheimer. na lotaria genética que nós somos, qual será a probabilidade de me calhar esta herança do meu avô e da minha mãe? que antes disso se me inundem os pulmões de fumo e as coronárias de colesterol, que se me dissolva o fígado em vinha d'alhos, que a velocidade me apanhe de surpresa na curva de uma estrada, janela aberta e pé no acelerador.
ou então, que um pedaço de vidro inunde de luz uma artéria.
anos depois, a história repete-se. aos 72 anos, pouco depois de ter deixado de trabalhar, ela começa com os esquecimentos, só que, desta vez, agravados pelo pânico: "vou acabar como o meu pai". ao lado dela, também não encontrou uma presença serena como a da minha avó, antes alguém que alimentou o medo, restringiu a liberdade de acção, a substituiu nas tarefas e a isolou. a progressão foi galopante. durante cinco anos, ela fechada com ele: não mexas, eu faço, senta-te, veste-te, deita-te. ou vamos à rua, para as pessoas verem que ainda és bonita e estás bem tratada. e finalmente, ao fim de muitos anos de vida em comum, ela obedecia ao que ele mandava fazer. pena a decadência, o descontrolo, o desgaste. ele adoeceu, ela foi internada. passeia agora num corredor sombrio, os olhos cor de mel perdidos no vazio. creio que nos conhece, se bem que por vezes não saiba bem quem somos. ontem fui visitá-la. que havemos de fazer quando as palavras se tornam inúteis? como saber se há ou não sofrimento em quem não se sabe expressar? porque teima o corpo em persistir, o coração em bater, quando não se sabe de onde se veio ou para onde se vai? nem como, nem porquê.
às vezes, naquela rede de neurónios carcomida, alguma coisa faz contacto e uma frase faz sentido. quantas vezes pensamos que ela não nos entende e ela percebe tudo em silêncio? quantas vezes acontecerá o contrário?
alzheimer. na lotaria genética que nós somos, qual será a probabilidade de me calhar esta herança do meu avô e da minha mãe? que antes disso se me inundem os pulmões de fumo e as coronárias de colesterol, que se me dissolva o fígado em vinha d'alhos, que a velocidade me apanhe de surpresa na curva de uma estrada, janela aberta e pé no acelerador.
ou então, que um pedaço de vidro inunde de luz uma artéria.
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quarta-feira, junho 18, 2008
lugares inesquecíveis # 1

sim, sou eu. 22 anos, 2o e tal kilos de mochila às costas, passe de inter-rail na mão, rumo à europa. agosto. má escolha, bem sei, mas lá teve de ser, porque no mês seguinte começava a trabalhar. 38º C à saída de lisboa e chuva durante todo o resto da viagem. primeira etapa: amsterdam. não me lembro quanto terei pago por este postal personalizado, típico recuerdo para turistas. não deve ter sido grande o montante, que o dinheiro era curto e contado, empréstimo a pagar com o primeiro ordenado e estoiradinho até ao fim. dormidas nos comboios e em sleep-inn's com beliches de três andares (imaginam os antros, em amsterdam?), tomar banho nas estações, comprar o farnel do dia no supermercado e uma vez por outra, fazer uma festa com um frango assado e umas latinhas de cerveja. há momentos que não se repetem. felizmente - digo eu - que actualmente não me imagino em tais andanças sem o confortozinho mínimo assegurado. grande era a vontade de desbravar e conhecer mundo e - sobretudo - de romper amarras, afrouxar o asfixiante laço familiar.
segunda-feira, junho 16, 2008
reencontro com o passado
a infância irrompeu-me na garganta em vermelhidão e pus. O corpo fraqueja, trai e cede, acusa sovas antigas que deixam doridos os músculos e as articulações a estalar.
We may be through with the past, but the past ain't through with us
terça-feira, maio 20, 2008
together
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner

Simone Rea
(aqui)
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner

Simone Rea
(aqui)
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you and me
quinta-feira, maio 08, 2008
happy birthday, big guy!
segunda-feira, abril 28, 2008
malfamagrifada
o meu avô adorava brincadeiras, adivinhas e cegarregas. não foi com ele que aprendi esta, mas aqui fica em jeito de homenagem a quem foi um reduto de alegria na minha tão detestada infância. Quando era pequena e lhe perguntava a idade, dizia-me a rir que ia chegar aos 200 anos. Hoje é o dia do 109º aniversário do meu velhote.
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sexta-feira, abril 25, 2008

O meu craveiro floriu a tempo, avó. Estes cravos vermelhos são a memória dos anos em que estas eram as flores que recebias no teu aniversário.
terça-feira, abril 22, 2008
tom sawyer

"TOM!"
No answer.
"TOM!"
No answer.
"What's gone with that boy, I wonder? You TOM!"
No answer.
The old lady pulled her spectacles down and looked over them about the room; then she put them up and looked out under them. She seldom or never looked through them for so small a thing as a boy; they were her state pair, the pride of her heart, and were built for "style," not service -- she could have seen through a pair of stove-lids just as well. She looked perplexed for a moment, and then said, not fiercely, but still loud enough for the furniture to hear:
"Well, I lay if I get hold of you I'll -- "
She did not finish, for by this time she was bending down and punching under the bed with the broom, and so she needed breath to punctuate the punches with. She resurrected nothing but the cat.
"I never did see the beat of that boy!"
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sábado, abril 19, 2008
abril à desgarrada

murais e canções de abril que nos são trazidas pelas mãos da joana lopes e da maria joão pires aka shyznogud.
uma série a não perder.
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quinta-feira, fevereiro 28, 2008
geografia da memória
o chão de tábuas corridas a brilhar de cera amarela. o boné do meu avô pendurado no bengaleiro. o leãozinho minúsculo do sporting na lapela do casaco. o meu avô de pé, na sala de jantar, o jornal aberto, enorme, em cima da mesa quadrada. o rádio grande sintonizado nos parodiantes de lisboa. a galinha corada no forno, com arroz branco, gomoso, para o almoço de domingo. a minha avó na cozinha, com a bata de trazer por casa, antes do banho da uma da tarde. o fogão em cima da bancada de mármore. a panelinha velha com a potassa para lavar a loiça. à saída da porta para o quintal, a gaíuta com a pia de despejos, de onde por vezes saíam enormes ratazanas. os jarros brancos nos canteiros. a roupa pendurada a secar, as cuecas brancas do meu avô, as cuecas pretas, com perna, da minha avó. o telheirinho com a máquina de lavar e o tanque, lado a lado. empoleirada no tanque, eu, de cabeça enfiada na janela sem caixilhos, a trocar cromos com a míuda dos vizinhos do lado. do outro lado do quintal, a buganvília de flores roxas da outra vizinha, mais velha, que por vezes também aparecia junto ao muro, para me entreter. a àgua aquecida em grandes panelas para o banho de imersão da minha avó. as dentaduras lavadas com sabão azul e branco. a mistura de glicerina e àgua de rosas que lhes amaciava as mãos. as janelas abertas para arejar a casa. a colcha vermelha e o travesseiro da cama dos meus avós, o telefone preto em cima da mesa de cabeceira com tampo de mármore. o espelho do guarda-vestidos em frente. na sala de jantar, o sofá-cama onde eu ficava quando dormia lá e a minha avó me contava histórias para adormecer. a cevada feita pela minha avó na cafeteira e as bolachas short-cake barradas com manteiga para o pequeno almoço. sózinhas, depois de o meu avô saír cedo para trabalhar. os livros ao meu alcance, os de bolso, da colecção rtp e os do círculo de leitores. horas a ler, sentada ou deitada de bruços na carpete verde da sala, a minha avó na cadeira baixinha, com um relevo de uma cara feminina no tampo de madeira. retalhos da vida de um médico, contos de natal, as pupilas do senhor reitor, david copperfield, oliver twist, as vinhas da ira. a janela para ver quem passava na rua. a senhora que morava em frente, a passear os sucessivos benficas e jolis, bamboleando-se, a rebinchar de gordos. o espectáculo de fazer saír um caixão por uma janela de um terceiro andar. o rapaz da mercearia em frente a atravessar a rua com um caixote de madeira ao ombro, com as encomendas da minha avó. a vizinha-alice à porta, a perguntar-lhe se queria alguma coisa da praça. o amola-tesouras-e-navalhas a passar na rua, o assobio a adivinhar chuva, segundo dizia a minha avó, sem que eu nunca tivesse percebido porquê. o meu avô a subir a rua, com uma caixinha de cartão com bolinhos ou amêndoas e eu a sair a correr ao encontro dele, a torcer um pé, uma vez até levei uma bota de gesso, assinada depois pelos colegas na escola. antes de jantar, na salinha da televisão, eu e o meu avô sentados nos sofás de napa preta, e a mesinha desdobrável entre nós a servir para os jogos de cartas, dominó, damas, xadrez, jogo do galo, batalha naval. o jantar servido nessa mesma mesa, a minha avó sentada na sua cadeirinha de espaldar. na televisão a preto e branco, vitorino nemésio, se bem me lembro, ou as conversas em família do marcelo caetano. depois do jantar, eu e a minha avó a ver filmes até ao hino nacional e à mira técnica. ivan o terrível, foi a primeira vez que me deitei à uma da manhã. às vezes o meu avô na cozinha a fazer pastéis de bacalhau, as colheres de sopa a roçarem uma na outra para lhes dar forma e a minha avó a refilar de ele estar ali ainda de casaco vestido. ao sábado, as idas com o meu avô ao mercado de arroios ou à fonte luminosa. os barquinhos de papel que ele me fazia a flutuarem no lago. as notas de vinte escudos do santo antónio que o meu avô me dava ao fim de semana. as moedas que eu pedinchava todo o dia à minha avó para ir à papelaria comprar cromos ou pastilhas. os rebuçados do dr. bayard nos bolsos do meu avô. as pastilhas valda de mentol. a máquina da costura e quinquilharias várias na dispensa, ao fundo do corredor. a senhor'ana, que fazia limpezas lá em casa, sempre de carrapito e vestida de preto, a mesma que me carregava às cavalitas quando encerava o chão, a envelhecer ao lado dos meus avós. o ovo estrelado que a minha avó me fazia para o lanche quando lá ia depois das aulas de francês. a minha avó já sozinha, a televisão ligada aos berros sem ouvir o telefone a tocar. nos últimos anos, eu a passar para a visitar, para lhe levar comida feita e ela, sempre cúmplice, a dar-me dinheiro para a gasolina ou para o tabaco.
escrevo como se estivesse dentro da casa, como se lhe sentisse o cheiro. há mais de treze anos que não passo sequer naquela rua. uns vizinhos que ignoro quem sejam, contestaram a possibilidade de eu ficar com o arrendamento, porque nós éramos ricos. tão ricos que só dez anos depois consegui ter uma casa minha. mas o que mais me rói é que me tenham roubado o lugar das minhas memórias. o que terão feito da casa dos meus avós? nunca mais fui capaz de passar àquela porta, nem eu, nem a minha mãe. no mapa de lisboa, a rua abade faria desapareceu, existe apenas cristalizada na minha memória. no mais fundo de mim, um rancor surdo, o desejo que a família que ocupou aquela casa nunca lá seja feliz.
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quinta-feira, dezembro 13, 2007
Os Jetsons

O post anterior fez-me lembrar os desenhos animados dos Jetsons. A família, criada nos anos 60 por Hanna-Barbera, viajava no espaço, tinha carros voadores, computadores e, melhor que tudo, tinha um robot chamado Rosie, que se encarregava das tarefas domésticas. Quando era pequena e os via na televisão, acreditava que o futuro - a acção situava-se no século XXI - podia ser assim. Agora que penso nisso, sinto-me um tanto defraudada nas expectativas que me criaram na infância.
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quinta-feira, setembro 20, 2007
Lisbon revisited # 1
A vida leva-nos por caminhos não previstos. Se aprendi a apreciar algumas das liberdades de que posso usufruir por viver fora da capital, terei sempre um fascínio pelas cidades, serei sempre lisboeta dos quatro costados. Por alguns relatos da família próxima, entrevi um pouco do crescimento de Lisboa e, dada a minha provecta idade (cóf, cóf...), relembro ainda algumas das personagens tipicamente lisboetas, entretanto desaparecidas, como os amoladores de tesouras e navalhas ou a mulher da fava rica. Segundo reza a história familiar, o meu tetravô materno terá sido dono do Areeiro, antes de desbaratar ao jogo todo o dinheiro que, lá por casa, andava ao molho dentro de potes. Assim me contava a minha avó, recordando uma velhota que lhe pegava ao colo quando ela era menina e lhe dizia, abarcando com os braços a extensão que a vista alcançava, quando a zona era ainda predominantemente agrícola: podias ter sido dona de tudo isto. Confesso que partilho do pesar da minha avó, não me importava nada de ter sido única herdeira do dono do Areeiro. Ela porém, que no Areeiro viveu toda a sua vida, nunca se deteve em carpir mágoas antigas e era um exemplo de serenidade e confiança como nunca conheci outro em toda a minha vida. Contava-me esta história no meio de muitas outras narrativas. Falava-me da mãe - muito nervosa - que, quando se enfurecia corria atrás dela com a machadinha de cortar a lenha, para depois lamentar os seus ímpetos assassinos e louvar a rapidez da gaiata em fuga para debaixo da cama para salvar a pele. Do pai, mulherengo e gastador, pouco me disse além do nome, do afecto e da saudade que lhe dedicou toda a vida, expulso de casa pela mulher intempestiva, que peremptóriamente recusou para os seus gastos supérfluos o dinheiro da casa que entendeu que não lhe pertencia, mas que nunca deixou de lamentar as palavras bruscas e desabridas que para sempre o levaram para longe dela. Nem por isso a condenava: Á sua pergunta Se o pai viesse para casa, aceitava-o de volta? bastou-lhe sempre a lacónica resposta Então pois, filha..., reveladora remorso da mulher cujos gestos e palavras lhe saíam antes de ter tempo para pensar. Desgosto, resignadamente assumido, era o de não ter estudado mais do que a terceira classe, por a mãe não desejar favorecer a educação da primogénita em detrimento da mais nova, pouco dada aos estudos - ou nas palavras da minha avó, pouco dada a eufemismos - burra com todas as letras e culpada de não querer aprender, um dos maiores pecados, segundo o original código de conduta que pautou a vida da minha avó. Viveu até aos noventa anos, manifestando sempre considerável abertura à modernidade e dona de uma muito razoável biblioteca, a qual ainda me proporcionou muitas horas de imersão total na leitura.
Ainda do lado materno, registo a memória de uma tia - irmã do meu avô - que morava em plena Av. Almirante Reis, numa enorme casa onde tinha também o atelier onde exercia como modista de chapéus, profissão entretanto caída em decadência, mas que nunca deixou de alardear com orgulho e frequência crescentes, sobretudo à medida que a velhice e a perda de memória lhe foram tomando conta dos solitários dias.
O meu avô, a quem o estatuto de funcionário hierarquicamente bem colocado na Câmara Municipal de Lisboa, lhe poderia ter rendido uma vivenda própria no - à altura - novo Bairro da Encarnação, sempre recusou saír do centro de Lisboa e do eixo Alameda-Areeiro, onde fez os seus passeios até ter deixado de ser capaz de saír de casa, mesmo quando nem sempre sabia como regressar e tínhamos de o procurar ao longo dos seus roteiros habituais.
O outro lado da família provém de um dos chamados bairros populares: O casalinho da Ajuda. O meu pai cresceu num pátio daqueles em que toda a vizinhança quase fazia parte da vida familiar, nadou nas docas de alcântara, trabalhou nos estaleiros da Cuf.
Tal como a vida, também a escrita nos leva por caminhos não previstos. Lisboa corre-me nas veias. Este post era para ser sobre a memória da cidade, a minha, directa, e a que me foi transmitida por aqueles que me foram próximos. Serve de introdução a uma série de imagens de Lisboa desaparecida, revisitada através das lentes de fotógrafos como Joshua Benoliel ou Gérard Castello-Lopes. Talvez seja também, para mim, o renascer da escrita, há muito bloqueada ou reduzida a frases soltas e nuas. A ver vamos.
Joshua Benoliel - Fotos do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa
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domingo, setembro 16, 2007
Tanto tempo mãe para cá estar
para tratar da vida
para tratar da morte
para tratar de tudo.
Tanto tempo mãe com o tempo todo mudo.
Tanto tempo mãe tanto de tudo.
Quero exilar-me mãe
quero tratar
não me quero matar
quero a morte quando for morte
só quero a morte à dita sorte
de estar escrita na vida
mãe seja predita e diga-me mãe
para que foi tanto cansaço
tão pouco espaço
tanta falta de espaço
na vida.
Mãe, só a vida.
Vida, vida.
para tratar da vida
para tratar da morte
para tratar de tudo.
Tanto tempo mãe com o tempo todo mudo.
Tanto tempo mãe tanto de tudo.
Quero exilar-me mãe
quero tratar
não me quero matar
quero a morte quando for morte
só quero a morte à dita sorte
de estar escrita na vida
mãe seja predita e diga-me mãe
para que foi tanto cansaço
tão pouco espaço
tanta falta de espaço
na vida.
Mãe, só a vida.
Vida, vida.
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segunda-feira, agosto 27, 2007
todos temos um passado*
Devo estar a ficar velha, ultimamente dá-me para os momentos revivalistas. Como diz a menina-alice,todos temos um passado e apesar de não ter saudades da infância, vêm-me agora mais frequentemente à memória em modo de flash, recordações esbatidas pela passagem do tempo.
no youtube descobri os genéricos de abertura de algumas séries de tv que me prendiam ao écran:
Flipper:
Skippy:
Mr. Ed:
Pippi:
Pequenos vagabundos:
*label roubada na complicadíssima teia
segunda-feira, agosto 06, 2007
rosa de hiroshima
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terça-feira, julho 31, 2007
43
domingo, maio 20, 2007
para ti
Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
Daniel Faria
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