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terça-feira, março 02, 2010

meia-noite todo o dia

Não voltarei a ser jovem


Que a vida é a sério
só mais tarde o começamos a entender
— como todos os jovens, eu vim
para levar a vida em frente.

Queria deixar marca
e sair entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Mas passou o tempo
e a desagradável verdade assoma:
envelhecer, morrer,
são o único argumento da peça.


Jaime Gil de Biedma



"roubado" ao manuel a. domingos

quinta-feira, novembro 12, 2009

para sempre



se alguém disser que morreste, avançarei até à varanda do céu
escutarei a noite e recolherei o teu corpo da espuma dos planetas.
não deixarei que o teu rosto se dissolva nas minhas mãos,
insistirei no teu nome até que o mar ascenda à minha boca
e de luar em luar celebrarei o coração que fizeste meu, mudamente
porque o amor sobrevive às veias paradas do sangue.


adaptação de um poema de vasco gato, encontrado aqui


há um ano, por esta hora, estava a receber o pior telefonema da minha vida e inexplicavelmente soube-o assim que ouvi o toque do telemóvel. um ano, trezentos e sessenta e cinco dias. foi ontem. foi há uma eternidade.


domingo, outubro 18, 2009

sinto-me tão fraquinha...



Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum...



astérix e obélix, heróis da minha infância, estão à beira dos 50 anos.

uderzo já revelou o título e a capa da edição especial do álbum que comemora os 50 anos das aventuras de astérix: 56 páginas com pranchas inéditas e textos nunca publicados de goscinny.





segunda-feira, maio 04, 2009

o último amigo



enquanto todos reagem à notícia da morte de vasco granja sublinhando o seu papel de agente cultural na divulgação de cartoons, desenho animado e banda desenhada em portugal, eu guardo dele uma recordação invulgar, pessoal e terna. mais do que o homem que animou a minha infância, entrando na minha casa pelo ecrã da tv, vasco granja acabou por ser aquele que encaro como o último amigo da minha mãe. foi em maio do ano passado que ambos se cruzaram numa instituição de saúde dedicada a cuidados geriátricos. desde o primeiro olhar que os vi trocar, tornou-se evidente a empatia mútua e durante todo o tempo que durou o internamento conjunto criaram um elo de ligação que me levava, quase invariavelmente, a encontrá-los juntos nas horas de visita. é por isso que, por mais que tente focar a memória e enquadrá-lo numa televisão a preto e branco, logo se sobrepõem outras recordações mais recentes, mais intensas, que se lhe sobrepõem e esbatem a imagem antiga. lembro-lhe o sorriso e o brilho dos olhos azuis, as tentativas de diálogo com a minha mãe, já incapaz de uma conversa inteligível, a delicadeza dos gestos cavalheirescos que tinha para com ela e que certamente a encantaram. ela, reservada, mas sempre vaidosa e coquette até ao fim dos seus dias, creio que chegava a flirtar um pouco com ele. esta situação, simultaneamente descarada e inocente, tão semelhante apesar de tão nos antípodas dos "namoros" das crianças pequenas, quase chegou ao ponto de fomentar algumas inquietações ao meu pai, não fosse eu - enternecida e divertida - deitar água na fervura do ciúme em que ele ardia.
ela tinha 80 anos quando nos deixou, em novembro. ele, segundo li na notícia, tinha 83. muitas vezes me perguntei o que seria feito dele. hoje soube. não falarei agora da perda cultural que foi para o país, embora me doa e enfureça a cretinice sem nome de a televisão pública ter destruído o arquivo histórico dos seus programas. mas não foi essa perda de que todos falam - e que também me é comum - que me fez saltar as lágrimas mal li o anúncio da sua morte. foi a recordação da minha mãe com a cabeça encostada no seu ombro. por ela, falei apenas do seu último amigo, do último homem que a fez sentir e agir como a mulher que sempre conheci.

à família do vasco, se calhar a ler-me, um abraço da filha da gisela.


segunda-feira, março 16, 2009

revivendo o passado

O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas.

a viagem do elefante - josé saramago



calha esta citação de vir a propósito das reflexões da maria correia, no olivesaria.

para todos nós, os da geração desencantada, da inocência perdida, a banda sonora que falta no post do olivesaria, no final de um filme memorável que - não por acaso - é o nome deste blog:





terça-feira, março 03, 2009

rua da lapa, 16-18

o que é o tempo, afinal?



a história do sr. oliveira e da loja que tem 120 anos.

vale a pena passar por .

via twitter da memória virtual

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

o computador ao alcance de todos



uma delícia, esta capa da revista vida mundial de há 40 anos. vale a pena ler a história no certamente!

via twitter

domingo, fevereiro 15, 2009

marx


"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

lido aqui

quarta-feira, janeiro 14, 2009

palácio braamcamp

vi a notícia no dn. a cml - como já há muito se murmurava - vai alienar património. não vou começar por discutir se a decisão é lícita ou proveitosa, mas parte da informação que é veículada ao público, é incorrecta.
sobre os imóveis - palacetes destinados à venda para conversão em hotéis de charme - diz-se que estavam votados ao abandono e em processo de degradação. ora acontece que conheço muito bem um dos edifícios, o palácio braamcamp. nele funcionou, durante décadas, a caixa de previdência do pessoal da cml. nele trabalhou, durante cerca de 40 anos, a minha mãe. dele foram despejados, no ano passado, os funcionários que ainda lá trabalhavam, tranferidos para o novo edifício dos serviços sociais da cml, no areeiro.
há muito que planeava fazer este périplo por mais um local da geografia da minha memória. por coincidência, foi ontem também que me chegou às mãos o livro do dr. jorge trigo, sobre a história do palacete e dos seus ocupantes.
a propósito do suposto estado de degradação e abandono do palácio braamcamp, deixo-vos com algumas fotos do seu livro. para que os que aqui passarem, possam avaliar por si próprios da veracidade das afirmações que são passadas para a opinião pública, pelos nossos dirigentes políticos, através dos jornais.










por este palacete passaram pessoas que fizeram história, como d. joão da costa, um dos conjurados que prendeu a duquesa de mântua, d. catarina de bragança, raínha de inglaterra, os filhos ilegítimos de d. pedro II, o abade de livry, embaixador de frança. neste local se instalou o teatro do bairro alto e as concorridas óperas do séc. XVIII. atingido pelo terramoto de 1755, foi reconstruído por anselmo braamcamp para sua residência pessoal, com recurso às estruturas mestras que subsistiram. posteriormente albergou a escola francesa de lisboa e por fim a caixa de previdência do pessoal da cml. jorge trigo realça, no seu livro, que o palácio braamcamp constitui um vasto acervo de conhecimentos históricos e é uma referência importante da história de lisboa...nada disso parece importar perante a perspectiva de dinheiro fácil. se construíram um condomínio de luxo na antónio maria cardoso, se até na prisão de peniche almejam construír um hotel de charme, porque não o hão-de fazer em qualquer outro edifício histórico? isto da história, da cultura e da memória não passam de empecilhos que uns quantos intelectuais da treta querem colocar no glorioso caminho do progresso e da ambição das novas elites endinheiradas que sonham desfrutar de locais com charme, exclusivos e bem longe da populaça que não pode aceder a esses luxos e que se quer ignorante e mansa, desfolhando revistas inenarráveis e suspirando por existências telenovelescas.


neste palacete, do qual só recentemente aprendi o nome e a história mais antiga, vi, ao longo dos anos, inúmeras pessoas a serem atendidas com profissionalismo, respeito e dignidade, como raramente se deve encontrar numa repartição pública. gente vulgar, gente comum, com doenças, problemas sociais, reclamações e pedidos. ali fui atendida, até aos dezoito anos, pelos melhores médicos que tive em toda a minha vida. ali brinquei quando era pequena, descobrindo o fascínio de agrafadores, tinteiros, furadores, máquinas de escrever, o funcionamento do pbx, o selo branco dos serviços. ali entrava, envergonhada e de olhos no chão, antecipando o momento de puro horror em que tinha de me deslocar de secretária em secretária, para cumprimentar com um beijinho todas as gerações de funcionários que a minha mãe chefiou e ajudou a formar, tendo sempre em mente o carácter de serviço público que era imperioso prestar aos utentes. ou beneficiários, como sempre lhe ouvi chamar-lhes. outros tempos, outras terminologias. eram, de facto, beneficiários de uma pequena organização que existia para os servir.


lamento o destino anunciado do palácio braamcamp. desejaria vê-lo preservado como edifício de utilidade pública e de livre acesso. uma biblioteca, uma galeria de arte,um museu, qualquer coisa de útil. uma vez mais recorro às palavras de jorge trigo no seu desejo expresso em jeito de conclusão do seu livro (cuja leitura recomendo): seja qual for a opção da câmara municipal de lisboa, como proprietária do edifício, é fundamental que a finalidade se identifique com uma vertente cultural (...) deve-se criar condições para que todo o seu explendor de beleza e requinte possa ser apreciado. infelizmente assim não será. escrevo com raiva e tristeza esta crónica de trazer por casa. é a minha despedida e o meu pequeno contributo para que não vingue a mentira, para que não se apague mais uma memória.



nota - o palácio braamcamp situa-se em pleno coração do bairro alto, no páteo do tijolo, com ampla vista sobre lisboa e o tejo. no pátio, junto ao varandim do miradouro, existiam bancos de jardim e uma árvore, de flores (ou folhas modificadas?) vermelhas e carnudas, que adquire um aspecto fantástico durante o inverno. nas fotos que pesquisei -no arquivo municipal de lisboa - da envolvente do edifício, essa àrvore não está visível. gostaria muito de ter informação sobre de que tipo de espécime se trata e também de um registo de imagem da mesma. antecipadamente grata a quem me possa fazer chegar mais essa pecinha do puzzle.
agradeço ainda ao dr. jorge trigo a oferta do seu livro, a qual me permitiu dar suporte à minha memória.


objectos com memória # 3



dei ontem corda ao velhinho roamer da minha mãe, fora de uso desde que ela deixou de conseguir ver as horas no minúsculo mostrador. está a funcionar na perfeição e - surpreendentemente - cabe no meu pulso.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

objectos com memória # 2



isqueiro s.t. dupont
(oferecido ao meu pai, quando era fumador)

quarta-feira, dezembro 31, 2008

alien

um dia. mais um. sem pressões, horários, alegria por encomenda. sem entusiasmo de ocasião, sem centenas de sms's e telefonemas e mails que se tornam quase obrigatórios a assinalar estas datas supostamente festivas. não encaixo, lamento - na verdade, não sei se lamento - no formato tradicional. acabei de tomar banho e vesti um pijama confortável. faltou-me a paciência de ir à biblioteca para trazer filmes que constituissem alternativa ao programa de televisão. já vi um filme idiota enquanto petiscava paio, queijo, patê e vinho tinto. quase não tenho leite e tenho a certeza de que me faltam outras cenas mais ou menos prementes no frigorífico, mas não hei-de morrer de fome por não ter enfrentado o consumismo desenfreado do último dia do ano. mais logo, há camarões para cozer e espumante bruto. para os doces, basta-me um bolo que uma amiga me ofereceu, só porque calhou. tenho os meus bichos e a companhia de quem também não lhe apetece obrigações festivas. não tenho programa, para além de deixar correr o dia. o mundo, amanhã de manhã, será o mesmo de hoje. deste ano que passou, não há balanço possível. de tempos a tempos, um gato roça-me nas pernas. na rádio, ouve-se jazz, baixinho.

terça-feira, dezembro 09, 2008

saír do armário


bicho-do-mato. sem irmãos, sem primos. a menina de botas ortopédicas que desatava mal saía de casa, atafulhada de roupa para não se constipar, a boina guardada dentro da pasta da escola para não ser gozada pelos colegas. resistência passiva. numa redoma.

as tardes em casa, vigiada pela avó paterna, parada, especada à porta do quarto - incapaz de um ardil ou subtileza - a olhar para mim. perguntava-lhe o que estava a fazer ali, a segurar a ombreira da porta e ela, com a honestidade dos que passaram a vida a obedecer, respondia-me que o meu pai a tinha mandado ver o que eu fazia, dentro das quatro paredes do meu quarto.

o corredor era comprido. comprido e largo, com um recanto onde mais tarde se fez um guarda-fatos, de parede a parede. nele aprendi primeiro a andar de triciclo, de bicicleta depois, antes de ter obtido autorização para ir para as primeiras voltas no passeio, em redor dos prédios. o sr. amaro, um braço paralisado, tinha uma oficina improvisada para remendar os furos dos pneus das bicicletas de toda a canalha. sem mão(s) a medir.

pedalar rua acima, rua abaixo, em redor do jardim da companhia das àguas. andar por cima do muro, saltar na parte mais alta, chupar as flores cor-de-rosa dos arbustos, colher as bolinhas laranja para soprar por zarabatanas improvisadas. os mesmos arbustos onde mais tarde me escondi com colegas para fumarmos os primeiros cigarros roubados ao meu pai.

até aos 10 anos, o colégio. filinhas ordeiras para as aulas, para o refeitório, para as visitas de estudo. o horror ao ballet, às aulas de ginástica. um canto para me enfiar ao abrigo dos olhares e gracejos e implicâncias dos miúdos mais desembaraçados. um dia, a professora mandou-me ir buscar um apagador à sala do lado. entrei tão silenciosamente que ninguém deu por mim. a aula prosseguiu e eu ali, parada, sem coragem para interromper, sem coragem para voltar para trás de mãos a abanar. neste impasse, uma porta aberta de um armário e eu metida lá dentro, acocorada, até se terem lembrado de ir procurar por mim.

"não". consta que foi a primeira palavra que aprendi a dizer. so quiet, so low-profile. and yet... boa aluna, tentaram fazer-me chefe de grupo, mas a semente da anarquia estragava-me o perfil de "capataz". esgueirava-me antes de me irem buscar à porta do colégio, para ir sozinha para casa, envergonhada e asfixiada pela super-protecção.

o ambiente que se viveu após 74 e a transição para a escola preparatória, foi o fósforo aceso no rastilho de pólvora comprimida. a passagem da resistência passiva para a rebelião descarada. a adolescência em pé de guerra.

a geração que viu os helicópteros a sobrevoar a fernando pessoa no 11 de março e ia ouvindo os rumores do que se estava a passar no ralis. o pai de uma colega que teve de fugir para o brasil. os professores que eram levados a conselho directivo por turmas em peso. e aqueles em que não se tocava nem num cabelo, defendidos pelos mesmos pequenos selvagens que aprendiam em (quase) auto-gestão que o respeito não se obtinha por decreto ou hierarquia. tinha que se merecer.

escapar à vigilância do sr. lima e ao seu manso pastor alemão e passar as redes da escola para ir comprar gelados à sorraia. caramelo, chocolate, morango. gelados de máquina, em cone, a vinte e cinco tostões, subtraídos ao cofre onde guardava as moeditas que ia cravando aos meus avós, as notinhas verdes do santo antónio a cada fim-de-semana.

saír da fernando pessoa para os viveiros. um lamaçal, os pavilhões ainda em construção. a sala "de convívio" tinha só as paredes. alguns colegas roubavam sódio nos laboratórios de química para fazer fogos de artifício nas poças das casas de banho que as empregadas não limpavam nunca. os esqueletos com um lencinho na cabeça e um cigarro no maxilar escancarado. cadeiras partidas, brincadeiras com extintores, o pó vermelho do chão. tóxico, segundo se dizia. alguns professores que nos dias quentes nos levavam para aulas ao ar livre, sentados na relva, fora dos muros da escola. os "furos", os tempos livres, a era de ouro das conversas intermináveis. sobre tudo e sobre nada.

amizades que perduraram, outras a que se perdeu o rasto. os primeiros copos, as aventuras para lá dos limites do bairro, as horas de regresso a casa cada vez mais esticadas.

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suponho que cresci. ou faço de conta que sim. não mudei o mundo. não sei se o mundo me mudou a mim. passou a época das rebeliões. ainda sei dizer não, mas voltei a "desapertar as botas" quando ninguém está a ver. e quantas, quantas vezes sinto que continuo a lutar comigo mesma para saír daquele armário.


sábado, dezembro 06, 2008

olivesaria


sim, sou uma azeitona, como recentemente me apelidaram no olivesaria. um blog que recomendo a quem - como eu - cresceu e viveu nos olivais.

terça-feira, novembro 18, 2008




Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.


domingo, novembro 09, 2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

livros # 2

O Meu Pé de Laranja-Lima

da série todos temos um passado

Creio que foi o meu primeiro livro, descontando as colecções da Enid Blyton e os livros "aos quadradinhos". Li-o numa tarde de sol, durante as férias - que eram o meu exílio no campo - estirada numa cama de campismo. Por qualquer motivo que não recordo, não me levaram à praia - o meu horizonte de evasão - e eu sentia-me triste e só.

Sem uma palavra, a minha mãe entregou-mo nas mãos. Creio que talvez me tenha querido levar consolo e companhia.

Zezé foi o meu companheiro dessa tarde e de muitos outros dias. É mais um dos meus livros de capa desfeita, que recuso mandar reencadernar.




A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou ‘dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. [...] Totoca me deu um puxão. Eu acordei. - Que é que você tem, Zezé? - Nada. Tava cantando. - Cantando? É. Então eu devo estar ficando surdo. Será que ele não sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia eu não ensinava. Tínhamos chegado na beira da estrada Rio-São Paulo. Passava tudo nela. Caminhão, automóvel, carroça e bicicleta. - Olhe, Zezé, isso é importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora. Atravessamos correndo a estrada. - Teve medo? Bem que tive mas fiz não com a cabeça. - Nós vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se você aprendeu. Voltamos.
- Agora você sozinho. Nada de medo que você está ficando um homenzinho. Meu coração acelerou. - Agora. Vai. Meti o pé e quase não respirava. Esperei um pedaço e ele deu o sinal para que eu voltasse. - Pela primeira vez, você foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para você. Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.
Totoca. - Que é? - Idade da razão pesa? - Que besteira é essa? - Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era "precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença. - Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua, cabeça. - Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço. Por que gravata de laço? Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço. - Zezé, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso. - Então ele é filho da puta? - Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco. - Você falou que ele era mentiroso. - Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: “o filho da puta do velho mente pra burro"... E ninguém bateu na boca dele. - Gente grande pode dizer, que não faz mal. Fizemos uma pausa. - Tio Edmundo não é... Que é que é mesmo trongola, Totoca? Ele girou o dedo na cabeça. - Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força. Totoca deu um pulo. - Ele deu uma palmada em você? Quando? - Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão. -Vai buscar que eu dou. - Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. - “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão. Totoca riu. - Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca. Eu continuava pensando em Tio Edmundo. Totoca, criança é aposentado? O quê? Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo mês. - E daí? - Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais. - Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe. Paramos e Totoca apontou a casa.
- É bem ali. Você gosta? Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.
- Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para cá?
- É bom a gente sempre se mudar. Ficamos observando pela cerca um pé de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro. - Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.
Demorou um pouco, em silêncio.
- Totoca, vão trazer a pantera negra e as duas leoas pra cá?
- Claro que vão. E o escravo aqui é que vai ter de desmontar o galinheiro. Me
olhou com certa meiguice e pena. - Eu é que vou desmontar o jardim zoológico e armar ele aqui. Fiquei aliviado. Porque senão eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmãozinho mais novo: Luís.
- Bem, viu como eu sou seu amigo, Zezé. Agora não custava me contar como foi que você conseguiu "aquilo"...
- Juro, Totoca, que não sei. Não sei mesmo.
- Você está mentindo. Você estudou com alguém.
- Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo. Totoca estava perplexo. No começo até me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.
- Ninguém aprende essas coisas sozinho. Mas ficava embatucado porque realmente ninguém vira ninguém me ensinar nada. Era um mistério. Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A família ficou atarantada.
Começou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.
- Titio.
- Que é, meu filho. Ele puxou os óculos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.
- Quando o senhor aprendeu a ler?
- Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
- E uma pessoa pode ler com cinco anos?
- Poder, pode. Ninguém gosta de fazer isso porque a criança ainda é muito pequena.
- Como é que o senhor aprendeu a ler?
- Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.
- Todo mundo tem que fazer assim?
- Que eu saiba, sim.
- Mas todo mundo mesmo?
- Ele me olhou intrigado. Olhe, Zezé, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal. Colocou os óculos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu não saí do canto.
- Que pena!... A exclamação saiu tão sentida que ele de novo trouxe os óculos para a ponta do nariz.
- Não adianta, quando você quer...
- É que eu vim lá de casa, andei pra burro só para contar uma coisa para o senhor.
- Então vamos, conte.
- Não. Não é assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.
- Depois de amanhã. Deu um suave sorriso me estudando.
- E quando é depois de amanhã?
- Sexta-feira. - Pois na sexta-feira o senhor não quer trazer um “Raio de Luar”
pra mim, da cidade?
- Vamos devagar, Zezé. O que é Raio de Luar?
- É o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele é Fred Thompson. É um cavalo ensinado.
- Você quer que eu traga um cavalinho de rodas?
- Não, senhor. Quero aquele que tem uma cabeça de pau com rédeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde. Ele continuou rindo.
- Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
- Eu faço uma coisa pro senhor.
- Um beijo?
- Não gosto muito de beijos.
- Um abraço?
Aí eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho lá dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos ... Vivia tão sozinho e caminhava devagar, devagar ... Quem sabe se ele não andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para ele. Dei a volta na mesa e apertei com força o seu pescoço. Senti o seu cabelo branco roçar na minha testa, bem macio.
- Isto não é pelo cavalinho. O que eu vou fazer é outra coisa. Vou ler.
- Você sabe ler, Zezé? Que história é essa? Quem foi que lhe ensinou?
- Ninguém.
- Você está com lorotas.
Me afastei e da porta comentei: - Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu não leio!... Depois quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampião porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos pés para ver a “estrela”. Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma oração para proteger a casa. - Jandira me pegue no colo que eu vou ler ali.
- Deixe de invenções, Zezé. Estou muito ocupada.
- Pois me pegue e veja se eu não sei ler.
- Olhe, Zezé, se você estiver me aprontando alguma, você vai ver. Me colocou no colo e me levou bem atrás da porta.
- Então, leia. Quero ver.
Aí eu li mesmo. Li a oração que pedia aos céus, bênção e protecção para a casa e afugentasse os maus espíritos. Jandira me depositou no chão. Estava de queixo caído.
- Zezé, você decorou aquilo. Você está me enganando.
- Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
- Ninguém pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?
- Ninguém.
Ela pegou um pedaço de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glória. Glória ficou nervosa e foi chamar Alaíde. Em dez minutos uma porção de gente da vizinhança veio ver o fenómeno. Era isso que Totoca estava querendo saber.
- Ele ensinou e prometeu o cavalinho se você aprendesse.
- Não foi, não.
- Eu vou perguntar a ele.
- Pois vá perguntar. Eu não sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse eu contava pra você.
- Então vamos embora. Você vai ver. Quando precisar de uma coisa... Pegou minha mão, zangado, e me puxou de volta para a casa. Aí ele pensou numa coisa para se vingar.
- Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro. Aquilo tinha sido idéia de Jandira. Assim a casa ficava a manhã inteira em paz e eu aprendia a ter modos. - Vamos treinar a Rio-São Paulo. Porque não pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando você todo tempo. Você é muito sabido, que aprenda logo isso também.

Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver. Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remédio. - “Esse produto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo”. Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal. - Mamãe. Até Pharmacia ele leu direitinho. Os dois juntos começaram a me dar coisas para ler e eu lia tudo. Minha avó resmungou que o mundo estava perdido.
Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Então ele pegou no meu queixo e me falou emocionado.
- Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor. Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola. - Isto você não entende. É a história de José do Egipto. Quando você crescer mais eu conto essa história. Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.
Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio
Edmundo e perguntei:
- A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?...

quinta-feira, julho 31, 2008

do baú das recordações


há 44 anos

quarta-feira, julho 30, 2008

countdown # 3


countdown # 2